As declarações da diretora-geral da Saúde foram feitas a propósito da subida proporcional do número de casos diários detetados da covid-19: 480 casos detetados na quarta-feira, 533 ontem e 587 hoje.

Questionada se este aumento estará relacionado com as medidas de desconfinamento operadas pelo Governo e as autoridades de saúde, Graça Freitas respondeu que "talvez seja um bocadinho cedo" para tirar essa conclusão, optando por fornecer duas outras possíveis explicações.

A primeira foi quanto aos "muitos casos que foram encontrados em rastreios populacionais específicos”, casos de doença detetada em "populações relativamente jovens", o que considerou ser "um boa notícia em termos da progressão da doença, porque as pessoas jovens têm a doença mais ligeira e não evoluem tão desfavoravelmente”.

A segunda foi quanto ao "surto que está a decorrer na Azambuja, o que contribuiu com para um número grande de casos", com a diretora-geral da Saúde a mencionar o caso de uma empresa do concelho, onde existem 101 trabalhadores infetados e outros três casos relacionados, e a sugerir que o aumento dos rastreios se coaduna com o aumento dos casos, sobretudo na região de Lisboa e Vale do Tejo.

“Lisboa e Vale do Tejo está a testar muita gente e, quando se testa, é habitual encontrar-se casos positivos assintomáticos”, justificou.

As autoridades continuam a investigar as causas do aumento médio diário de novos casos de infeção, quer a nível nacional, quer em Lisboa e Vale do Tejo, região onde “aparentemente são multifatoriais”.

"Não podemos é afirmar que [o aumento de casos] já tenha a ver com o desconfinamento. Com desconfinamento ou não, o nosso comportamento tem de ser de precaução, precaução, precaução", relembrou Graça Freitas.

No entanto, apesar da maior liberdade em consequência do desconfinamento, a diretora-geral da Saúde alertou para os riscos do relaxamento por parte da população.

"Não se pode relaxar as medidas. Sabemos que nos sítios onde há relaxamento das medidas de distância física e da prevenção e controlo, surgem focos da doença. Ela não desapareceu, o vírus está a circular e apenas uma percentagem mínima da nossa população foi atingida e terá imunidade. Todos nós, os que não tivemos a doença, estamos em risco, e se não aprendermos de ter outra forma de estar, vamos continuar em risco e vamos pôr em causa tudo o que conseguimos fazer", apontou Graça Freitas.

No entanto, a diretora-geral da Saúde sublinhou que o papel da DGS e das normas que publica — como por exemplo a relativa às medidas a serem implementadas nos restaurantes, que foi hoje tornada pública — é mais consultivo que vinculativo.

"À população pedimos que se responsabilizem, não só pela sua saúde, mas que pensem que podem estar a pôr em perigo também a saúde dos outros", disse Graça Freitas, defendendo que as normas publicadas não serem para "fiscalizar, nem encontrar formas de penalizar" e sim par apelar à "autoresponsabilização".

"São orientações de boas práticas e responsabilizam todos pelo seu cumprimento. São destinadas a setores da atividade, neste caso a restauração, mas inclui a responsabilidade da entidade que detém o espaço e também responsabiliza os utentes", disse a diretora-geral da Saúde.

Antes, o secretário de Estado da Saúde, António Lacerda Sales, já tinha mencionado que "a epidemia não acabou" e "desconfinar não é abrandar". "O regresso aos fluxos das nossas vidas não pode e não deve por em causa o caminho que foi feito até aqui com grande sacrifício pessoal de todos os portugueses”, disse o governante.

O secretário de Estado ressalvou que “nunca é de mais relembrar” que o sucesso “depende de todos e de cada um” e da “capacidade de respeitar o outro e as regras que se aplicam a todos”.

O governante avançou também que foram realizados mais de meio milhão de testes de diagnóstico de covid-19 em Portugal, tendo sido feitos em abril uma média de cerca de 11.500 por dia.

“De 1 a 06 de maio a média foi de mais 12.400 testes por dia, pelo que se mantém a tendência do aumento de testagem”, frisou.

No entanto, se por um lado Lacerda Sales admitiu que ainda só é possível saber o número de testes e não de pessoas testadas — "até porque as pessoas fizeram mais do que um testes, nomeadamente os infetados”, referiu — Graça Freitas anunciou que vai ser possível destrinçar de futuro os casos ativos dos casos confirmados.

