Centeno? "Está tudo esclarecido"

António Costa, em entrevista à TSF, garantiu que a polémica Novo Banco — a injeção de 850 milhões de euros autorizada por Centeno e que Costa desconhecia, e que acabou por envolver Marcelo Rebelo de Sousa, dando aso a uma crise política em plena fase de desconfinamento  — são águas passadas.

Foi "uma falha de comunicação interna" e "está tudo esclarecido". Quem o garante é António Costa, quando questionado sobre a polémica em torno do Novo Banco. O primeiro-ministro salienta ainda que não há quebra de confiança com Mário Centeno.

"O governo já assumiu que houve uma falha de comunicação interna, que está devidamente explicada, já tive oportunidade de reafirmar a confiança no senhor ministro [Mário Centeno]. O Senhor ministro está a trabalhar em pleno e o Estado cumpriu não só as suas obrigações contratuais, preveniu aquilo que era possível prevenir em matéria de auditoria às contas e não sai prejudicado naquilo que é a obrigação legal de fazer a auditoria" ao banco, respondeu Costa.

"É um assunto esclarecido e a política 'desconfinou', mas deve continuar centrada naquilo que é verdadeiramente relevante para a vida dos portugueses", defendeu Costa, numa referência ao debate político que este tema gerou, tendo mesmo o líder da oposição, Rui Rio, considerado que Mário Centeno não tinha condições para continuar como ministro das Finanças.

No topo dessas preocupações está, diz, um duplo desafio: "continuar a conter a pandemia, mas reanimar a nossa vida económica".

"A única coisa nova neste processo todo foi ter havido uma falha de comunicação", disse Costa. Essa falha "foi explicada e foram explicadas as razões [da mesma]. Se mantive a confiança [no ministro] foi porque aceitei as explicações do senhor ministro das Finanças", disse o primeiro-ministro, sem querer adiantar se Mário Centeno chegou mesmo a pedir demissão.

Questionado sobre se gostaria de manter Centeno até ao final da legislatura, António Costa elogiou o trabalho que foi feito ao longo destes cinco anos pelo ministro das Finanças e rematou com um "eu obviamente gosto de ter no Governo as pessoas que estão no Governo". Todavia, assumiu, "as pessoas têm dinâmicas", sem adiantar mais.

Já sobre a possibilidade de Mário Centeno vir a ocupar o cargo de Governador do Banco de Portugal, Costa recusou comentar dizendo apenas que "tudo terá o seu tempo". Em causa está a designação de um novo governador face ao fim do mandato de Carlos Costa, em julho deste ano (o atual governador foi nomeado em 7 de junho de 2010, tendo sido reconduzido no cargo em julho de 2015, sendo este o seu último mandato).

O primeiro-ministro garantiu nesta entrevista que antes de designar o próximo governador do Banco de Portugal vai ouvir os partidos com presença na Assembleia da República e o Presidente da República.

500 ventiladores adquiridos na China já estão na embaixada em Pequim. O verão pode ser sem bares e discotecas

O desconfinamento e a possibilidade de uma segunda vaga do surto foi o segundo tema desta entrevista, com António Costa a deixar claro desde o arranque da conversa que "não terminamos a primeira vaga, ela está aí".

"Até haver uma vacina ou tratamento e até ser disponibilizada no mercado, só aí podemos retomar a nossa vida como a conhecíamos até fevereiro. Até esse momento temos de retomar a nossa liberdade, mantendo a segurança necessária" com "regras que complementam as que já existiam".

Todavia, reconheceu, "temos de assumir que cada passo que damos no descofinamento aumenta o risco de contaminação e portanto só o podemos fazer de uma forma gradual".

Neste aspecto, a prioridade é garantir que o Serviço Nacional de Saúde (SNS) tem capacidade de resposta para o caso de uma segunda vaga do surto. Costa assumiu que a dotação de 900 milhões de euros anunciada neste orçamento para reforçar a saúde terá de ser repensada (e aumentada), sem porém adiantar os valores que podem estar em cima da mesa — "é prematuro", disse.

No âmbito, o primeiro-ministro afirmou que estão já desde sábado na embaixada de Portugal em Pequim os cerca de 500 ventiladores que foram pagos em março pelo Estado Português, mas que não foram entregues pelos fornecedores chineses.

"Desde sábado passado, a nossa embaixada em Pequim tem finalmente os famosos 500 ventiladores que tínhamos adquirido. Felizmente que até agora não foram necessários, mas a sua aquisição foi importante, porque temos de reforçar a capacidade do Serviço Nacional de Saúde", disse.

Até agora, dos 508 ventiladores encomendados, apenas poucas dezenas chegaram a Portugal. Os restantes ventiladores deveriam já ter chegado no dia 15 de abril.

"Temos de assumir de uma forma previdente que ninguém sabe bem o comportamento de um vírus que é novo, mas podemos admitir que no outono ou o inverno possa voltar a haver um maior nível de contaminação e pressão sobre o SNS, e nessa altura é importante haver maior capacidade do que temos nesse momento", disse Costa.

Defendendo novamente que a consciência do perigo não deve paralisar-nos, o primeiro-ministro reiterou que dará "um passo atrás" se tal for necessário para salvaguardar a saúde dos portugueses.

Para o primeiro-ministro, maio e junho são fundamentais para treinar rotinas que podem assim ter de vir a ser implementadas no próximo inverno no caso de um recrudescimento do surto.

