Poucas semanas depois de mais um incidente no Mar do Sul da China entre as Marinhas chinesa e norte-americana, os exercícios com Singapura surgiram de “um consenso entre as duas Marinhas”, segundo o porta-voz da Marinha chinesa, Gao Xiucheng.

O objetivo, adiantou, é “estimular a cooperação mútua, aprofundar a amizade, promover a cooperação e encetar conjuntamente a construção de uma comunidade marítima com um futuro partilhado”.

Durante três dias, estão previstos exercícios conjuntos de busca e resgate, e ainda de comunicações, segundo a Marinha chinesa.

Os exercícios vêm na sequência de um acordo de 2019 entre ambos os países para aprofundar o relacionamento a nível militar, através de maior diálogo de alto nível e intercâmbios académicos.

A China reclama a soberania da quase totalidade das ilhas do Mar do Sul da China, e queixa-se com regularidade de operações na zona pelos Estados Unidos, que têm bases navais em vários pontos da região.

Ponto de passagem de algumas das principais rotas comerciais entre a Ásia e o resto do mundo, as águas do Mar do Sul da China são disputadas por países como as Filipinas, Malásia, Brunei, Indonésia, Singapura e Vietname.

No início do mês, as Marinhas chinesa e norte-americana estiveram envolvidas num incidente na região, com o contratorpedeiro USS John S. McCain.

Depois de o Exército de Libertação do Povo chinês ter reclamado a expulsão do "destroyer" norte-americano no arquipélago das Paracel - reclamado por diversos países da região - a Marinha norte-americana disse que o navio “jamais foi perseguido para fora do território de um outro país”.

O USS John S. McCain, baseado no Japão, navegou para o Estreito de Taiwan a primeira vez durante a Administração do novo presidente dos EUA, Joe Biden.

Criticada pelas autoridades chinesas, a missão foi descrita pelas forças norte-americanas como de apoio à liberdade de circulação na região, “um Indo-Pacífico livre e aberto”.

Enquanto para os Estados Unidos a navegação na zona é livre por se tratarem de águas internacionais, a China considera a passagem não autorizada de navios estrangeiros como um atentado à sua soberania.

No próximo mês, estava previsto que 3.000 soldados chineses e cambojanos participassem num exercício de duas semanas com fogo real, mas de acordo com o South China Morning Post terá sido suspenso pelo Camboja devido a necessidades criadas pela pandemia e cheias no país.

Collin Koh, analista de segurança marítima na S. Rajaratnam School of International Studies de Singapura, afirmou ao mesmo jornal que, com os exercícios desta semana, a China estava a compensar o facto de a pandemia ter afetado os esforços diplomáticos que tem feito na região para ganhar apoio às suas pretensões.

“A maioria da atenção dos governos (regionais) está no controlo da pandemia - em que os seus militares estão também fortemente envolvidos com operações de rotina diárias, especialmente segurança de fronteiras - o que consequentemente reduziu a sua disponibilidade para encetar a diplomacia de Defesa que desejariam”, disse Koh.

Noutro sentido, no jornal oficial chinês Global Times, o académico Fan Lei, da Universidade Jovem de Ciência Política de Shandong, defendeu hoje que os exercícios “mostram que a cooperação de defesa entre os dois países se tornou sistematizada e que a confiança mútua está a crescer”.

“A preocupação comum de China e Singapura é a segurança do Estreito de Malaca (...) e os exercícios têm mais relevância política do que militar”, adiantou.

“Os Estados Unidos, com o presidente Joe Biden, continuarão a focar a sua atenção na região Ásia-Pacífico, mas a orientação diplomática de Singapura, que é altamente representativa dos Estados-membros da ASEAN, pode exercer influência no bloco. (...) Pode esperar-se que a estratégia dos EUA de atrair aliados e parceiros para confrontar a China seja enfraquecida com a ascensão chinesa”, sublinhou Lei.

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