Numa tentativa de tentar controlar a disseminação do novo coronavírus, que já infetou quase três mil pessoas em Portugal, o Governo decidiu fechar as escolas e substituir as aulas presenciais por ensino à distância.

Entre a decisão do Governo e a aplicação da medida passaram três dias em que os professores tiveram de se adaptar a novas formas de ensinar. Dez dias depois, os docentes começam já a revelar um cansaço extremo, segundo sindicatos e diretores escolares.

“Os professores estão a trabalhar muito mais. Há muito cansaço, já se começa a notar que estão a ficar exaustos”, contou à Lusa o presidente da Sindicado Nacional do Ensino Superior (SNESup), Gonçalo Leite Velho.

No ensino básico e secundário, o cenário repete-se, garantiram à Lusa o secretário-geral da Fenprof, Mário Nogueira, e o representante dos diretores escolares Filinto Lima.

“Estes dias valeram mais do que um período inteiro. Foram dias muito exigentes, houve muito trabalho e muitos sacrifícios”, descreveu o presidente da Associação Nacional de Diretores de Agrupamentos e Escolas Públicas (ANDAEP), Filinto Lima.

Os professores tiveram de reinventar formas de ensinar e, para muitos, as plataformas digitais eram um terreno desconhecido. Pelo menos, até à semana passada.

Mário Nogueira lembrou que a classe docente portuguesa é das mais envelhecidas da Europa e a maioria “não nasceu numa época em que se usava e abusava da Internet”. Resultado: “Os professores foram confrontados com um trabalho diferente para o qual não têm formação”, disse.

Muitos começaram a dar aulas usando “ferramentas de escritório, quando existem plataformas especificas para e-learning”, exemplificou Gonçalo Leite Velho.

“Os professores começaram com muito voluntarismo e ainda estão a trabalhar muito por tentativa e erro”, acrescentou, lamentando a falta de coordenação a nível nacional.

O acesso simultâneo de milhares de alunos e professores fez colapsar o sistema por várias vezes. “As plataformas vão abaixo e tudo isto representa um stress acrescido quando se está a tentar dar uma aula”, disse o representante dos professores do ensino superior.

“O mesmo professor passou a usar várias plataformas. Começa a trabalhar numa e quando vê que não funciona, muda para outra”, acrescentou Gonçalo Leite Velho.

Ensinar numa sala de aula com os alunos por perto é diferente de tentar transmitir conhecimento através de um ecrã. “O ambiente do ‘online’ não é igual ao das aulas presenciais”, sublinhou o representante dos professores de ensino superior.

Além disso, os professores apercebem-se que faltam alunos na "sua nova sala de aula". Regra geral são os mais carenciados, os que precisam de mais acompanhamento. E, nesta fase, muitas vezes, os docentes sentem que pouco ou nada podem fazer.

Tem sido o contacto diário e a troca de experiências entre professores que faz com que as aulas estejam a melhorar. Mas há docentes a queixarem-se de outros problemas, tais como terem de comprar licenças de acesso às plataformas e até computadores para poder dar as aulas, afirmaram Mário Nogueira e Gonçalo Leite Velho.

À Fenprof têm chegado inúmeros pedidos de ajuda e esclarecimento se a compra das licenças pode ser paga pelo Ministério da Educação. “Há muitos professores para quem este encargo representa um peso muito grande nas suas finanças”, lamentou Mário Nogueira.

“Existem professores que não têm horários completos e recebem 500 ou 600 euros por mês. Não tinham computadores e tiveram de os comprar”, referiu.

Além do aumento das horas diárias de trabalho e falta de condições de trabalho, os sindicatos alertam para as dificuldades em conciliar a vida profissional e a pessoal.

Há professores a tentar dar aulas com os filhos ao lado e há casos em que os computadores da família não chegam para todos, quando os pais estão em teletrabalho e os filhos em aulas.

“De repente, toda a gente precisa do computador à mesma hora, que é durante o horário das aulas”, apontou Mário Nogueira.

O representante dos diretores escolares, Filinto Lima, acrescenta mais um fator: “Além do cansaço do trabalho acrescido, há o stress psicológico provocado pela mudança, por não se poder sair de casa nem se saber o que vai acontecer”.

O novo coronavírus, responsável pela pandemia da covid-19, já infetou perto de 428 mil pessoas em todo o mundo, das quais morreram mais de 19.000.

Depois de surgir na China, em dezembro, o surto espalhou-se por todo o mundo, o que levou a Organização Mundial da Saúde (OMS) a declarar uma situação de pandemia.

O continente europeu, com mais de 226.000 infetados, é aquele onde está a surgir atualmente o maior número de casos, e a Itália é o país do mundo com mais vítimas mortais, com 6.820 mortos em 69.176 casos registados até terça-feira.

Em Portugal, há 43 mortes, mais 10 do que na véspera (+30,3%), e 2.995 infeções confirmadas, segundo o balanço feito hoje pela Direção-Geral da Saúde, que regista 633 novos casos em relação a terça-feira (+26,8%).

Dos infetados, 276 estão internados, 61 dos quais em unidades de cuidados intensivos, e há 22 doentes que já recuperaram.

Portugal, onde os primeiros casos confirmados foram registados no dia 02 de março, encontra-se em estado de emergência desde as 00:00 de 19 de março e até às 23:59 de 02 de abril.

Além disso, o Governo declarou no dia 17 o estado de calamidade pública para o concelho de Ovar.

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