Há 20 anos nasceu, junto ao rio Tejo, o Parque das Nações, uma “cidade idealizada” para acolher a grande Exposição Mundial de 1998 (Expo’98), num espaço que estava distribuído por três freguesias, duas delas pertencentes ao concelho de Loures (Sacavém e Moscavide) e uma ao de Lisboa (Olivais).

Após anos de luta, em 2012, os moradores daquele espaço viram reconhecida a criação da freguesia do Parque das Nações, que agregou o território que pertencia a Loures e integrou o concelho de Lisboa, uma alteração administrativa que lhes “mudou a vida para melhor”.

“A situação que tínhamos antes era absolutamente ridícula. Os moradores do Parque das Nações viviam numa autêntica ilha”, afirma, à agência Lusa, de forma convicta, Pedro Graça, morador no Parque das Nações desde 2005.

Residente num território que, até à criação da freguesia do Parque das Nações, estava integrado em Moscavide, concelho de Loures, via a anterior situação administrativa como “um bloqueio à qualidade daquela população”.

“Vivíamos num território uno, que era gerido pela mesma entidade (Parque Expo), mas que estava administrativamente dividido por três freguesias e dois concelhos. O meu vizinho do outro lado da rua vivia já em Lisboa e pagava menos pelo serviço de água do que eu, porque estava do lado de Loures”, conta.

Também no valor dos impostos municipais, como o IMI (Imposto Municipal sobre Imóveis) havia diferenças para os que viviam do lado de Loures e Lisboa.

Sobre a solução encontrada em 2012 de criação de uma freguesia única, pertencente ao concelho de Lisboa, Pedro Graça entende que foi a melhor solução possível, defendendo até que também a vila de Moscavide deveria ser integrada na freguesia do Parque das Nações.

“Antes de vir viver para o Parque das Nações vivi em Moscavide e parece-me que fazia todo o sentido que fosse também integrada em Lisboa, uma vez que está muito distante de Loures”, argumentou.

Outro morador que transitou do antigo território de Loures (freguesia de Sacavém) para Lisboa, José Baltasar, manifestou-se, igualmente, satisfeito com a mudança, referindo que foi possível normalizar o quotidiano dos moradores do Parque das Nações.

“Tinha uma escola a escassos 500 metros de casa e que o meu filho não podia frequentar porque estava situada já no concelho de Lisboa. Quando queríamos ir às finanças tínhamos de ir a Loures. Felizmente tudo foi normalizado”, considerou.

Contudo, o morador criticou o processo de transição administrativa da gestão daquele território da Parque Expo para a Câmara Municipal de Lisboa.

“Correu muito mal essa passagem administrativa da Parque Expo para a Câmara Municipal de Lisboa. Foi péssimo. Houve um corte radical, sistemas de rega que deixaram de funcionar de um dia para outro. Assistimos à falência do espaço público e de espaços emblemáticos que nos orgulhavam e que gostávamos de mostrar às pessoas de fora”, concluiu.

Perda do Parque das Nações para Lisboa ainda gera mágoa em Loures

Cinco anos depois da criação e integração da freguesia do Parque das Nações em Lisboa, atuais e antigos autarcas do concelho de Loures continuam a “sentir-se traídos e revoltados” com a perda do antigo território ribeirinho.

No final de 2012, a Assembleia da República aprovou a criação da freguesia do Parque das Nações, integrando territórios que foram requalificados para acolher a grande Exposição Mundial de 1998 (Expo’98) e que estavam distribuídos por duas freguesias do concelho de Loures (Sacavém e Moscavide) e uma de Lisboa (Santa Maria dos Olivais).

Mas, se esta alteração administrativa foi encarada com grande satisfação por parte dos moradores do Parque Nações, que durante muitos anos reivindicaram a criação de uma freguesia única que abarcasse todo aquele território, do lado de Loures ficou um sentimento de “revolta e incompreensão”.

“Criou-nos um sentimento de desilusão porque nos retiraram a zona mais requalificada do concelho. Loures era o quinto maior concelho do país e passou a ser o sexto. Creio que Loures perdeu mais do que Lisboa ganhou”, afirmou à agência Lusa o antigo presidente da Câmara Municipal de Loures Carlos Teixeira (2001-2013), que acompanhou de perto este processo.

O ex-autarca socialista referiu que não existiram negociações para a criação da freguesia do Parque das Nações e lembrou que todos os órgãos autárquicos de Loures votaram contra a integração daquele território no concelho de Lisboa.

“Enquanto deu despesa fez parte de Loures, quando passou a dar lucro passou para Lisboa. A criar-se a freguesia, esta devia ser integrada no concelho de Loures e funcionou ao contrário”, apontou, ressalvando que o executivo que liderou fez tudo para contestar e evitar este processo.

O sentimento de mágoa é também partilhado pelos atuais presidentes das juntas de freguesia de Moscavide e de Sacavém, freguesias onde, até 2012, esteve integrado parte do território do Parque das Nações.

“As pessoas não conseguem perceber como é que, depois da melhor requalificação que alguma vez foi feita em Portugal, lhes fosse retirado aquele espaço. Eu conheço casos de pessoas que sempre viveram em Moscavide e que se mudaram para o Parque das Nações porque sabiam que ainda pertenceriam a Moscavide”, afirmou à Lusa o presidente da União de Freguesias da Portela e Moscavide, Ricardo Lima.

O autarca referiu que as perdas para a freguesia não se resumiram apenas ao território, mas também a equipamentos públicos que foram desmantelados em Moscavide porque iam ser construídos novos no Parque das Nações, nomeadamente duas escolas.

“Aquando da construção da Expo houve bastantes constrangimentos. Moscavide sofreu muito durante as obras. Foi uma mais valia do ponto de vista urbano. Esta zona era uma lixeira e um espaço degradado e hoje é um espaço de excelência, mesmo que não pertença a Loures, reconheceu”, com mágoa.

No mesmo sentido, o presidente da união de freguesias do Prior Velho e Sacavém, Carlos Gonçalves, reconheceu a importância que a Expo trouxe para a requalificação de toda a zona oriental, mas lamentou que todos esses benefícios fossem depois retirados ao concelho de Loures.

“Além da reparação de um espaço que estava ao abandono aproximou serviços que não existiam em Sacavém, como foi o caso do Campus da Justiça. Contudo, depois afastou a população que se sente traída por lhe terem tirado o território, sobretudo depois de tudo que eles passaram durante a construção da Expo”, apontou o autarca.

Carlos Gonçalves sublinhou que a saída daquele território do concelho de Loures para o de Lisboa implicou também uma perda de receitas municipais, nomeadamente no Imposto Municipal Sobre Imóveis (IMI), que o autarca contabilizou em cerca de 400 mil euros anuais.

No entanto, ressalvou que não foi só o aspeto financeiro a gerar revolta na população de Sacavém, mas também a parte emocional, fruto da ligação que os moradores tinham com alguns equipamentos instalados no Parque das Nações, como é exemplo a igreja dos Navegantes.

“Investiu-se muito aqui e criaram-se laços a pensar no futuro. Mesmo depois da passagem deste território para Lisboa algumas pessoas ainda chegavam à junta a reclamar do estado em que alguns equipamentos se encontravam. Pessoalmente não consigo encontrar ganhos com esta mudança”, atestou.

A 'Expo 98', cujo o tema foi "Os oceanos: um património para o futuro", realizou-se entre 22 de maio e 30 de setembro de 1998, tendo como propósito assinalar os 500 anos dos Descobrimentos Portugueses.

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