“A China só pode salvaguardar os seus próprios interesses ao escolher o menor de dois males, afastando-se da Rússia o mais rápido possível”, apontou Hu Wei, num documento publicado esta semana, em chinês, e a que a agência Lusa teve acesso.

Pequim “deve evitar jogar com os dois lados, abdicar da neutralidade e escolher a posição dominante no mundo”, acrescentou Hu, que é vice-presidente do Centro de Pesquisa de Políticas Públicas do Gabinete do Conselho de Estado.

A China tem mantido uma posição ambígua em relação da Ucrânia. Por um lado, defendeu que a soberania e a integridade territorial de todas as nações devem ser respeitadas - um princípio de longa data da política externa chinesa e que pressupõe uma postura contra qualquer invasão -, mas ao mesmo tempo opôs-se às sanções impostas contra a Rússia e apontou a expansão da NATO para o leste da Europa como a raiz do problema.

A guerra na Ucrânia causou divisões “implacáveis” no país asiático, entre oponentes e apoiantes da decisão de Vladimir Putin, lê-se no documento produzido por Hu Wei.

O académico sublinhou que a sua análise “não representa nenhuma parte”, servindo apenas para “julgamento e referência” ao “mais alto nível” decisório na China.

Hu traçou vários cenários possíveis para a guerra na Ucrânia, que considera o conflito geopolítico “mais grave” desde a Segunda Guerra Mundial, com consequências globais “muito maiores” do que os ataques do 11 de setembro de 2001 contra as Torres Gémeas.

O académico considerou a ação militar russa um “erro irreversível”, que coloca Moscovo numa situação difícil e alertou que o conflito pode escalar ainda mais e que um eventual envolvimento do Ocidente “não pode ser descartado”.

“Embora a escalada da guerra seja custosa, há uma grande probabilidade de que Putin não desista facilmente, devido ao seu caráter. A guerra pode-se alargar para além da Ucrânia, e pode até incluir a possibilidade de um ataque nuclear”, apontou.

Uma vitória da Rússia acarretará sempre um fardo pesado para Moscovo, que terá que lidar com rebeliões dentro da Ucrânia e as sanções impostas pelo Ocidente. Neste cenário, o académico não descartou a possibilidade de revoltas populares na Rússia.

“Se Putin for deposto devido a conflitos civis, golpe de Estado ou outro motivo, a Rússia terá ainda menos capacidade de enfrentar o Ocidente. Certamente sucumbirá, ou será ainda mais desmembrada, e o estatuto da Rússia como grande potência chegaria assim ao fim”, apontou.

Os Estados Unidos podem assim recuperar a liderança no mundo ocidental e o Ocidente unir-se ainda mais, previu Hu, num cenário que desagrada a Pequim.

Suíça, Suécia e outros países poderão também abandonar a sua neutralidade e reforçar ainda mais a estrutura da NATO. A dependência europeia do gás natural importado dos EUA também deve aumentar, acrescentou o analista.

A “Cortina de Ferro” do período da Guerra Fria voltaria assim a cair, representando um confronto final entre o campo dominado pelo Ocidente democrático e os Estados autoritários rivais, apontou Hu.

Isto teria impacto nas alianças que os Estados Unidos mantêm com outros países. A estratégia de Washington para a região do Indo-Pacífico pode assim ser “consolidada”.

“Outros países, como o Japão, aproximar-se-ão ainda mais dos EUA, formando uma ampla frente unida sem precedentes”, previu.

Num contexto de expansão da influência norte-americana e ressurgimento do sistema democrático como referência, com os valores e instituições ocidentais a alcançarem novos patamares de influência, a China poderá “ficar mais isolada”, alertou Hu.

“Quando Putin cair, os EUA não vão ter mais dois concorrentes estratégicos, mas terão apenas que se focar na contenção estratégica da China”, avisou.

“A China não será apenas cercada militarmente pelos EUA, NATO, QUAD [inclui EUA, Austrália, Japão e Índia], mas também será desafiada pelos valores e sistemas ocidentais”, disse o analista.

“Para demonstrar o papel da China como uma grande potência responsável, a China não apenas não pode apoiar Putin, como também deve tomar ações concretas para evitar” que o conflito escale, defendeu Hu.

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