A primeira coisa que fizeram quando Ricardo Baptista Leite chegou a Lviv foi instalarem-lhe no telemóvel uma app que toca simultaneamente com as sirenes de rua para avisar que tem de fugir para um abrigo ou que já é seguro sair. "Tocou duas vezes desde que cá estou, há uma semana", conta o médico ao SAPO24.

Da primeira vez, um míssil caiu longe e não atingiu nenhuma estrutura essencial nem provocou mortes, que se saiba. Da segunda vez, no último sábado às primeiras horas da manhã, os três mísseis foram abatidos pelo sistema antiaéreo, viu depois nas notícias.

Aparentemente, cerca de 50% dos mísseis russos são travados no ar - comparando, o sistema israelita tem uma eficácia de 80%. Ainda assim, há hoje muito menos mísseis a atingirem os alvos, graças à tecnologia fornecida sobretudo por americanos e alemães.

"Tem sido muito difícil falar com os doentes sobre a realidade da guerra"

Os abrigos são quase sempre improvisados em edifícios antigos, como é o caso dos hospitais, que transformaram as suas caves em locais de refúgio. Mas é também nas caves do Hospital Regional de Lviv que desde março estão a funcionar em permanência os cuidados intensivos de neonatologia.

Ao contrário de outros serviços, onde existem bunkers para onde são transportados os doentes quando as sirenes tocam, no caso dos cuidados intensivos neonatais não é possível transportar bebés recém-nascidos, prematuros, ligados a uma máquina, e mudar tudo.

"Estive lá umas horas e fiquei com a t-shirt colada ao corpo por causa do calor. A ventilação é totalmente artificial e não há luz natural. Depois de dois anos de pandemia, estas pessoas estão a trabalhar neste contexto há cinco meses. E ninguém tem férias, uns não podem outros recusam-se a abandonar o país", nota.

Recorde-se que há recolher obrigatório, entre as 23:00 e as 7:00. Acaba por ser, para a maioria, uma espécie de descanso forçado, já que, por questões de segurança, o pessoal hospitalar é reduzido ao mínimo indispensável nesse período. "Eu, claro, não sou pessoal essencial, e eles têm sido muito cuidadosos comigo". Assim, o médico dorme cerca de seis horas, num sofá transformado em cama, num apartamento da Igreja Católica, que serve de apoio de dia para crianças com necessidades especiais e que, por serem férias de verão, está agora vazio.

O receio de um bombardeamento está presente todos os dias. "Têm sido identificadas situações de alto risco que demonstram claramente, sobretudo nesta parte do país, que não é a frente da guerra, que têm como objetivo atingir estruturas essenciais civis, das quais os hospitais são parte. Não posso entrar em detalhes daquilo que já vi, a pedido dos próprios, mas não só isso passa pela cabeça de todos como é uma preocupação real", garante o deputado português.

Ricardo Baptista Leite está na Ucrânia a convite do governo regional e da Associação dos Ucranianos em Portugal, comprometido com esta causa. Já viu nascer sete bebés nas catacumbas da maternidade do Hospital Regional de Lviv e há pelo menos 15 grávidas internadas à espera de dar à luz. As estatísticas indicam que ali são feitos cerca de 3 mil partos por ano. "Os cuidados intensivos neonatais, e os pós-intensivos, para onde vai o bebé quando começa a melhorar, têm estado na capacidade máxima. Neste momento não há vagas, se nasce mais uma criança a precisar de cuidados especiais, tem de ser transferida para outro hospital", descreve.

"Felizmente", adianta, "não tem faltado medicação", mas, "como também acontece no nosso país, há muitos bebés prematuros. Dizem-me que esta é uma realidade que já existia antes, mas que se agravou com a guerra, sobretudo devido ao pior acompanhamento pré-natal. Tal como em Portugal, as grávidas tendem a ser seguidas pelos médicos de família, mas como há mais dificuldade em conseguir consultas, as grávidas acabam muitas vezes por não ser seguidas nos primeiros meses de gravidez, o que tem consequências".

A formação de base de Ricardo Baptista Leite é Infecciologia, mas a maternidade, e conseguir donativos para a equipar, é agora o seu foco. Ainda assim, desde que ali está a fazer voluntariado tem rodado por diversos serviços. No dia em que falamos começou pela maternidade e pelos cuidados intensivos neonatais, mas passou por mais três serviços: "Estive nas consultas externas, em diversas especialidades, na cirurgia cardiotorácica (cardiologia de intervenção), e fui dar algum apoio na cirurgia geral".

