Um dos três debates mais aguardados (a par do que opôs Marcelo Rebelo de Sousa e Ana Gomes a André Ventura), começou com um elogio à "senhora embaixadora" no papel "importante" que teve em Timor-Leste e "o seu papel sempre determinado em causas europeias", e acabou com um inflamado "não vale tudo em política".

A pandemia abriu o confronto com Ana Gomes a considerar "um erro" as eleições terem sido marcadas "tão tarde" — em entrelinhas ficou a ideia da marcação tardia ter estado relacionada com a data do anuncio da recandidatura de Marcelo.

"Não sei como é que as pessoas vão votar, em particular as pessoas com mais de 80 anos", questionou Ana Gomes, preocupada também com os números da abstenção. A eurodeputada deixou ainda em aberto o tema da votação na emigração, alertando para o facto de estes poderem não vir a conseguir votar.

Marcelo respondeu. Em relação à data, esta não teve "nada a ver com a marcação", diz, mas sim porque a Constituição só permitia duas datas possíveis e ambas em janeiro (17 e 24 de janeiro). Marcelo-Presidente acrescentou que só marcou no final de novembro porque "estava à espera de uma lei da Assembleia da República sobre o voto antecipado e o voto do isolamento profilático".

Questionada sobre se responsabiliza de alguma forma o Presidente da República pelo evoluir da pandemia, Ana Gomes diz ter "a certeza que, quer o Presidente da República, quer o primeiro-ministro e os ministros, têm feito tudo o que está ao seu alcance, mas é difícil", assume.

Ainda neste tema, Marcelo-Presidente afirmou que não há alternativa a um confinamento geral a partir da próxima semana face ao constante aumento do número de casos de infeção com o novo coronavírus em Portugal.  Ana Gomes defendeu "em vez de um confinamento geral, a proteção aos grupos de maior risco". "Essa ideia não tem dado em nenhum sítio da Europa. A Europa toda está a reconfinar globalmente mais do que Portugal e há mais tempo do que Portugal", contrapôs Marcelo.

No que toca ao voto nos lares, Marcelo avançou com algumas "soluções" para evitar que os utentes tenham de sair para votar. A primeira passa por se interpretar a lei do voto de quem está em isolamento profilático incluindo quem está nos lares. As restantes soluções por novos decretos, como o que vai apresentar na próxima quarta-feira, que incluem "expressamente a possibilidade de se equiparar o isolamento profilático aos utentes dos lares".

  • "Foi um erro as eleições terem sido marcadas tão tarde" - Ana Gomes
  • "O primeiro-ministro esteve bem quando convidou os candidatos para as reuniões do Infarmed" - Marcelo Rebelo de Sousa
  • "Recomendaria, em vez de um confinamento geral, a proteção aos grupos de maior risco" - Ana Gomes
  • "Não há alternativa ao confinamento geral" - Marcelo Rebelo de Sousa
  • "A vacinação é um processo que pode ser para um ano e meio e não para o dia seguinte" - Marcelo Rebelo de Sousa
  • "[Marcelo] Não deve oscilar entre ser o pai do primeiro-ministro ou tirar-lhe o tapete, ou até assumir os louros da ação governativa" - Ana Gomes
  •  "O Presidente da República podia contribuir mais para as soluções" - Ana Gomes
  • "No caso do SEF, o Presidente só atuou quando houve uma grande pressão mediática" - Ana Gomes
  • "O Diretor Nacional da PSP pediu para ser ouvido e o primeiro-ministro concordou" - Marcelo Rebelo de Sousa
  • "Eu sei que o senhor professor, até pela sua relação com o doutor Ricardo Salgado, é das pessoas com mais interesse em que o caso BES já tivesse sido esclarecido" - Ana Gomes
  • "Tenho o mesmo interesse em relação a todos os portugueses" - Marcelo Rebelo de Sousa
  • "Não vale tudo em política" - Marcelo Rebelo de Sousa
  • "A justiça tem de valorizar o serviço cívico de Rui Pinto" - Ana Gomes

Do 'pai' Marcelo até ao — já não tão — positivo balanço da Presidência

Ana Gomes considerou que Marcelo "tem de contribuir mais para as soluções". Para a eurodeputada, o Presidente da República "não deve oscilar entre ser o pai do primeiro-ministro ou tirar-lhe o tapete, ou até assumir os louros da ação governativa".

O tema em cima da mesa era o dos comentários de Marcelo Rebelo de Sousa em relação a ação dos ministros da Administração Interna e da Justiça, nos casos da morte do cidadão ucraniano Ihor Homenyuk nas instalações do Serviço e Estrangeiros e Fronteiras (SEF) e do Procurador Europeu, respetivamente. Sobre o caso SEF, Ana Gomes acusou Marcelo de só ter atuado quando o quando o caso ganhou "pressão mediática" após "nove meses de silêncio".

Depois de se repetir sobre o que tem dito sobre o caso, Marcelo inquiriu: "Mas a senhora embaixadora, que é tão atenta e arguta, passou esses meses todos sem nunca ter notado que o Presidente da República devia ter intervindo", questionou Marcelo.

Por não se ter manifestado sobre a composição do atual Governo Regional dos Açores, a socialista responsabilizou ainda o Presidente da República pela "normalização do Chega".  A candidata disse que Marcelo devia ter feito nos Açores o que Cavaco fez no continente, em 2015, ao dar posse ao partido mais votado.

