Graça Freitas anunciou, esta terça-feira, que a DGS recomenda a vacinação universal de todos os jovens a partir dos 12 anos, com base na análise de novos dados que chegam dos Estados Unidos e União Europeia.

De acordo com a diretora-geral, "nos mais de 15 milhões de adolescentes vacinados nos EUA e na União Europeia os episódios de reações adversas a nível cardíacos são extremamente raros".

"Assim, dando continuidade à comunicação de 30 de julho, a DGS mantém a recomendação para vacinação prioritária aos jovens com 16 e 17 anos e dos adolescentes entre 12 a 15 anos com comorbilidades. A DGS recomenda a vacinação de todos os jovens entre 12 e 15 anos de idade. A recomendação, que surge na sequência da análise dos dados de vacinação nestas faixas etárias nos Estados Unidos e União Europeia, tem caracter universal, pelo que as vacinas estarão disponíveis para os jovens acompanhados pelos pais ou tutores legais, sem necessidade de indicação médica", afirmou.

Graça Freitas assegurou ainda que a DGS e a comissão técnica continuarão a "acompanhar a evolução do conhecimento cientifico da situação epidemiológica e da vacinação contra a covid-19, podendo atualizar as suas recomendações a qualquer momento".

Questionada sobre quando começa a ser vacinada esta faixa etária, a diretora-geral remete a organização logística para a task-force, coordenada pelo vice-almirante Henrique Gouveia e Melo.

“Todos os processos de vacinação começam com uma recomendação técnica. Depois desta recomendação, a parte logística faz o seu trabalho. A partir deste momento está aberto o caminho para a vacinação universal destes jovens e será depois a parte da logística que comunicará em que moldes vai acontecer a vacinação. Não se tenha a expectativa que é hoje que começa. Hoje foi tomada a decisão técnica”, explicou Graça Freitas.

Questionada sobre se o processo será antes do início do próximo ano letivo, responde: “Esperemos que sim, mas, se não for exatamente antes do início do ano letivo, será nos dias a seguir. A questão do ponto de vista do impacto desta vacinação na epidemia, se for mais uma semana ou menos uma semana, não terá um impacto negativo importante. Vamos deixar as questões logísticas a fazerem o seu trabalho”.

Tendo em conta os estudos feitos até ao momento, os jovens portugueses deverão ser vacinados com duas doses, sendo que serão utilizadas apenas as duas vacinas licenciadas para este grupo etário, sublinhou ainda a diretora-geral.

Sobre se a pressão política a favor da vacinação das crianças e adolescentes influenciou esta decisão, a Graça Freitas recordou que a 30 de julho, na conferência anterior, a DGS tinha recomendado que apenas as crianças dos 12 aos 15 anos com comorbilidades fossem vacinadas contra a covid-19, reafirmando que a recomendação da vacinação universal desta faixa etária teria de aguardar por mais dados. No entanto, informa que, no mesmo dia, foi publicado pelo CDC, EUA, um boletim que reportava nove milhões de jovens vacinados e as respetivas reações, além de terem sido publicados novos dados na União Europeia sobre as seis milhões de doses administradas nesta faixa etária em países europeus.

“Foi a sequência e a continuidade destes acontecimentos que levou a que no dia 30 nós tivéssemos um parecer e hoje tivéssemos outro".

Graça Freitas explicou que a opção tem por base “aumentar a confiança” da população: “Quando fazemos uma recomendação de vacinação é com base na confiança e na convicção de que os benefícios superam os riscos e que esses riscos são aceitáveis para a população”, justificou.

Luís Graça, membro da Comissão Técnica de Vacinação Covid-19, lembrou que nesta faixa etária os efeitos da doença são pouco graves e por isso a vacinação dos jovens tem como objetivo “reduzir a transmissão do vírus” e garantir o bem-estar deste grupo etário.

“Existe um certo consenso em relação a alguns aspetos relacionados com os adolescentes: primeiro, a doença causada pela infeção nesta população tem um curso habitualmente favorável, uma vez que a maior parte dos adolescentes que não tem comorbilidades tem uma doença ligeira, que na vasta maioria se resolve sem sequelas; segundo, esta faixa etária não contribui de um modo muito significativo para a transmissão da doença em comparação com faixas etárias adjacentes", além de referir que os são em menor número".

O investigador explicou que para este grupo etário que não tem outras doenças o “maior benefício que recebe [ao ser vacinado] é do seu bem-estar de saúde mental, social e educacional”.

“Portugal está num grupo de países que teve uma atitude mais prudente antes de alargar esta decisão”, sublinhando que “as decisões são feitas com prudência” para se “manter a confiança da população portuguesa”. Sobre a vacinação de crianças abaixo dos 12 anos, Luís Graça relembrou que, atualmente, ainda não há vacinas aprovadas para essas faixas etárias.

Lá fora, os Estados Unidos da América, Israel, Reino Unido, França, Alemanha, Suécia, Finlândia, Espanha, Itália, Áustria, Bélgica e Suíça, entre outros países, já avançaram com o processo de vacinação desta faixa etária. A distinção está apenas entre aqueles que decidiram vacinar de forma universal todo esse grupo etário – por exemplo, EUA, Itália, França, Áustria e Alemanha – e aqueles que só vacinam menores entre 12 e 15 anos que tenham comorbilidades de risco associadas à covid-19 – como o Reino Unido, Suécia e Finlândia.

Testes serológicos não devem ser usados para tomada de decisões sobre eficácia da vacina

O especialista Luís Graça defendeu que a eficácia das vacinas não pode ser medida exclusivamente através de testes serológicos.