"Conheci psicólogos absolutamente esgotados, mal conseguem falar de tão cansados"

Está como médico assistente, "não tenho licença para exercer medicina na Ucrânia nem falo ucraniano", recorda. A língua tem sido uma barreira, mas "têm identificado médicos de uma nova geração, muitos estudantes de férias e que falam inglês, e aí sim, sobretudo na linguagem técnica, conseguimos entender-nos. O Google tradutor também tem sido uma grande ajuda", diz.

Lviv tinha 800 mil habitantes. Agora são 1,3 milhões

Lviv é considerada neste momento uma das cidades mais seguras da Ucrânia. Por isso mesmo, é aí que os deslocados internos, que fogem da guerra a oriente ou que não querem sair do país, procuram abrigo.

E é isso que explica que, mesmo com a saída de homens para a guerra ou de famílias inteiras para países vizinhos, a população tenha aumentado de cerca de 800 mil para 1,3 milhões de habitantes.

Há meio milhão de pessoas que vieram de fora. "Ainda hoje estive a ver um doente de Donetsk, um rapaz de 26 anos que, basicamente, fugiu. Ainda lhe fiz algumas perguntas, mas começou num choro, num pranto... Tem sido muito difícil falar com os doentes sobre a realidade da guerra", conta Ricardo Baptista Leite. 

O médico tem reunido com alguns psicólogos, que consideram que "muitos estão a viver numa lógica de fuga da realidade". Chama-se dissociação, um quadro em que as pessoas tentam viver numa espécie de mundos paralelos.

Mas depois há o outro lado. "A cidade é vibrante, cheia de jovens. Se eu for ao centro de Lviv às nove da noite, parece uma capital europeia, os restaurantes cheios - só ucranianos, não há estrangeiros, e os edifícios estão protegidos com sacos de areia, os monumentos tapados. O que me dizem é que são sobretudo ucranianos da zona oriental, mas acho que há ao mesmo tempo uma tentativa de desligarem, de procurarem a normalidade".

Apesar de haver menos empregos, há muitos negócios a funcionar. "Muitos oferecem-se como voluntários, a estação de comboios está cheia deles, todos acabam por encontrar o seu espaço". Até há pouco, as crianças estavam em aulas online e assim continuarão a partir de setembro. "Tudo isto terá consequências, algumas só vamos conhecer dentro de anos", assegura.

O cenário de saúde mental é negro. "Há necessidades brutais, conheci psicólogos absolutamente esgotados, mal conseguem falar de tão cansados que estão. E enquanto falo com eles o telefone não pára. Estamos a falar de doentes locais e de militares que estão na linha da frente, a quem é dada resposta remotamente. Há quadros de ansiedade e de depressão".

O médico conta que foi "assistir ao funeral de um deputado regional que se voluntariou para a frente de guerra e foi morto, deixou dois filhos, um rapaz e uma rapariga, pequeninos. Em dois dias foi o quinto funeral na igreja militar. Gente de Lviv, que regressa à sua cidade. O que o impressionou foi o ritual, uma cerimónia de mais de uma hora, cantada, com marcha e banda militar... Repetem o ritual todas as vezes, é um momento brutal, a cidade vive a guerra com dor e com sofrimento mesmo à distância. Inevitavelmente, isto tem consequências do ponto de vista emocional e social".

"Mais do que a paz, queremos a vitória", dizem os ucranianos

O Hospital Regional de Lviv, onde se encontra, pode ser comparado com o Hospital de São José. "É um hospital com 200 anos", mas depois "não há praticamente nenhuma unidade que não tenha falta de material tecnologicamente mais avançado, ou seja, parece que estamos cinco ou dez anos atrasados face àquilo que é o padrão internacional em determinadas áreas". 

Mas há planos, vontade e ótimos profissionais. "Fui a um hospital, mais como o Santa Maria, um hospital de grande dimensão, com 350 camas, que transformou a cave num abrigo com 100 camas. Cerca de um terço da capacidade do hospital num subterrâneo, para utilizar em caso de necessidade. Conseguiram montar um bloco totalmente de raiz e uma unidade de cuidados intensivos, tudo com donativos locais. E o hospital transformou entre 40% e 50% da sua capacidade para serviços de traumatologia, por causa da quantidade de casos de mutilados de guerra, militares ou civis, que para ali são enviados. Mas estão muito dependentes de profissionais locais", explica o deputado.

