Frequentemente deixado de fora nas discussões centrais das cimeiras do clima, o oceano é o principal aliado contra as alterações climáticas, sendo responsável pela absorção de um terço do dióxido de carbono emitido e 90% do calor em excesso, causado pela emissão de gases de efeito de estufa.

Esse papel pode, no entanto, perder-se se o oceano não for protegido, alerta Francesca Santoro, coordenadora do programa de literacia dos oceanos da Comissão Oceanográfica Intergovernamental da UNESCO (IOC/UNESCO).

“O oceano funciona como mitigador do impacto das alterações climáticas, mas há alguns sinais de que esta capacidade está progressivamente a reduzir-se devido à continuidade das emissões de dióxido de carbono. É muito preocupante, porque se o oceano para de funcionar como funciona agora, estaremos em grandes apuros”, sublinhou a especialista.

Francesca Santoro está no Dubai, Emirados Árabes Unidos, a participar na 28.ª Conferência das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas (COP28), que espera poder devolver ao tema do oceano algum destaque, perdido na última cimeira em Sharm el-Sheikh, Egito.

Um dos seus objetivos é mudar a narrativa, para que o oceano possa finalmente ser visto como o principal aliado no combate às alterações climáticas e não apenas como uma vítima.

Mas como é que pode contribuir? Francesca Santoro refere, como exemplo, o carbono azul, isto é, o carbono sequestrado, armazenado e liberado pelos ecossistemas costeiros e marinhos.

“As algas marinhas e os mangais são cinco vezes mais eficazes do que as plantas terrestres no que toca ao armazenamento de carbono, (…) mas se as destruirmos vão libertar todo o carbono que absorveram. São soluções baseadas na natureza”, explicou a especialista.

Por isso a importância de proteger o oceano, que já apresenta “sinais preocupantes” do impacto das alterações climáticas, como a acidificação causada pelo excesso de dióxido de carbono.

“É uma das coisas que está a ter impacto em toda a estrutura dos ecossistemas marinhos”, referiu, apontando também o aumento da temperatura da água, particularmente lesiva para os recifes de coral e um dos motivos para o cada vez maior número de espécies invasoras, com impacto na pesca e nas economias locais.

“Outro impacto é a subida do nível do mar, que afeta as maiores cidades costeiras no mundo, e quando falamos do aumento da frequência de tempestades nas zonas costeiras, isto tem um impacto direto nas pessoas”, acrescenta.

Por que motivo, então, é que a relevância do oceano continua a não estar refletida nos resultados de cimeira após cimeira? Francesca Santoro justifica falando em “cegueira do oceano”.

“Não é uma preocupação para a população e, normalmente, os políticos ouvem as preocupações da população”, sustentou, apesar de reconhecer que o percurso, nos últimos anos, tem sido positivo e refere Portugal como um importante promotor do oceano.

A literacia é, por isso, outra das frentes de ataque da UNESCO e, a esse nível, a responsável volta a referir o país como um bom exemplo, por ter sido o primeiro a acolher um dos principais programas da IOC/UNESCO, a Escola Azul, que pretende promover a literacia do mar na comunidade escolar e que, em Portugal, foi já foi adotado por mais de uma centena de escolas.

Mariana Caeiro, enviada da agência Lusa

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