Com uma simples chamada de facetime, uma aplicação de iPhone, transmitida pela CNN turca, o presidente turco Erdogan mobilizou os seus fiéis seguidores a enfrentar os militares nas ruas de Ancara e Istambul. Com esta vitória, Erdogan confirma que é o líder político mais carismático da Turquia, desde a fundação da república, em 1923, por Mustafa Kemal Ataturk, sobre as ruínas do Império Otomano.

Passaram-se apenas 13 meses sobre a derrota nas legislativas de 7 de junho de 2015, que o deixaram sem maioria absoluta no Parlamento. Nessa altura, vários analistas anunciaram o começo do fim do "sultão" e do seu sonho de uma "superpresidência". Aparentemente, ainda estavam errados. Erdogan, um político combativo e tenaz, não se rendeu. Através de uma série de manobras políticas, valendo-se habilmente da tensão provocada pelo conflito com os curdos no sudeste do país, convocou novas eleições e, a 1 de novembro de 2015, o Partido da Justiça e do Desenvolvimento (AKP) recuperou a maioria absoluta no Parlamento.

Erdogan, que, quando jovem, foi vendedor ambulante, é, sem dúvida, o líder mais poderoso da Turquia moderna e uma figura providencial para seus partidários, tanto quanto representa a encarnação da polarização crescente no país para os seus detractores. O "sultão", como é chamado, enfrentou nos últimos anos, nas ruas e redes sociais, acusações de despotismo, por parte de ex-aliados e opositores.

A repressão às manifestações sociais e as leis de controlo da internet mancharam a imagem de um homem considerado responsável por uma década de crescimento ininterrupto numa potência emergente de 76 milhões de habitantes. As denúncias, envolvendo corrupção em seu redor e os ataques nas redes sociais, irritaram-no ao ponto de começar a chamar os adversários de "traidores" e "terroristas".

Pontes, aeroportos e projetos faraónicos

O partido de Erdogan venceu todas as eleições desde 2002, e o primeiro-ministro, no cargo desde 2003, ganhou o status de homem que trouxe a estabilidade, depois de décadas de golpes de Estado e alianças frágeis, e que soube cortar as asas dos militares.

Grande incentivador de pontes, aeroportos e projetos faraónicos de infraestrutura, Erdogan transformou a Turquia num mercado robusto, controlando a inflação e triplicando o rendimento da população. O seu impulso de construtor chocou, em maio de 2013, com a resistência da população de Istambul à transformação do parque Gezi num centro comercial de estilo otomano. Durante três semanas, 3,5 milhões de turcos protestaram em centenas de cidades, desafiando a repressão policial. As manifestações resultaram em oito mortos, mais de oito mil feridos e milhares de prisões.

Em dezembro, Erdogan acusou os seus ex-aliados da irmandade do imã Fethullah Gülen de estarem por trás das acusações de corrupção contra o Executivo. Em 2014, promulgou leis que reforçaram o controlo sobre a internet, denunciadas como "liberticidas" pela oposição.

Da prisão ao poder

Erdogan, filho de um guarda-costas de Kasimpasa, foi vendedor ambulante de limões e pães na adolescência. Aderiu rapidamente a grupos islâmicos que enfrentavam o regime secular-nacionalista e os governos militares que consideravam parte de sua missão manter uma separação rigorosa entre as mesquitas e as instituições estatais.

Foi jogador semiprofissional de futebol e realizou estudos empresariais, antes de ser eleito, em 1994, presidente da câmara de Istambul, cargo em que ganhou popularidade com medidas para tentar reduzir os congestionamentos e a poluição numa cidade de 15 milhões de habitantes.

O seu partido foi declarado ilegal e Erdogan passou quatro meses na prisão por ter recitado numa manifestação um poema islamita considerado pelos juízes de incitação ao ódio religioso. Em 2001, Erdogan e Abdullah Gul fundaram o Partido da Justiça e Desenvolvimento (AKP), que, no ano seguinte, obteve a primeira vitória nas urnas.

Os seus governos promoveram reformas que aproximaram a Turquia da União Europeia, embora o processo de adesão nunca se tenha concretizado. Nos últimos anos, Erdogan flexibilizou a proibição do uso do véu islâmico, restringiu a venda de bebidas alcoólicas e tentou afastar os dormitórios de homens e mulheres nos alojamentos universitários, o que lhe valeu denúncias de tentar impor uma islamização desenfreada da sociedade.

Os defensores do regime laico criado por Ataturk acusam-no de trair o seu legado, mas Erdogan afirma que a transformação de um país atrasado numa potência regional teria sido aprovada pelo pai da Turquia moderna. 

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