Um direto contínuo. Assim foi esta segunda-feira: perto das 14h, arrancou a emissão em direto do Rio de Janeiro. Os canais de informação privada em Portugal estacaram nas imagens do treinador de futebol Jorge Jesus numa sala solene da cidade brasileira.

Num dos canais, a emissão regular continuou, com as imagens cariocas numa caixa a ocupar 1/3 do ecrã. Noutro, a emissão foi toda dominada, desde as 13, só por Jorge Jesus, com comentários em estúdio. No outro, o ecrã partiu-se em três, com duas caixas a mostrar vídeos e fotografias do fim de semana de títulos.

As conquistas do treinador português na América Latina apaixonaram Portugal. De repente, o país (ou a sua imprensa) rendeu-se às competições brasileiras, num entusiasmo raro com a vida no outro lado do Atlântico.

Em 2007, os brasileiros eram a nacionalidade que mais se queixava de discriminação em Portugal. De 2017 para 2018, “os relatos de xenofobia contra brasileiros — maior comunidade estrangeira no país — tiveram um aumento ainda mais expressivo: 150% em 12 meses”, escrevia a ‘Folha de São Paulo’ em maio deste ano, citando dados da Comissão para a Igualdade e contra a Discriminação Racial.

Se os diretos contínuos a partir do Rio tiverem o poder de provar que a nacionalidade não conta para nada, talvez façam sentido. Caso contrário, ocupar grande parte do Dia Internacional para a Eliminação da Violência Contra as Mulheres com as conquistas de um homem parece estranho.

Ora, não quero dizer que seja irrelevante — pelo contrário. A vitória de Jesus é importante também para os portugueses no Brasil. E para os brasileiros em Portugal: que são muitos.

Aqui no Porto, a minha turma na faculdade é feita de muitos brasileiros. Com eles, tenho a oportunidade de conhecer a cultura a um nível que não vem nos tratados antropológicos (estou a falar de Pacoquita, claro). Existem vários projetos que se dedicam à integração destes estudantes, ao mesmo tempo que permitem aos portugueses ter contacto com outras realidades.

Veja-se o caso da InterUp, presidida por um brasileiro a estudar em Engenharia, apoiado por uma equipa multinacional.

Ainda assim, a desconfiança persiste. Em abril, um cartaz na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa oferecia pedras para “atirar a um zuca”. Já em novembro, na rua da Picaria, Porto, dois jovens brasileiros foram agredidos por um grupo de cinco pessoas quando despejavam o lixo junto a um bar.

Violência. Vem de muitas formas: a Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV) registou em cinco anos (2013-2018) mais de 100 mil crimes em contexto de violência doméstica e apoiou mais de 43 mil pessoas, a grande maioria — 86% — mulheres.

Transição abrupta, sei, mas os números são mesmo assim: chegam com força. Os dados divulgados na passada sexta-feira pelo Governo indicam que 33 pessoas foram mortas este ano em contexto de violência doméstica, entre 25 mulheres adultas, uma criança e sete homens.

“Infelizmente, acordou-se muito tarde”, diz Marcelo Rebelo de Sousa. O presidente da República apela à denúncia. Tal como António Costa, que diz ser preciso “meter mesmo a colher” para travar a violência.

A colher mete-se estando atento. Denunciando. Apoiando — e falando o assunto, sempre e tantas vezes quantas forem necessárias para mostrar que não é suposto o “amor” ser assim.

Eu sou o Pedro Soares Botelho e hoje o dia foi assim.

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