Ontem, Bruno Lorvão, franco-português, residente em França há 20 anos, tinha escrito sobre a relação dos portugueses com França e com os franceses, ainda a propósito da vitória nacional no Euro 2016 (texto a publicar em breve, no SAPO24). À noite viajou com a família para Lyon e, como tantos outros, assistiu ao fogo de artíficio do 14 de Julho nessa cidade francesa. Em família. Hoje, menos de 24 horas depois do ataque em Nice, recorda o que passou pela cabeça ao grupo onde estava, em Lyon: “ Todos os adultos que ali estavam, no meio da multidão, pensaram que um ataque podia surgir a qualquer momento”.

Desde os ataques de 13 de novembro, em Paris, que “está na mente de cada um de nós que pode voltar a acontecer em qualquer lugar, em qualquer momento”, relata o realizador, casado com uma francesa e pai de duas crianças pequenas, de cinco e oito anos. E é precisamente com os filhos que Bruno sente mais dificuldade em lidar com uma situação de alerta que se tornou permanente. “Na escola, tudo é aumentado. É preciso antecipar perguntas. Um mês depois dos ataques em Paris, ainda havia crianças com problemas de sono por causa do que tinha acontecido”.

Na sua vida quotidiana, o realizador, que vive em Paris, assume que mudou pouco ou nada. “Não vamos mudar a nossa maneira de viver, mas sempre com a ideia que as coisas podem correr mal, que pode acontecer um atentado”. Aliás, sublinha, as autoridades avisaram que seria assim: em novembro, “foi dito que o último [atentado] não seria o último”. 

No que respeita às relações entre franceses e franco-magrebinos, Bruno Lorvão considera que há atitudes diferenciadas na sociedade. “Por um lado, há um sentimento de racismo a aumentar, mas por outro há muitas pessoas a lutar contra a simplificação da história para que o pior não aconteça”. Dá o seu exemplo, com amigos magrebinos, “fartos de injustiça”, e amigos judeus, “que já só querem vingança”. “Uns estão a perder a paciência e outros estão a perder a cabeça” e é preciso encontrar respostas. Na sua opinião, mais do que religião, é na crise económica, no desemprego, nos problemas de integração social que reside a verdadeira origem dos extremismos que acabam por ser quase um “pretexto” para tudo o resto.

A responsabilidade deste “risco real” de extremismo de parte a parte é, na opinião de Bruno Lorvão, em grande medida, dos partidos políticos franceses que não oferecem nenhuma alternativa suportada em valores humanistas. “Não é só a Frente Nacional a ter um discurso de força e racista. A única pessoa que satisfaz quem não quer extremismos é mesmo o Papa”. Ainda assim, considera, não se pode dizer que haja um sentimento geral de vingança e de racismo, “ pelo contrário, onde há mais racismo é onde há menos magrebinos ou árabes”.

O dia de hoje é de comoção e de luto e, um pouco por todo o país, os franceses recolhem-se e prestam a sua homenagem às vítimas do atentado de Nice, um acto que pode ter sido obra de um ‘lobo solitário’. “Hoje choramos as nossas crianças e é nisso que pensamos. Mas no mesmo dia em que acontecia o atentado em Nice, François Hollande recebia a Arábia Saudita, a quem vendemos armas e mísseis que sabemos que vão ser usados para matar outras crianças, como no Iémen. É isto que temos de interromper para que o pior não aconteça”.

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