O problema é que a maioria das equipas médicas tem sido enviada para a frente de guerra, nomeadamente os Médicos Sem Fronteiras, o International Medical Corps e outros, onde há uma grande necessidade. A consequência é que as zonas mais protegidas do país "também sofrem e são esquecidas". 

A Roménia, que é membro da UE, está atrás da Ucrânia em alguns aspectos

"Quando digo que espero que a paz regresse depressa para que tudo volte ao normal, respondem-me sempre da mesma forma: "Mais do que a paz, querem a vitória", conta Ricardo Baptista Leite. "Têm a noção plena - e isso para mim está muito claro depois desta viagem -, que a paz real, duradoura, só é possível com a conquista absoluta do território soberano da Ucrânia. Não há meio termo. Sentiram com a Crimeia [tomada pela Rússia em 2014] o que sentiram toda a sua história: sempre que cederam em alguma coisa, foi apenas uma questão de tempo até os russos virem buscar mais".

Por isso, acreditam que "este é o momento para, de uma vez por todas, se resolver este conflito histórico e permitir que a Ucrânia livre seja uma realidade. E estão todos muito comprometidos, apesar de cansados, em construir esse futuro. E o exemplo disso são os administradores hospitalares, sempre a mostrar o que vai ser feito aqui e ali depois da guerra".

Este é um dos motivos por que foi tão importante dar à Ucrânia o estatuto de candidato a Estado-membro da União Europeia. "Além de ter sido um sinal determinante para levantar um pouco a moral, o país passou a poder candidatar-se ao acesso a fundos europeus.

"É engraçado, porque muitas vezes as pessoas não percebem a consequência real de certas decisões", repara o deputado. E dá um exemplo: "o tal hospital tipo Santa Maria, que se reconverteu em serviço de trauma, já conseguiu desenhar um projeto, porque antecipa que vai precisar, mesmo com o fim da guerra, de um grande centro nacional de reabilitação física e mental. É um projeto que custa 50 milhões de euros, não há nada do género na Ucrânia, e vai tentar candidatar-se a fundos europeus" para o conseguir.

Se a adaptação da Ucrânia aos padrões médios da União Europeia será difícil? "Estive em Lviv há sete ou oito anos, a leccionar numa universidade. Naturalmente, noto diferenças, e o que vejo é uma evolução desde então. Na área da saúde, que me é mais próxima, há ainda um longo caminho a percorrer. Mas conheço relativamente bem a Roménia, que é um país da União Europeia há muitos anos [aderiu em 2007, há 15 anos], e devo dizer que em alguns aspectos tem muitas semelhanças com Lviv, que em determinadas áreas está até mais avançada do que algumas partes da Roménia", considera.

Sobre o sistema de saúde, Ricardo Baptista Leite afirma que "tecnicamente estão muito avançados, e foi feita uma grande reforma na saúde pouco antes da Covid, que está agora a ser implementada, muito em linha com os melhores padrões internacionais". Mas "têm falta de tecnologia e de meios". É, acima de tudo, acredita, "uma questão financeira".

Na Ucrânia o Estado paga um determinado conjunto de serviços básicos, mas muita coisa sai do bolso do paciente. Os seguros são uma realidade ainda pouco presente e, nos casos mais críticos, acaba por ser o hospital, por iniciativa dos médicos, a colmatar as falhas.

Uma cirurgiã, cuja especialidade é colocar válvulas artificiais em doentes cardíacos, "uma intervenção cara", conta ao médico português que vão conseguindo suprir as necessidades através de donativos e, sempre que possível, reservam uma parte para uma bolsa social. "E esse é outro lado que me tem chocado. Porque estamos a falar de equipas que estão esgotadas, tal como os portugueses, com dois anos de pandemia em cima, mas ainda mais uma guerra desde fevereiro", desabafa Ricardo Baptista Leite. "E, pelo que fui apurando, um médico especialista ganha entre 400 a 500 euros por mês".

Isto "valoriza ainda mais o facto de terem ficado, são profissionais de mão cheia. Claro, há uma pobreza iminente, nota-se que, no que toca à saúde, uma parte da população sofre. Para dar um exemplo prático: um doente com diabetes tem acesso a uma medicação básica, mas hoje existem terapêuticas que melhoram substancialmente a qualidade de vida destes doentes. Mas isso custa cerca de 100 dólares por mês. Como disse, penso que o maior atraso tem a ver com o acesso à tecnologia, que implica grandes investimentos. E, claro, vai ser preciso reconstruir toda a zona de guerra, que vai consumir uma boa parte dos recursos. A última estimativa que vi apontava para 50 mil milhões de euros, e, provavelmente, está subestimada".

