Foi essa a perspetiva que Luís Chaby Vaz revelou numa entrevista tornada pública nas redes sociais do FEST - Festival Novos Realizadores Novo Cinema, realizado todos os anos em Espinho, no distrito de Aveiro, e que agora tem em curso um ciclo dedicado à "nova realidade" do setor, depois da pandemia de covid-19, "O Estado Atual e Futuro da Indústria do Cinema no contexto nacional".

"Os nossos setores do cinema e do audiovisual já estavam frágeis e não é expectável que, num contexto de crise internacional, venhamos a sair disto muito mais reforçados. É o contrário: se já estávamos frágeis, mais frágeis vamos ficar", afirma o responsável

Sobre a possibilidade de, entre tantos setores económicos em risco de sobrevivência, a indústria cinematográfica ser desconsiderada nos apoios estatais, o presidente do ICA também não está otimista: "Não tenho receio nenhum [disso]; tenho a certeza que é uma realidade".

Luís Chaby Vaz sustenta essa previsão no histórico da gestão cultural nacional. "Não é pelo facto de haver uma pandemia que vamos resolver 50 anos de crise que temos para trás. Temos um peso financeiro e orçamental - e, decorrente disso, também político e social - que é muito inferior ao que ambicionamos. Esta é uma realidade pré-pandemia e nunca me irá surpreender que os apoios que o setor do cinema recebe não sejam iguais aos de outras áreas da economia. Os apoios dados à cultura serão sempre poucos".

Referindo que o ecossistema de produção nacional e internacional "está a ser fortemente impactado" pela pandemia, que há "milhares de profissionais em dificuldades crescentes para sobreviver", e que a perda de receitas publicitárias com origem televisiva vai asfixiar ainda mais o orçamento do ICA, Luís Chaby Vaz antecipa que só em 2022 seja retomada a "normalidade orçamental" do organismo tutelado pelo Ministério da Cultura, para apoio à produção cinematográfica nacional.

Nessa recuperação será decisiva, por sua vez, a entrada em vigor da legislação que obrigará plataformas de 'streaming' a contribuírem com parte da sua receita para o orçamento público do audiovisual. A respetiva diretiva internacional "está em processo de transição" para o sistema legal e permitirá, por exemplo, "transformar a Netflix não só num 'player' importante do ponto de vista do consumo, mas também ao nível da contribuição financeira para o setor".

Em todo o caso, Luís Chaby Vaz garante que não há qualquer investimento do Estado na recente parceria estabelecida entre ICA e Netflix para produção de conteúdos em Portugal.

"Atendendo ao facto de eles [Netflix] não terem nenhuma estrutura produtiva no país, solicitaram ao ICA apoio administrativo e logístico, e nós entendemos que, embora sendo essa uma entidade privada, neste momento o setor precisava, de forma muito célere, de ter projetos a andar", declara.

O presidente do ICA espera, aliás, que se sigam outras colaborações com idênticas vantagens: "Esta é uma oportunidade que temos para demonstrar a nossa capacidade de trabalho, a nossa capacidade de contar histórias e de interessar públicos globais".

Se há aspetos positivos a resultar da pandemia, Luís Chaby Vaz inclui neles a aprendizagem envolvida na adaptação profissional a questões sanitárias que introduziram "uma incerteza cataclísmica nas rodagens", e a exposição que o setor conseguiu junto da própria máquina do Estado, obrigando-o a desenvolver medidas de apoio fiscal e social ajustadas à área cultural.

"Foi uma maneira de pôr o dedo no ar, de dizer que somos diferentes, que temos as nossas especificidades e que não é por isso que devemos ficar de fora. Pode ser uma boa porta de entrada para o reconhecimento das particularidades do setor e vai obrigar as empresas a terem como interlocutores outras entidades que não apenas o Ministério da Cultura, ganhando uma nova frente de relação institucional também com os da Economia e da Segurança Social", afirma.

Outro domínio que pode sair fortalecido do isolamento imposto pelo vírus SARS-CoV-2 é o da escrita e desenvolvimento de obras para a indústria. "Esses são os poucos projetos que podem manter o seu ritmo de execução e, se as restrições da pandemia obrigarem a um confinamento por prazo muito superior, parece-me mais ou menos incontornável que o financiamento de apoio direto à produção vai ter que ser redirecionado para a escrita e desenvolvimento", conclui o presidente do ICA.

"A Nova Realidade da Indústria Cinematográfica depois da pandemia COVID-19 - O Estado Atual e Futuro da Indústria do Cinema no contexto nacional" é uma iniciativa do FEST - Festival Novos Realizadores Novo Cinema, que envolve entrevistas, divulgadas ou a divulgar, a profissionais do setor, como o presidente da Academia Portuguesa de Cinema, Paulo Trancoso, a produtora Maria João Mayer, o realizador Rodrigo Areias e o operador de câmara Leandro Vaz da Silva.

Os realizadores Ken Loach ("Eu, Dabiel Blake") e Peter Webber ("A Rapariga do Brinco de Pérola"), os produtores Christine Vachon, Ilann Girard, Martin Samper e Paul Miller, a técnica de pós-produção Polly Duval, a atriz Melissa Leo e a diretora de 'casting' Nancy Bishop são outras personalidades ouvidas pelo FEST, cujos testemunhos podem ser ouvidos nas redes sociais do festival (You Tube, Facebook e Instagram).

Na sua edição de 2019, o festival reuniu 250 filmes na competição internacional e 800 participantes de vários países no respetivo programa de formação.

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