Há tradições que conseguem ganhar a batalha contra o tempo. O bacalhau e o polvo continuam a ser os principais pratos de Natal em Portugal. Quem os come, envolvido nas festividades, não pensa nisso mas a tendência de consumo já tem barbas e carrega um passado histórico: “Até aos finais do século XVI, a semana que antecede o dia 25 era um período de jejum, semelhante ao da Quaresma, em que não se pode comer a carne. Agora, resta-nos esta simbologia do bacalhau e polvo”, diz Virgílio Gomes ao SAPO24.

Porém, há lugares em Portugal que fazem questão de manter uma “micro” tradição própria no dia de Natal: em Freamunde come-se capão, em Olhão litão e a Sul do Tejo borrego. Para o especialista, estas tradições também não fogem de uma justificação histórica: “Quanto ao sul, poderá, também, ter que ver com a religião. A zona ao sul do Tejo foi a mais resistente à chegada da força portuguesa, a zona onde se mantiveram por mais tempo as tradições muçulmanas. Veja-se que só com D. Afonso III se consolidou o território com o Algarve (1249)”.

Num momento em que os hábitos de consumo mudam, em que a lista de opções gastronómicas é criativamente infindável e em que o tempo que as pessoas dedicam à confeção das refeições tende a ser cada vez mais reduzido, é difícil uma tradição continuar intocada com o passar do tempo.

“O que mais tem quebrado a tradição é o facto destas celebrações à mesa terem deixado de se fazer apenas em casa, aumentou significativamente o número de refeições em restaurantes e hotéis. E já tem aumentado também o número de refeições que são adquiridas no exterior e depois apenas consumidas em casa. Não me espanta nada que até pizas se encomendem no Natal”, diz o especialista. "E, como todas as tradições, tem evoluído com a chegada de produtos novos e com a evolução das mentalidades. No último século foi, possivelmente, o período de maior alteração. Cada vez mais o Natal é a festa do comércio", acrescenta, deixando alguns exemplos de como a tradição de Natal foi evoluindo: "o presépio aparece criado por S. Francisco de Assis em 1223, e nunca mais parou. A árvore Natal surge no século XVI e tornou-se, até, em objeto de design. Na alimentação temos a chegada do Bolo-rei a partir de finais do século XIX, o peru que tirou lugar aos capões ou simples galinhas ou galos gordos desde o século XVII".

Para Virgílio Gomes, o elemento mais importante na mesa de Natal é a doçaria. A oferta esgota o stock de açúcar de qualquer supermercado e é diversa o suficiente para agradar a gregos e troianos - só não agrada a quem não é fã de fritos. Vejamos as opções: filhós, azevias, sonhos, brinhóis, belhoses, rabanadas, fatias douradas, coscorões, broas, bolo rei, bolo rainha. A lista não acaba.

No que diz respeito aos doces, para Virgílio Gomes há alterações que são indesculpáveis: “lamentavelmente, até já se fazem alguns doces tradicionais com leite condensado, o que eu considero um crime cultural”. Para além da variedade, são os doces que ocupam também mais tempo em cima da mesa: “há casas que começam a ter doces natalícios a partir do dia 8 de dezembro, dia de Nossa Senhora da Conceição, até ao dia 6 de janeiro, dia de Reis”.

O especialista foi desafiado pelo SAPO24 para criar um cabaz de Natal que refletisse a cultura portuguesa, eis as escolhas de Virgílio Gomes:

Bacalhau
Polvo
Couves
Nabos
Broas
Rabanadas
Filhoses
Pudim
Vinho branco
Vinho tinto
Vinho do porto

Ao longo das próximas semanas, o SAPO24, em parceria com o Jumbo, vai dizer-lhe como comer bem nesta quadra festiva. Saiba como, aqui.

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