As primeiras-damas pedem ajuda humanitária, a mulher de Zelensky pede armas

A verdade é que os ucranianos se identificam como europeus. "E não há edifício estatal que não tenha uma bandeira da União Europeia à porta", nota o deputado Ricardo Baptista Leite.

"Aquilo que me angustia é ver a Ucrânia a arrastar-se aos poucos para se transformar numa espécie de Vietname"

O médico admite que Portugal não esteve sempre bem neste processo. "O primeiro-ministro [António Costa] foi muito infeliz numa fase inicial, ao colocar a questão dos fundos europeus como fator dirimente. Mas, com toda a justiça, devo dizer que tive oportunidade de falar com o senhor ministro dos Negócios Estrangeiros [João Gomes Cravinho] antes de me deslocar à Ucrânia, que me autorizou a falar em nome de Portugal e a dizer que continuaremos firmemente ao lado da Ucrânia".

Ricardo Baptista Leite acredita, no entanto, que "a União Europeia e a NATO deviam dar um contributo maior para acabar com esta guerra de uma vez por todas. Esta é a minha posição pessoal".

Como? "Por um lado, do ponto de vista da tecnologia militar - tem sido facultado mais e mais, mas fica muito aquém das necessidades. Ainda na semana passada a mulher do presidente Zelensky foi ao Congresso dos Estados Unidos; As primeiras-damas são conhecidas por pedirem apoio humanitário, ela foi pedir armas. Porque é disso que eles precisam. Bem sei que o envio de tropas - apoio terrestre e intervenção aérea - é polémico, mas o reforço substancial do armamento ucraniano podia ajudar a acelerar o fim da guerra. O prolongar da guerra tem consequência brutais, não apenas do ponto de vista humano, como do ponto de vista económico e social. E não falo apenas para a Ucrânia, Portugal está a sentir isso, como a Europa, como o resto do mundo"

"Aquilo que me angustia, pessoalmente, é ver a Ucrânia a arrastar-se aos poucos para se transformar numa espécie de Vietname. Porque Putin tem a consciência plena da fadiga da guerra, seja na Ucrânia, seja além fronteiras. E, historicamente, as guerras têm levado às maiores atrocidades, às maiores violações de direitos humanos, precisamente quando o resto do mundo deixa de olhar. É por isso que temos estar atentos, escrutinar tudo o que se está a passar, garantir que a avaliação dos crimes de guerra nos tribunais internacionais tem consequências. E que Putin, de uma vez por todas, receba uma mensagem da comunidade internacional de que acabou, não há caminho possível a partir daqui, não há negociação com um Estado terrorista que ele neste momento lidera. E todos temos de fazer a nossa parte".

Nesta sexta-feira Ricardo Baptista Leite irá a Kiev para uma reunião com o ministro da Saúde do governo ucraniano e mais tarde terá um encontro com o deputado Igor Vasiliev, presidente do grupo parlamentar de amizade Ucrânia-Portugal, e com a deputada Galyna Mykhailiuk, que tem estado empenhada na candidatura da Ucrânia à União Europeia.

Foi assim que aconteceu: a campanha para angariar donativos

Quando começou a guerra, Ricardo Baptista Leite falou com a embaixadora da Ucrânia em Portugal, Inna Ohnivets, e disponibilizou-se para ajudar "na medida do que fosse possível". Como é médico e presidente da Unite, uma rede de parlamentares comprometidos com a saúde global, viu aí mais um motivo para ser útil.

"Durante três meses não disseram nada, mas depois a Associação dos Ucranianos em Portugal, contactada pela embaixadora, viu esta oportunidade" de, em conjunto, "construirmos uma campanha de angariação de fundos para ajudar a maternidade do Hospital Regional de Lviv e os cuidados intensivos neonatais".

Os equipamentos de que necessitam são básicos, mas essenciais para a sobrevivência de muitos recém-nascidos: um gerador a diesel para garantir o fornecimento de energia sem quebras, a instalação da tubagem de para o oxigénio e a compra e instalação de ventilação. O investimento total é de 179 mil euros, mas as doações podem ser tanto como um euro. 

