Depois de duas semanas de reuniões, e 24 horas após aquele que seria o dia final da cimeira, o coordenador chileno Andrés Landerretche disse em conferência de imprensa que a procura de um documento final de consenso durou toda a noite, mas a verdade é que até à tarde de hoje continuam as negociações porque não houve consenso em relação aos documentos.

As autoridades chilenas, citadas pela imprensa, admitiram propor um compromisso que possa diminuir as diferenças entre países, que continuam num impasse.

Ao mesmo tempo, observadores e grupos ambientalistas disseram que se corre o risco de a cimeira desfazer ou adiar compromissos assumidos na cimeira de Paris de 2015.

Questionado pelos jornalistas sobre se há decisões que podem ser adiadas, Landerretche disse: “Não prevemos nenhuma suspensão. Estamos a trabalhar com o objetivo de terminar o nosso trabalho hoje”.

Um otimismo que não é partilhado por observadores e ambientalistas. Alden Meyer, especialista em política climática da “Union of Concerned Scientists”, disse que participa nas reuniões da ONU desde 1991 e que nunca viu uma “desconexão quase total” como a que assiste em Madrid, “entre o que a ciência exige e as pessoas do mundo exigem e o que os negociadores estão a apresentar”.

A responsável acrescentou que as propostas atuais não refletem os avisos urgentes dos cientistas de que as emissões de gases com efeitos de estufa têm de diminuir rapidamente.

“Preciso de chegar a casa, olhar os meus filhos nos olhos e dizer-lhes que nós temos um resultado que vai garantir o seu futuro”, disse a representante das ilhas Marshall, Tina Stage.

E Carlos Fuller, negociador chefe do grupo dos 44 Estados insulares particularmente vulneráveis à subida do nível das águas do mar, afirmou: “Era a COP da ambição mas não vemos essa ambição”.

As organizações não-governamentais também se mostraram na tarde de hoje muito dececionadas com os resultados obtidos no final de duas semanas de discussões.

Sociedade civil faz encerramento alternativo da cimeira

Dezenas de organizações da sociedade civil fizeram na tarde de hoje na cimeira sobre o clima que decorre em Madrid (COP25) um “encerramento alternativo” do fórum, no qual a palavra “traição” foi muito ouvida.

Francisco Ferreira, da organização ambientalista portuguesa Zero, que esteve no “encerramento”, explicou à Lusa que no essencial as organizações não-governamentais foram dizer que as negociações na cimeira “estão a trair aquilo que a sociedade tem vindo a pedir insistentemente” que é mais ambição na luta contra as alterações climáticas.

O objetivo da cerimónia, explicou, foi fazer um contraponto entre aquilo que é “o desentendimento e a incapacidade de decisão” que demonstram os países na cimeira, e aquilo que “une a sociedade civil e que através de mobilizações à escala global tem vindo a ser pedido para ser feito, e que não está a ser feito”.

O que não está a ser feito, e que as organizações queriam que saísse do encontro de Madrid, é nomeadamente mais ambição na mitigação dos efeitos das alterações climáticas, urgência na redução dos gases com efeito de estufa, mais financiamento, que não haja um mercado de carbono global que estrague os objetivos de redução das emissões, a preservação da biodiversidade, a ciência como fundamento de toda a ação climática, ouvir as pessoas e apoiar os mais vulneráveis.

Questões para as quais as organizações esperavam respostas e que até hoje, ainda que já tenha passado mais um dia do que o previsto, a cimeira não resolveu. Nas palavras de Francisco Ferreira as organizações presentes, de representantes de povos indígenas a organizações ambientalistas, de mulheres e de jovens, apresentaram elas mesmo as decisões que deviam sair da cimeira.

Para já as negociações continuam, estando agora prevista uma sessão plenária para as 20:00 (menos uma hora em Portugal continental). Francisco Ferreira, nas declarações à Lusa, admitiu que ela seja de novo adiada (esteve marcada para as 14:00 inicialmente).

Na tarde de hoje a presidência chilena da cimeira mostrava otimismo quanto à aprovação de um texto consensual e que espelhasse “mais ambição” no combate às alterações climáticas, uma exigência de vários países.

Depois de duas semanas de reuniões, e 24 horas após aquele que seria o dia final da cimeira, a verdade é que ainda não há entendimento. E as organizações da sociedade civil não estão tão otimistas.

(Notícia atualizada às 18:05)

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