Apesar de, “felizmente, em alguns locais a presença da infeção ativa pelo SARS-CoV-2 ser mínima, a covid continua a fazer parte da vida diária das instituições hospitalares e dos centros de saúde”, diz à agência Lusa Noel Carrilho.

“Os médicos veem-se agora a braços com uma situação que é de terem de dar assistência a unidades viradas para a covid ao mesmo tempo que é criada a expectativa de retomarem toda a atividade assistencial” e “compensar as listas de espera”.

Contudo, “basta fazer umas contas simples para perceber que nada disto é possível de fazer sem meios”.

“Não se pode com os mesmos meios fazer mais do que aquilo que se fazia e o que está a ser exigido é muito mais daquilo que se fazia” e não há “nenhum acrescento” de recursos médicos, afirma Noel Carrilho.

Antes da pandemia, o SNS já vivia “numa situação limite” em que “a rotina já significava grandes listas de espera” para cirurgia e consultas, doentes sem médico de família e médicos com “grandes listas de utentes que não lhes permitiam dar assistência” de uma “forma satisfatória”.

“Agora, por maioria de razão, estamos numa situação bastante complicada e, portanto, quando é projetada essa expectativa de que as coisas estão a voltar ao normal - e é claro que as pessoas têm que ir ao médico, têm que ser assistidas -, a questão é que essa expectativa que está a ser criada é impossível de cumprir”, salienta.

Noel Carrilho sublinhou que houve uma “contratação marginal” de profissionais durante a pandemia. Contudo, as condições que o SNS oferece neste momento não são atrativas para os médicos, que "seriam agora mais que nunca necessários".

Esta posição é partilhada pelo secretário-geral do Sindicato Independente dos Médicos (SIM), Jorge Roque da Cunha, afirmando que "há maior pressão por parte da procura e há uma menor capacidade por parte dos serviços de resposta, por isso, é essencial contratar os profissionais que não foram contratados nos últimos anos e arranjar maneira de virem trabalhar para o SNS".

"É necessário criar condições de motivação para os profissionais: não faz qualquer sentido depois de passar o que passámos não haja sequer uma medida simbólica - e nem estou só a falar de questões financeiras, apesar de serem importantes como ocorreu na França, na Alemanha - para compensar algumas pessoas que mudaram a sua vida e que estão exaustas”, como por exemplo um ou dois dias de férias ou a flexibilização de horário.

Ao mesmo tempo, “é fundamental que os hospitais paguem a recuperação de listas de espera que são feitas no privado” e “investir seriamente na prevenção das doenças”, preparando os serviços para o impacto que irá ocorrer com a gripe e a covid-19, defendeu Roque da Cunha.

Por isso, defende, não estando a pandemia, com exceção de Lisboa e Vale do Tejo, numa situação que obrigue a uma concentração de meios, como ocorreu numa fase inicial, é essencial que se criem medidas para recuperar os atrasos.

E, apesar de haver “anúncios no Orçamento do Estado para que isso possa acontecer”, “não é possível pensar” que seja apenas o SNS a fazer essa recuperação, porque os “médicos estão exaustos”, tendo “a esmagadora maioria” já atingido o limite legal das 150 horas extraordinárias anuais.

Por outro lado, mais de 200 médicos reformaram-se nos primeiros quatro meses do ano, dos quais mais de 100 estavam no topo da carreira.

“É preciso ter noção que o problema existe e que não se resolve com propaganda, não se resolve com retórica, a ministra da Saúde tem que falar com os sindicatos, com os profissionais, tem de os motivar para fazer um esforço ainda maior porque se continuarmos assim as pessoas em determinado momento baixam os braços”, lamenta Roque da Cunha.

Portugal contabiliza pelo menos 1.568 mortos associados à covid-19 em 41.912 casos confirmados de infeção, segundo o último boletim da Direção-Geral da Saúde (DGS).

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