A ideia de este ser um investimento que prevalecerá para lá da guerra, mais ainda destinado a crianças, "o que nos dá alguma esperança, porque são estas crianças que vão ter de reconstruir uma Ucrânia livre", foi o mote para Ricardo Baptista Leite aceitar o desafio.

A viagem começou na segunda-feira da semana passada, com paragem em Cracóvia para uma reunião com um representante do governo ucraniano que está a ajudar a manter a ligação das empresas ao exterior - no fundo, o provedor das empresas ucranianas -, e termina no dia 2 de agosto.

"Em Cracóvia até achei estranho, e tomei algumas notas no meu diário pessoal, porque vejo mais bandeiras ucranianas às janelas em Portugal, que está tão longe, do que ali. Estava à espera de outra realidade. Depois percebi que havia muita gente a trabalhar nos restaurantes, nos hotéis, nos cafés e por aí fora, sobretudo trabalho sazonal, que estava a ser assegurado por ucranianos. E veem-se muitas matrículas de automóveis ucranianas. Mais tarde confirmaram-me que houve um aumento significativo da população de Cracóvia", recorda o médico.

"Confesso que quando cheguei à estação de Przemysl, uma pequena cidade fronteiriça da Polónia com a Ucrânia, foi um pouco desolador. Antes de me deslocar ao local onde tinha de ir ainda estive quase uma hora, com alguns voluntários, a ajudar mães sozinhas com as malas, os filhos e as cadeirinhas de bebé... Um voluntário polaco explicou-me que já foi muito pior. No início eram milhares de pessoas a passar por ali, ninguém dormia".

Agora, os polacos, que têm sido determinantes no apoio à Ucrânia, começam a exigir - e em Cracóvia também - que estas mães, três meses depois de chegar ao país, estejam a trabalhar. "Estamos a falar de mães que têm os seus bebés, os seus filhos, para tomar conta e, muitas vezes, não há com quem os deixar. É esta dualidade e a incerteza sobre o passo seguinte, para alguém que está a viver uma guerra e uma separação, porque o marido ficou para trás a combater, que está a levar a um fenómeno de regresso à Ucrânia", diz o deputado. 

"Não sou soldado, não pego numa arma, não vou para a frente da guerra. Sou médico e como médico esta é a minha forma de contribuir, de dar este sinal ao povo ucraniano de que Portugal está com eles. E é esse apelo que faço a todos"

Mas logo aí, nessa pequena cidade, o médico sentiu os efeitos da guerra, mas também a solidariedade. "Quando fui buscar o meu bilhete para Lviv à Casa da Ucrânia, percebi que o edifício, que era uma espécie de centro intercultural, estava transformado em centro de receção de refugiados. Tiraram as cadeiras do teatro e converteram-no em dormitório. Uma das salas foi adaptada e funciona com infantário, que já está muito para lá da capacidade da própria casa. E vive dos voluntários, que na maioria são músicos, atores, pessoas do mundo artístico e cultural".

Ricardo Baptista Leite sabe bem que o SNS em Portugal, "infelizmente, tem problemas profundos, que mais do que com dinheiro se prendem com falta de orientação estratégica, com falta de visão política e falta de organização e de gestão. Por isso os profissionais de saúde estão cada vez mais cansados e desmotivados por não conseguirem identificar na liderança qualquer tipo de sinal de caminho de futuro. Mas, neste contexto, o que estamos a pedir é um apoio diferente para uma realidade diferente. E sim, há uma questão de solidariedade internacional, inquestionavelmente".

"A guerra, que no início ocupava a abertura dos telejornais e as primeiras páginas do jornais, arrisca-se muito rapidamente a transformar-se numa nota de rodapé. Porque se prolonga. Mas temos de pensar que o povo ucraniano está neste momento a lutar por todos os portugueses e por todos os europeus. Winston Churchill, num contexto diferente, afirmou que nunca tantos deveram tanto a tão poucos. Eu diria o mesmo em relação aos ucranianos, no sentido em que esta é uma luta que nos afeta diretamente, não apenas na questão da energia ou na questão alimentar - isso são as consequências imediatas -, mas do ponto de vista do que será a Europa no futuro. Acredito numa Europa livre e solidária. Não sou soldado, não pego numa arma, não vou para a frente da guerra. Sou médico e como médico esta é a minha forma de contribuir, de dar este sinal ao povo ucraniano de que Portugal está com eles. E é esse o apelo que faço a todos", remata

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