É coisa que se aprende novo, em simulacros de emergência e quejandos: quando há um tremor de terra, uma pessoa nunca pode assumir que o pior já passou e sair do seu abrigo achando-se em segurança, porque existe sempre o risco de réplicas.

A explosão ocorrida em Beirute há seis dias teve um impacto semelhante ao de um terramoto — a sua força foi avaliada em 3.3 de magnitude na escala de Richter —, mas as suas réplicas não foram físicas.

Enquanto ainda se vão contabilizando vítimas mortais — o balanço oficial é de 160 mortos, o não oficial é de 165 —, o impacto fez agora desabar o próprio edifício político do país, tendo o primeiro-ministro do Líbano, Hassan Diab, anunciado a demissão do seu Governo.

Depois de ter sugerido eleições antecipadas, a decisão de Diab pareceu tão inevitável como o tombo de um dominó colocado numa sequência de peças irremediavelmente em queda, dado que já tinham sido registadas mais duas demissões no seu executivo, quatro ao todo, desta feita da ministra da Justiça e do ministra das Finanças. Ontem, tinham sido a ministra da Informação e o ministro do Ambiente e do Desenvolvimento Administrativo.

As razões para as demissões casam com a motivação para a queda do Governo no seu todo. Diab, um independente, admitiu a incapacidade do seu executivo de lidar com a “corrupção endémica na política, na administração e no Estado”, a mesma que, a seu ver, levou à explosão que provocou um “terramoto que atingiu o país, com todas as suas consequências humanitárias, sociais e económicas”.

Recorde-se que a causa apontada como a mais provável para a explosão foi o armazenamento de 2.750 toneladas de nitrato de amónio no porto de Beirute, abandonadas num barco aí fundeado desde 2013 e que, defende-se Diab, foram aí deixadas por manifesta incompetência e corrupção da classe política que governou o Líbano.

Por isso mesmo, apesar de ele próprio ter sido eleito a partir do mesmo sistema que critica — o seu governo foi eleito pelo movimento xiita Hezbollah e os seus aliados — o primeiro-ministro disse estar a “dar seguimento à exigência do povo por verdadeiras mudanças”, querendo “dar um passo para trás para estar com o povo”.

O anúncio de Diab foi feito numa fase em que se mantém a tensão em Beirute, com protestos entre manifestantes e polícia a acontecerem há três dias consecutivos. A decisão era esperada, mas nem por isso satisfez os libaneses que protestam contra, mais do que um executivo em específico, a própria arquitetura do poder libanês.

Como recorda o Guardian, depois do Líbano sair dos escombros da guerra civil que devastou o país entre 1975 e 1990, estabeleceu-se uma rede de clientelas entre políticos, líderes militares e oligarcas que tomaram conta dos serviços essenciais do país, tornando a classe política libanesa dependente da sua patronagem. Tudo isto, assentando num equilíbrio ténue de sectarismo entre forças pró e os anti sírias, já que o país esteve sob a tutela síria dos anos 1990 até à retirada dos militares em 2005.

Como acontece em muitos outros países do Médio Oriente, o povo libanês tem sofrido com o facto do seu país ser utilizado como uma arma de arremesso entre potências locais e mundiais, com Israel, Irão, EUA e Arábia Saudita à cabeça.

Por isso mesmo, quem se manifesta não quer apenas um novo Governo, quer uma nova forma de governar. O mesmo parece exigir Emmanuel Macron. O presidente da França assumiu-se como a grande figura ocidental a apoiar o Líbano — o que é natural, dado o passado colonial francês no país —, viajando para Beirute em solidariedade e encabeçando um grupo de doadores que reuniram quase 253 milhões de euros para ajudar o país. 

O valor é pouco face aos estragos — avaliados entre 2,5 a 4,2 mil milhões de euros —, ainda para mais para um país que já se encontrava em bancarrota, mas é essencial para que o Líbano não se torne num estado falhado.

No entanto apesar da ajuda de emergência ser, segundo a Presidência francesa,  oferecida sem condições, os participantes na conferência declararam-se preparados para apoiar a posterior recuperação económica e financeira do país, mas exigiram que as autoridades do Líbano se comprometam a realizar as reformas exigidas pela sua população.

Nenhuma solução parece satisfazer por completo. Esta ajuda francesa pode tanto ser encarada como um abnegada forma de ajuda como mais exemplo de interferência externa. O contrário, porém, pode significar que, se não forem os franceses a gerir o processo de recuperação, poderão ser outros países, mais ou menos aconselháveis, dependendo do posicionamento político de cada um.

O que é certo é que a explosão já cessou, mas as suas réplicas vão repercutir-se nos próximos tempos.

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