Quais são, para já, os efeitos da pandemia nos arquitetos?

Olhe, para grande surpresa nossa, porque, nas crises, a arquitetura é sempre a primeira vítima— como a construção é um dos motores da nossa economia, quando se inicia uma crise, ou se prevê uma crise, o que para primeiro é o investimento na construção, que é um investimento a longo prazo e, portanto, as primeiras vítimas são logo os arquitetos, que são quem está na primeira linha dessa cadeia de produção.

Para nossa surpresa, parece que não é o que está a acontecer neste momento com esta pandemia. Aparentemente, porque havia muito investimento em curso e havia muito trabalho de arquitetura em curso, o retorno que nos chega é o de que a construção não parou completamente, ao contrário de muitas outras atividades. Aliás, aparentemente até houve alguma urgência em finalizar processos em curso.

Num primeiro momento, os arquitetos conseguiram fazer um confinamento bem feito; num segundo momento, não se notou a quebra na atividade, por causa da urgência de concluir investimentos em curso.

Estamos a prever que vamos estar dependentes da atividade turística, a breve prazo. Ou seja, se a atividade turística abrandar, como se prevê que abrande, vai-se instalar a crise no setor da arquitetura.

Mas, se a atividade turística, apesar de tudo, retomar e houver confiança no mercado, pode ser que a coisa não seja assim tão grave e que os arquitetos continuem a desenvolver a sua atividade com alguma normalidade — mas é isso que temos estado a monitorizar.

Agora sim, na própria arquitetura, todas estas questões do confinamento, do distanciamento, podem ter reflexos no desenho dos espaços?

Devem ter — ou deveriam ter reflexos. Nestes tempos de confinamento, houve muita reflexão. Tivemos tempo para parar e pensar. Às vezes, estas crises têm alguns efeitos laterais que não são totalmente negativos. O facto de podermos parar todos um pouco para pensar é bom, é um lado positivo da crise.

Houve, de facto, muita reflexão relativamente à cidade, ao habitar, ao edificado. Essa reflexão deverá produzir resultados.

Quais em concreto? Digo já um, que devia sobressair e que devia motivar a alteração da legislação: que não fosse permitido fazer habitação sem pelo menos duas frentes. Num país de sol como o nosso, há muita habitação que tem apenas uma frente e se as pessoas se veem obrigadas a viver em isolamento durante algum tempo, a qualidade de vida decai bastante pelo facto de terem apenas uma orientação solar — às vezes [com uma exposição] que não é nenhuma se for virada a norte, podendo dar-se o caso de habitarem casas onde nem sequer entra o sol.

Esta devia ser objeto de uma alteração já breve. Depois, há outras: os espaços de higienização à entrada dos edifícios, das habitações, os espaços de transição entre o dentro e fora, percebemos que os espaços de transição de que dispomos no nosso edificado são curtos e são limitados, por vezes a uma pequena varanda, às vezes nem há varanda nenhuma, é uma parede que separa o dentro e o fora.

Nós também necessitamos desses espaços que não são diretamente a rua, nem o ar livre; nem é exatamente o interior da nossa habitação.

Produziu-se reflexão, esperemos é que se produzam efeitos e que possa haver uma melhoria da qualidade de vida nas nossas cidades.

Sendo a arquitetura uma atividade que é diferida no tempo, ou seja, o projeto é feito e só muito depois é materializado, quando é que se pode começar a ver estas eventuais alterações?

Isso remete-nos para os prazos do processo e de construção. Por isso, nunca antes de dois anos, não é possível. É relativamente comum um processo durar um ano ou mais, pode ir aos cinco anos, por vezes mais — depois, a respetiva obra durará sempre no mínimo também cerca de um ano. Portanto, em menos de dois anos isto não se verificará.

No geral, a arquitetura do país está a lidar bem com a pandemia ou estão a ser postas em evidência as suas fragilidades?

Felizmente, Portugal tem um território muito diverso e, portanto, tem também um edificado muito diverso. Não há uma resposta taxativa: algum edificado correspondeu muito bem às necessidades, outro nem tanto.

A arquitetura hospitalar correspondeu muitíssimo bem

Se calhar, construímos de forma muito massiva nas décadas anteriores, para poder providenciar habitação a toda a gente e, se calhar, essa habitação não se adequa a todas as necessidades humanas neste que é um momento atípico das nossas vidas.

Por outro lado, verificou-se que a arquitetura hospitalar correspondeu muitíssimo bem. Os nossos hospitais estão bem construídos, estão feitos para receber doenças infecto-contagiosas em larga escala.

Dentro dos vários modelos de habitação, muita também correspondeu às expectativas, mas é verdade que algumas lacunas saltaram à vista.

O Daniel é arquiteto do ministério da Saúde. Quão bem preparado tem de estar um edifício hospitalar para se adaptar com a agilidade a que assistimos?

Primeiro, Portugal tem um largo parque hospitalar construído, tem muitos edifícios de saúde, tanto no público como no privado. Depois, as infecto-contagiosas não têm especificidades assim tão grandes. Basicamente, podemos criar quartos de isolamento, câmaras de pressão negativa ou positiva e isso pode ser instalado noutras alas hospitalares com relativa facilidade.

Temos toda uma questão relacionada com os objetos e isso eu tenho vindo a referir, lembrando que temos de evoluir para tecnologias associadas à construção mais amigáveis, no sentido de haver menos contacto, para não ser necessário tocar tanto nas coisas, por causa das infeções cruzadas.

É muito mais fácil um cidadão saudável vir a contrair uma doença se estiver num ambiente que possa ser contaminado, do que num ambiente que não possa ser contaminado. Evidentemente, se houver espaço e ar suficientes, se o espaço for bem desenhado e não for necessário tocar muito nem respirar muito para cima das superfícies em ambiente hospitalar, melhor, porque vai haver menos contaminação — e Portugal tem um problema, realmente, de mortes por infeção hospitalar cruzada, que é necessário ir resolvendo, também através da arquitetura.

Esta paragem abrupta pode levar a uma transferência do paradigma que veio desenhando as nossas cidades, ou trata-se apenas de um abrandamento?

Penso que é mais um abrandamento do que uma mudança de paradigma. Agora, não sendo uma mudança de paradigma, abre-se um espaço para a criação de novas regras: depende de nós. Já que fomos obrigados a parar, obrigados a refletir, depende agora de nós ser esclarecidos e lutar por novas regras, mais adequadas.


As eleições para a Ordem dos Arquitetos arrancaram nesta quarta-feira, 17, e contam com quatro nomes à frente das listas — Daniel Fortuna do Couto, Cláudia Costa Santos, Célia Lourenço e Gonçalo Byrne. O processo prolonga-se até ao dia 26 deste mês e introduz alterações na própria estrutura da instituição.

SAPO24 foi conhecer as propostas, mas, sobretudo, aquelas que anteveem ser as mudanças na forma como as casas, as cidades e a própria profissão vão refletir os efeitos da pandemia: do confinamento, do distanciamento e do turismo.

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