Marcelo respondeu a Ana Gomes, com citações da própria em que fazia um balanço positivo à sua presidência, dizendo que a "senhora embaixadora tem de estabilizar a sua opinião sobre o Presidente da República", e que "até ao dia seguinte de apresentar a candidatura achava que a articulação com o Governo tinha sido magnífica".

Ilegalização do Chega. Só agora?

Ana Gomes diz que o Chega "foi um partido legalizado com assinaturas falsas". Argumentando que o Chega tem "um programa claramente inconstitucional", "uma prática reiterada de xenofobia, de incitamento à limpeza étnica" e que "tudo isso não pode ser desvalorizado, à luz da Constituição, à luz do artigo do 240 Código Penal", a candidata pede a sua ilegalização.

"Porque é que a senhora esperou por ser candidata para pedir a ilegalização do Chega?", questiona Marcelo. "Enquanto cidadã porque é que não foi ao Ministério Público (...) Porque é que esperou dois anos e só o diz agora que é candidata?", continuo o chefe de Estado.

E insistiu: "A Ana Gomes podia pedir ao Ministério Público a ilegalização do Chega. Porque é que não fez?".

“Esperei que os órgãos da República o fizessem", respondeu Ana Gomes, que considerou que cabe ao Presidente da República fazê-lo.

Marcelo diz que não o fez porque não concorda com o caminho da ilegalização do partido com o "cordão sanitário" que diz que a eurodeputada quer fazer à volta do Chega. “Sou contra a ilegalização”, diz o chefe de Estado. "Calá-los é vitimizá-los, não é preciso proibi-los, é preciso vencê-los pelas ideias", disse Marcelo.

Os megaprocessos foram a água na fogueira deste debate. Ana Gomes sacou da 'carta' Ricardo Salgado, Marcelo meteu na mesa o caso Rui Pinto.

A socialista referiu-se ao antigo presidente do Banco Espírito Santo (BES) quando falava sobre justiça, uma área que apontou como "de demarcação" em relação ao seu adversário, que acusou de não ter sido eficaz na promoção dos meios adequados para as instâncias judiciárias.

"Eu sei que o senhor professor, até pela sua relação com o doutor Ricardo Salgado, é das pessoas com mais interesse em que o caso BES já tivesse sido esclarecido, que já estivessem apuradas responsabilidades, desse senhor e de muitas outras pessoas", declarou a diplomata, assinalando que o julgamento "ainda não começou" e que este caso "está ligado, por exemplo, ao caso Sócrates".

"Escusa de tentar atingir a minha honorabilidade e a minha integridade", respondeu Marcelo. "Eu nunca diria de si aquilo que disse de mim, é uma questão de princípio", acrescentou o Presidente da República, atirando que "não vale tudo em política".

Visivelmente irritado, Marcelo Rebelo de Sousa continuou: "Não sei se percebe o quão ofensivo é aquilo que disse: interessado que é em que corra bem e se esclareça o caso Ricardo Salgado. Tenho o mesmo interesse em relação a todos os portugueses".

Segundo o candidato apoiado por PSD e CDS-PP, já há cinco anos tentaram sugerir que, por ser "amigo do doutor Ricardo Salgado", lhe poderia tentar "facilitar a vida".

Marcelo Rebelo de Sousa realçou que, durante o seu mandato presidencial, Ricardo Salgado "foi condenado em três processos movidos pelo Banco de Portugal e foi finalmente acusado no processo BES".

"No meu mandato orgulho-me de terem avançado, com duas procuradoras [gerais da República], operação Marquês, operação BES recentemente, o julgamento de Tancos, operação Lex, operações contra magistrados judiciais. Avançaram, não pararam de avançar", assinalou.

"Não tenho interesses especiais", sublinhou Marcelo. "Não tenho interesses especiais no caso Rui Pinto, não tenho interesses especiais nenhuns", respondeu.

E quando questionado pelo jornalista Carlos Daniel sobre se a justiça precisa de denunciantes como Rui Pinto, Marcelo apenas respondeu que não se substitui "à decisão dos tribunais".

Já Ana Gomes considerou que "a justiça tem de apurar se ele cometeu crimes ou não", mas "também tem de valorizar o serviço cívico de interesse público que ele prestou ao revelar o que revelou".

Marcelo Rebelo de Sousa venceu o debate.

Ana Gomes não soube jogar com as cartas que meteu em cima da mesa, neste caso com o seu às de espadas Ricardo Salgado. Marcelo virou o jogo contra a adversária respondendo ao 'ataque' com possíveis "interesses pessoais" que esta possa ter no caso do hacker Rui Pinto. Com o debate no fim, mas ainda com oportunidade de resposta, a socialista se defendeu.

Noutras situações, o Presidente também levou a melhor. Como na proposta da candidata de um confinamento apenas de grupos prioritários, respondendo que "essa ideia não tem dado em nenhum sítio da Europa", e na sugestão da volatilidade da opinião da socialista.

Por falar em socialistas, talvez o eleitorado-alvo deste debate, Marcelo deixou-lhes uma dica: "quem disse que o primeiro-ministro era igual a Viktor Orbán não fui eu, foi a senhora embaixadora".

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