Questionado sobre a eventual realização da festa do Avante! — tema que tem gerado polémica por se considerar a possibilidade desta excepção apesar dos festivais estarem suspensos até setembro —, António Costa destacou que "há direitos fundamentais que devem ser respeitados" e que "cada partido tem de ter liberdade para fazer a sua organização, mas tem de cumprir as normas" impostas pela Direção-Geral da Saúde. Em causa está o facto de o Avante! ser um evento político além de cultural.

Já sobre o regresso de discotecas e bares, tal não está para já no plano do Governo, assumiu Costa, para quem a prioridade está em atividades onde é possível definir com maior facilidade regras de distanciamento social. O primeiro-ministro assumiu mesmo que podemos passar um verão sem discotecas e bares "se for necessário. Mas se não for necessário, melhor".

"Não podemos colocar agora em causa o que conseguimos com enorme dificuldade graças às pessoas", disse Costa.

Já sobre os ginásios, também ainda encerrados, António Costa disse que o Governo está em contacto com a associação representativa do setor para definir normas e critérios de higienização do espaço para que se possa considerar as normas de reabertura.

Austeridade? Esta crise pede outra resposta

Questionado sobre os efeitos desta pandemia na vida económica e social — e mais particularmente sobre a garantia que deu de que não vêm aí novos tempos de austeridade para os portugueses, António Costa respondeu que "cada doença tem a sua cura específica".

"Neste momento a doença que vivemos do ponto de vista económico não tem a ver com um problema estrutural da nossa economia, nem com uma rutura das finanças do Estado, ou com uma crise do sistema financeiro. Tem a ver com uma paralisação da economia à escala global. Nós não temos neste momento de acrescentar medidas de restrição económica — seja por cortes no rendimento, por via de cortes de salários ou pensões, ou por via de impostos — para responder a esta crise. O que esta crise precisa é de incentivos à procura de forma a poder retomar a produção. Precisamos do contrário das medidas de austeridade", defendeu.

A par, António Costa salientou que "felizmente hoje temos uma situação financeira que tem outra qualidade que não tinha anteriormente (...), em segundo lugar a União Europeia começou logo por flexibilizar as regras do pacto de estabilidade com a consciência de que está não é nem a primeira nem a segunda preocupação". Todavia, tal não passa por "passar um cheque em branco para uma despesa ilimitada, por isso temos colocado restrições de forma responsável às despesas que podemos fazer", concluiu.

"É tão importante a retoma da economia em Portugal como em Espanha ou na Alemanha", disse o primeiro-ministro, salientando que um problema com estas características exige uma resposta europeia coordenada. "Se não for agora que a Europa consegue responder bem a esta crise suscitar-se-á uma enorme dúvida à escala global sobre o sentido da Europa".

Sobre o papel de Portugal no futuro, António Costa defendeu mais uma vez que a Europa deve aprender com esta crise que não pode fazer depender as suas cadeias de produção de países que podem não dar garantias de resposta.

"Nós temos de recuperar na Europa a capacidade de produzir, e Portugal pode estar no centro dessa capacidade de recuperação", defendeu Costa.

Se Marcelo for a eleições é reeleito? Não é preciso ser vidente

Questionado sobre se votará em Marcelo caso este se venha a recandidatar, António Costa lembrou que "o voto é secreto" e defendeu que o primeiro-ministro deve ter algum recato nesta matéria, já que terá de trabalhar com o próximo Presidente escolhido pelos portugueses, seja ele/ela qual for.

Todavia, reconheceu que "não é preciso ser vidente" para antecipar que no caso de recandidatura Marcelo colhe a preferência dos portugueses.

Sem querer avançar qual será a posição do PS sobre esta matéria — se apoiará Marcelo ou um candidato que possa surgir na área do PS, ou se vai manter-se neutro —, a única garantia que Costa deu foi que o partido nunca apoiará determinados candidatos, nomeadamente André Ventura.

Sobre o risco de um recrudescimento dos radicalismos como resultado da atual situação social e económica, António Costa disse que tal não lhe parece ser "motivo sério de preocupação. Acho que há uma hipervaloriação do radicalismo pelo seu exotismo, mas não passa disso. Os portugueses não gostam de radicalismos, gostam de bom senso. O bom senso é condição essencial para que as pessoas percebam as decisões que se tomam, mesmo as mais difíceis".

A entrevista à TSF seguiu-se a um pequeno-almoço numa pastelaria em Benfica, onde António Costa procurou deixar um sinal de confiança aos portugueses nesta retoma.

“Depois de não nos termos deixado vencer pelo vírus, não nos podemos deixar-nos vencer pela cura”, afirmou António Costa aos jornalistas, à porta de uma pastelaria em Lisboa, onde tomou um café e comeu um folhado.

No primeiro dia da segunda fase de desconfinamento, após dois meses de encerramento de grande parte da economia, Costa foi tomar pequeno-almoço a uma pastelaria que reabriu hoje, viu as medidas de segurança, como o gel desinfetante à porta e os acrílicos sobre as mesas a separar os clientes e depois optou por ficar na esplanada, confessando que já tinha saudades de tomar um café ao ar livre.

E fez um apelo aos portugueses para que, “com todas as cautelas”, retomem “a sua vida em liberdade”, insistindo nas regras de lavar as mãos, usarem máscara quando estão próximos dos outros e manter o distanciamento social.

“Se continuarmos todos parados sobrevivemos à doença, mas podemos não sobreviver à cura. É preciso ir vencendo estes receios, com confiança e sempre com cautela”, disse.

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