Ao longo de 200 páginas, o militante e dirigente recorda 40 anos de militância no PCP (saiu em 2009), da sua adesão às “lutas” estudantis em Coimbra e Lisboa, o 25 de Abril e os tempos da revolução de 1974/75 em que foi secretário de Álvaro Cunhal quando o líder histórico dos comunistas portugueses foi ministro de Estado sem pasta, a sua experiência internacional e a dissidência que o levou a ser “comunista sem partido”.

Álvaro Cunhal (1913-2005) ocupa uma parte central neste livro de memórias de Domingos Lopes, 70 anos, que admite a sua admiração pelo ex-secretário-geral do PCP que o convidou para o seu gabinete de ministro, em 74, quando estava no 5.º ano da Faculdade de Direito de Lisboa.

E descreveu esses tempos desta maneira: “Saímos [o PCP] da clandestinidade para o centro do poder. Era um tempo de sonhar totalmente acordado, de manhã à noite, um tempo que nunca mais se esquecerá.”

“Cunhal era um homem simples no seu dia-a-dia. Tinha uma inteligência prodigiosa, uma enorme sensibilidade, a sua força, os seus amores e desamores e, sempre, o seu partido”, lê-se no livro em que descreve “o Álvaro” como “um homem feito de vários homens” que era mestre “na arte de lidar com os outros”, fossem “camaradas ou não camaradas”.

Era um líder respeitado dentro do Governo, e “à medida que o processo revolucionário avançava, estava convencido de que o regime democrático” em Portugal ia ser construído a partir de “um amplo setor público e pela reforma agrária”, no Ribatejo e Alentejo.

É aqui que começam os erros que Domingos Lopes aponta a Álvaro Cunhal. Por exemplo, por considerar que os “partidos da direita, e por vezes, o próprio PS, como não estando interessados no regime”.

Outro erro foi pensar que o facto de “os partidos da direita e do PS” se aliarem para “pôr termo às nacionalizações e à reforma agrária” ia implicar “o fim do regime”.

“A inteligência, a capacidade de Cunhal como dirigente não estão em causa. Há, no entanto, observando hoje, a esta distância temporal, a insistência em teses manifestamente fora da realidade. Esta é uma delas”, escreveu em “Memórias Escolhidas”, editado pela Guerra e Paz e que chega na quarta-feira às livrarias.

Outro erro apontado a Cunhal, que também tinha uma “compreensão da necessidade de compromisso”, foi ter “sobrevalorizado o papel dos militares” na revolução dos Cravos.

“Com o avanço da revolução”, lê-se no livro, Cunhal convenceu-se “de que não haveria retrocesso para o processo português”.

Passados mais de 40 anos sobre a entrevista de Oriana Fallaci, em junho de 1975, em que Cunhal admitiu que Portugal nunca iria ter uma democracia ou um parlamento ao estilo ocidental.

Hoje, Domingos Lopes continua a achar que “não foi verdade o que a jornalista lhe atribuiu” e que o que o secretário-geral do PCP quis dizer foi que o país “não seria uma democracia como existia no Ocidente, mas algo diferente, em que o regime democrático tinha como base um amplo setor público e a reforma agrária”.

No livro, Domingo Lopes explica como era o seu trabalho no setor internacional do PCP, descreveu algumas visitas de delegações portuguesas a países governados por partidos comunistas, antes da queda do Muro de Berlim e do fim da União Soviética, da Roménia à Coreia do Sul.

Sendo um dirigente comunista conceituado internacionalmente, Álvaro Cunhal era convidado a discursar nos congressos do Partido Comunista da União Soviética (PCUS) e também a visitar países da Europa de Leste e não só.

Domingos Lopes conta que, na década de 1980, Cunhal reuniu-se com o líder comunista da Hungria, Janos Kádár, para “fazer ver ao Álvaro a importância de ter em conta o mercado e a participação dos cidadãos na construção do socialismo”.

O encontro com Nicolae Ceausescu foi “algo de muito estranho”, dado que o líder comunista romeno estava sentado “a metros” de Cunhal e falou uma hora e um quarto (da hora e meia que tinha destinada ao encontro) sobre o socialismo e como “estava ameaçado” pelas orientações de Moscovo. O secretário-geral do PCP optou por não responder.

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