"Como sabem, temos uma plataforma chamada TraceCovid que permite captar muita informação. A breve prazo, vamos divulgar todos os casos de que já temos informação de que recuperaram", disse a diretora-geral da Saúde.

"Temos a informação pela via hospitalar, vamos completá-la, mas neste momento conseguimos colher informação daqueles que ficaram em ambulatório e nas suas casas e que recuperaram. Em muito poucos dias, vamos conseguir dar essa informação", completou Graça Freitas, adiantando que tais dados vão ser veiculados numa plataforma montada em conjunto com os Serviços Partilhados do Ministério da Saúde.

Os números de casos ativos e recuperados vão ser disponibilizados “a breve prazo”, garantiu.

A diretora-geral da Saúde assegurou também para “tão breve quanto possível atualizar” as normas de segurança relativas à pandemia para grávidas e para os partos.

Graça Freitas sublinhou que “é uma das prioridades” da DGS.

Já questionado sobre o funcionamento da linha telefónica SNS 24, o secretário de Estado referiu que, na quinta-feira, recebeu 6.742 chamadas e atendeu 5.432, sendo o tempo médio de espera de 44 segundos.

“Há uma normalização desta linha o que é um bom indicador de uma retoma de confiança”, precisou.

Lacerda Sales escusou-se ainda a comentar a não obrigatoriedade de utilização de máscaras na Assembleia da República por parte dos parlamentares em funções. "São decisões internas do parlamento, nós não comentamos decisões de órgãos de soberania”, atirou o secretário de Estado, frisando, porém, que “todos estamos a fazer a nossa aprendizagem", sendo esta uma situação que "estende-se a todos sem excluir ninguém”

"Temos uma responsabilidade acrescida com quem mais precisa"

António Lacerda Sales aproveitou também esta conferência de imprensa para informar de que foi hoje publicada uma orientação técnica no website da Direção-Geral da Saúde, não só centrada nos casos de "migrantes e refugiados", como também para os " profissionais que exercem funções de atendimento e apoio a esta franja da população que está numa situação de deslocação e vulnerabilidade, muitas vezes a viver em locais coletivos".

De acordo como secretário de Estado da Saúde, a orientação "flexibiliza alguns procedimentos para obtenção do número de utente, de forma a garantir que ninguém fica sem acesso ao SNS ou outros direitos de assistência na saúde", assim como "incentiva o recurso a mediadores interculturais e a linhas telefónicas de tradução, como a linha de apoio a migrantes — 808 257 257 — do Alto Comissariado para as Migrações, nos casos em que há barreiras linguísticas".

Lacerda Sales recordou também que "no contexto pandémico, as medidas de confinamento, auto-isolamento e distanciamento social são particularmente exigentes para estas populações", pelo que o documento "reforça a implementação de planos de contingência que permitam o alojamento, alimentação, higiene e saúde dos seus utilizadores e estrito cumprimento das medidas de precaução".

"Temos uma responsabilidade acrescida com quem mais precisa. Esta é a génese do SNS, inclusivo e para todos", concluiu.

Esta semana no parlamento, o ministro da Administração Interna afirmou que foram realizados 560 testes de diagnóstico à covid-19 a migrantes residentes em hostels de Lisboa e 178 dos quais tiveram resultados positivos.

Eduardo Cabrita avançou também que os testes vão continuar a ser realizados em outras unidades de acolhimento destes cidadãos.

O ministro disse ainda que os requerentes de asilo que foram colocados na Base Aérea da Ota, em Alenquer, não vão voltar a ser alojados em condições similares às que estavam anteriormente.

A nível global, segundo um balanço da agência de notícias AFP, a pandemia de covid-19 já provocou cerca de 269 mil mortos e infetou mais de 3,8 milhões de pessoas em 195 países e territórios.

Mais de 1,2 milhões de doentes foram considerados curados.

Em Portugal, morreram 1.114 pessoas das 27.268 confirmadas como infetadas, e há 2.422 casos recuperados, de acordo com a Direção-Geral da Saúde.

Portugal entrou domingo em situação de calamidade, depois de três períodos consecutivos em estado de emergência desde 19 de março.

Esta nova fase de combate à covid-19 prevê o confinamento obrigatório para pessoas doentes e em vigilância ativa, o dever geral de recolhimento domiciliário e o uso obrigatório de máscaras ou viseiras em transportes públicos, serviços de atendimento ao público, escolas e estabelecimentos comerciais.

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