Na peregrinação aniversária de outubro de 2020, a primeira com a presença de peregrinos em tempo de pandemia, não tinha sido atingido o limite estipulado de 6.000 pessoas permitidas no recinto. Para a noite passada e restantes celebrações da peregrinação de maio, o número aumentou: 7.500 peregrinos. E os lugares não chegaram. Por volta das 20h30 da noite de 12, o Santuário de Fátima fechou portas. Do lado de fora, centenas rezaram com os que lá estavam dentro.

As vozes corriam com os mesmos lamentos, mas também com alegria por haver forma de pelo menos ouvir o que estava a ser dito na celebração, enquanto se acompanhava as imagens através dos telemóveis.

"Somos pessoas de fé e acreditamos que Fátima não é um sítio para estar confortável. É um sítio para reconfortar a alma e o sacrifício também faz falta", diziam uns ao SAPO24. "Estamos na casa da Mãe e a Mãe está a ver-nos".

"É aceitar para não irmos [para casa] desmoralizados. Duro foi o ano passado não termos podido cá vir, este ano pelo menos já nos deixaram cá chegar", relembravam outros.

E ainda houve quem afirmasse que "o direito é para toda a gente, mas para um peregrino que vem seis ou sete dias a caminhar, com sacrifício, é qualquer coisa de inexplicável [não entrar no recinto]". Mas a noite continuou e a peregrinação de cada um também, da forma possível face às restrições.

O cardeal-poeta pediu esperança "para olhar mais para diante"

Num mar de luz que o ano passado não foi visto por esta data, o recinto do Santuário fez silêncio para ouvir a homilia de D. José Tolentino Mendonça, o cardeal bibliotecário e arquivista do Vaticano que preside às celebrações. Com palavras simples e atuais, um retrato da pandemia e do que ela trouxe: "de maio passado a este vivemos um ano difícil. Experimentamos uma vulnerabilidade que desconhecíamos", começou por refletir no momento que precedeu a procissão de velas.

Olhando para uma pandemia que "ceifou vidas e alastrou lutos" — e que o continua a fazer —, o cardeal  recuou a 1917. "De repente, sentimo-nos reportados à época dos santos pastorinhos Francisco e Jacinta Marto, quando a pandemia da febre espanhola fazia milhões de vítimas", referiu.

Mas logo foi preciso centrar as atenções nos dias de hoje. "A atual pandemia tem disseminado sofrimento: condicionou sociabilidades, isolou-nos uns dos outros, acentuou solidões. A crise sanitária ativou outras crises, no campo social, na precarização do trabalho, no agravamento das dificuldades económicas, na pobreza que cresce e não só entre os segmentos considerados mais frágeis, na debilitação do campo escolar, na diminuição de presenças nas comunidades cristãs e na incerteza que pesa sobre a vida de tantos", frisou, pedindo à Virgem de Fátima para iluminar "a dor de todos, sem fronteiras nem distinções" e a "dor de próximos e distantes, de crentes e não-crentes, como se fosse uma só".

"Que escutes, no silêncio desta noite, a fadiga e o esforço, a solidão e as lágrimas, o cansaço e as necessidades de todos, que veles pela grande família humana ferida e nos mobilizes a todos para o desafio urgente de consolar, de cuidar e de reconstruir",  continuou.

No seguimento da sua intervenção em jeito de oração, o cardeal pediu também para que a atual crise "não se torne numa crise da esperança".

"Precisamos da esperança para olhar mais para diante, para ganhar confiança e repartir. Precisamos da esperança para transformar os obstáculos em caminhos e os caminhos em novas oportunidades. Precisamos da esperança para nos unirmos mais, para construirmos sociedades eticamente qualificadas, sociedades que concretizem a justiça social e a fraternidade entre todos os homens", disse.

Assinalando que a presença em Fátima não é apenas para pedir, mas também para agradecer, o cardeal-poeta salientou que, se cada pessoa "tem uma história de sofrimento para contar, tem também histórias de amor, de reencontro, de inter-ajuda e solidariedade e essas histórias constituem um património que não podemos esquecer".

E esses momentos fazem-se a cada dia, na realidade de cada um, em cada dimensão da vida humana. "A família foi colocada à prova, mas para muitos foi uma oportunidade para redescobrir o que significa estar em família e o tesouro humano insubstituível que a família representa. E não esquecemos o testemunho de quantos colocaram o bem dos outros acima do seu próprio bem. A generosidade de tantos que deram um passo em frente quando era mais cómodo permanecer no seu lugar. É verdade: de quantas histórias de amor cada um de nós tem sido testemunha!", apontou.

Reconhecendo que "estes meses foram difíceis, mas não foram vãos", D. José Tolentino Mendonça referiu que "ao nosso coração acorreram, por exemplo, tantas perguntas".

"E perguntas não banais, que se podem tornar um trampolim de futuro. Perguntas sobre o sentido da vida, sobre o que é afinal o mais importante a salvaguardar, sobre mudanças de rumo a introduzir nas nossas vidas e nas nossas sociedades. A turbulência da pandemia também nos desinstalou e nos ajudou a identificar o essencial com mais clareza", frisou, confiando a Nossa Senhora "o caminho histórico e interior que estamos a percorrer" e pedindo "que esta dor sirva para alguma coisa, que todo este sofrimento nos torne melhores: mais espirituais, mais humanos e mais fraternos".

Recorrendo ao exemplo de Maria, o cardeal lembrou que a mãe de Jesus também teve um "caminho, cheio de estorvos, batido por tempestades e dores", comparável aos dias que hoje se vivem.

Apesar da pandemia, milhares de peregrinos rumaram a Fátima, mostrando esta esperança de que falou depois o cardeal. E se no início da noite o recinto era luz, no fim muito menos eram as velas que assinalavam as presenças no recinto, mas ainda em número considerável. Maior foi o silêncio com que a imagem de Nossa Senhora regressou à Capelinha das Aparições no final da celebração, em jeito de oração sem palavras por parte de todos aqueles que conseguiram cumprir o propósito que os trouxe à Cova da Iria.

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