"Na verdade, os ensaios clínicos que foram a base da autorização da utilização das vacinas não se basearam em serologia, mas na eficácia das vacinas na prevenção de infeções e doença causada pela infeção", explica.

"Do mesmo modo, a decisão sobre a necessidade de uma terceira dose terá de ser tomada com base em dados da proteção que as vacinas continuam a manter contra a doença causada pela infeção e não por dados serológicos", acrescenta, reiterando que há uma grande unanimidade sobre a inadequação de testes serológicos para decisões sobre a vacinação.

O investigador explica ainda que em Portugal, bem como outros países, há uma “monitorização contínua da efetividade das vacinas, que vão sendo administradas na população, para verificar se existe perda de efetividade, que se mede com um aumento do número das infeções, e se isso deve condicionar medidas para reforçar a proteção de grupos onde a imunidade possa estar a decair”. Luís Graça reitera ainda que “os testes serológicos não estão recomendados, em Portugal nem nos outros países, para ser base para tomada de decisões sobre o estado de proteção conferido pelas vacinas”.

DGS vai passar a divulgar dados de mortalidade e estado vacinal

A diretora-geral da Saúde informou ainda que a DGS vai passar a integrar a informação sobre a mortalidade em vacinados e não vacinados, de forma regular, em boletins periódicos sobre o estado da pandemia em Portugal.

“Tem havido uma mortalidade diária que é conhecida de todos, que ronda os 17-20 casos nos últimos dias, que ocorre predominantemente em pessoas muito idosas e pessoas muito doentes. Estas pessoas pertencem a três grupos diferentes referente ao estado vacinal: há pessoas que têm duas doses de vacina, o que não é de estranhar porque, como sabemos, a vacina não é totalmente efetiva; há pessoas que têm apenas uma dose da vacina; e há algumas pessoas que não têm nenhuma dose da vacina”, detalhou.

“São quase todas pessoas muito idosas, a média etária é superior a 80 anos e a maior parte delas tem comorbilidades. É uma mortalidade que está de acordo com o que seria expectável com a efetividade da vacinação”.

Graça Freitas refere que a “a maior parte das pessoas tem as duas doses da vacina”. "Não nos podemos esquecer que a variante predominante, neste momento, é a delta, que são necessárias duas doses da vacina para ter proteção, mas mesmo com duas doses há uma faixa da população que não fica imunizada".

O investigador Luís Graça relembra que "os números podem ser enganadores".

“À medida que o processo de vacinação avança, e, neste momento, na população acima dos 80 anos temos 99% das pessoas com as duas doses e [considerando que] muitas destas pessoas têm condição muito frágil, e uma infeção respiratória, seja por covid-19 ou outra causa, é sempre uma situação que faz sempre perigar a vida de pessoas que têm uma situação de grande fragilidade. Estando toda essa população vacinada com duas doses, e não tendo as vacinas efetividade de 100%, é esperado que haja algumas infeções que poderão ser perigosas nessa população. Estando todas as pessoas praticamente vacinadas, todos os óbitos vão ser necessariamente em pessoas vacinadas e isso não significa que as vacinas não estão a ter a efetividade que esperamos”.

"As vacinas têm mudado o curso da infeção no país e a mortalidade que observamos em janeiro e fevereiro é algo do passado e que já não se verifica", afirma.

Isolamento de pessoas completamente vacinadas está em análise

A diretora-geral da Saúde afirmou também, na conferência de imprensa desta terça-feira, que está a avaliar a necessidade de colocar em isolamento profilático pessoas que já tenham recebido as duas doses da vacina depois de um contacto de risco com infetados. No entanto, salvaguarda que a norma da DGS, atualmente, prevê um isolamento igual para vacinados ou não vacinados.

“O ideal seria, à medida que as pessoas estiverem completamente vacinadas, haver um aligeiramento das medidas de contenção, nomeadamente do isolamento profilático", defendeu Graça Freitas, relembrando, porém, que atualmente "ainda estamos em fase epidémica" e, por isso, "devemos ter algumas cautelas".

“Estamos em planalto, não estamos a aumentar, mas também não estamos com uma descida acentuada [de casos] e, portanto, ainda devemos ter algumas cautelas e depois temos que aprender com países que já abrandaram estas medidas e que agora resolveram novamente deixar esse abrandamento”, salientou.

“Nós queremos que a nossa vida social e de relação decorra o mais normalmente possível, mas temos que ter aqui o equilíbrio na questão da proteção da saúde pública e da nossa vida social, económica, relacional”.

Sobre as normas de isolamento profilático na comunidade escolar, a diretora-geral informou que estas vão ser revistas mais próximo do início das aulas, previsto para setembro.

Em abril, a DGS reforçou junto das escolas e delegados de saúde as medidas de vigilância sobre a circulação de novas variantes de covid-19 e a deteção de surtos nas escolas, que previa caso fosse detetado um caso positivo numa turma, devia ser suspensa a sua atividade enquanto se aguardavam os resultados laboratoriais dos testes moleculares (PCR).

Questionada hoje se com a vacinação universal dos jovens, a partir dos 12 anos, anunciada hoje pela diretora-geral da Saúde em conferência de imprensa, em Lisboa, as regras de isolamento vão ser revistas, Graça Freitas afirmou que é uma situação de “difícil decisão”.

Contudo, afirmou que se houver informação científica que aponte no sentido de se poder “com segurança” abrandar as medidas, “será isso que será feito”.

“Cada agrupamento de escolas articula-se com o agrupamento de Centros de Saúde e tem as respetivas autoridades de saúde que podem sempre perante uma situação concreta e a análise de um risco concreto tomar uma decisão mais ou menos restritiva e, portanto, essa é uma questão que nós veremos também no início do ano letivo”, avançou Graça Freitas.

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