Em declarações à agência Lusa, a professora e pesquisadora de Políticas Linguísticas da Universidade de Brasília (UNB) explicou que "toda a vez que se fala de língua portuguesa há reclamações", porque, por exemplo, na Guiné-Bissau se fala algo de um modo, no Brasil de outro, tornando-se isso num "impeditivo, que não é afetuoso".

A linguista falava à Lusa a propósito da XI conferência de chefes de Estado e de Governo da CPLP, que se realiza hoje e na terça-feira, em Brasília.

"Eu sinto muito que a língua portuguesa até hoje tenha, de facto, uma conceção metafórica [dentro da CPLP], porque falta nos próprios países que fazem parte da comunidade (…) escolarização" do português, defendeu, acrescentando: "parece-me que faltam até formadores".

Enilde Faulstich considerou que é preciso continuar a ensinar português em cursos como Química ou Matemática, para que os alunos desenvolvam o uso de terminologia científica em português, em vez de o fazerem noutras línguas, designadamente o inglês.

Além disso, "no Brasil alguns cursos e algumas disciplinas começam a ser ministrados noutras línguas", notou, sublinhando que "o indivíduo precisa de sentir que a língua que ele fala é o veículo mais importante da vida dele".

"Nós demorámos tanto neste período da CPLP a desenvolver aquela que é a número um, que é a língua portuguesa, que nós vamos ser possivelmente tomados por outras línguas que têm já acesso muito mais imediato pelo conhecimento mais avançado", lamentou.

A investigadora, que acompanhou o nascimento da CPLP em Portugal, esperava que o Instituto Internacional de Língua Portugal (IILP), da CPLP, "não fosse internacional só porque ele está em diversos países", mas que procurasse "a internacionalização dos povos” através da língua.

O IILP tem feito "um trabalho amplo em torno da língua portuguesa, mas não tem repercussão", considerou, dando conta que no Brasil, pela sua perceção, poucos professores o conhecem.

A linguista questionou ainda: "como é que nós vamos implantar sistemas de comunicação irmanados numa comunidade que tem o nome de língua portuguesa, se a preocupação, pelo que vejo agora, é mais económica, do que efetivamente de comunicação e de interação entre nós pela língua".

A também coordenadora do programa de pós-graduação em Linguística da UNB é ainda da opinião de que a CPLP deve trabalhar para estender o português aos países observadores.

Essa internacionalização, opinou, não acontece "por falta de total interesse nosso que somos professores e pesquisadores", disse Enilde Faulstich, que há cerca de 16 anos participou, juntamente com outros professores da CPLP, num projeto na Universidade de Brasília, que acabou por não avançar por falta de meios, para criar ações para o ensino de língua portuguesa na comunidade.

Favorável ao acordo ortográfico, mas considerando que o momento dele "está passando" e que "há uma necessidade relativa de uma ortografia padronizada em termos de internacionalização", a docente mostrou-se mais preocupada com "a produção escrita", notando, por exemplo, a falta de livros e jornais dos países de língua portuguesa no Brasil.

Para Enilde Faulstich, a CPLP “tem muito a aprender” com outras organizações, que estão bem implementadas", dando o exemplo do crescimento do espanhol.

A investigadora advogou que não se pode "desvincular" a língua do Produto Interno Bruto (PIB), porque "não haverá crescimento nacional sem língua, sem leitura, sem escrita", sendo que quem vai fazer a economia crescer é quem tem habilidade nas línguas que um país pode oferecer.

A CPLP, que já existe há 20 anos, reúne Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Guiné Equatorial, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste.

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