Questionado pela Lusa se o país está a tirar as lições certas da tragédia de Pedrógão, para que não se repita, responde João Joanaz de Melo, do Grupo de Estudos de Ordenamento do Território e Ambiente (GEOTA), que ainda não se entendeu se se tirou alguma lição e lamentou que “no ordenamento florestal se tenha feito muito pouco”.

“O mais importante é o ordenamento florestal, e o clima e o despovoamento do interior tende a agravar a situação. O resto são questões conjunturais”, diz o dirigente à Lusa, salientando que é preciso perceber o que não funcionou no dispositivo de combate ao incêndio, ainda que não esteja em causa a boa vontade e abnegação dos bombeiros.

Não é, salienta, para atribuir culpas, é antes para aprender com os erros, porque o que aconteceu em Pedrógão não foi nada que não fosse previsível acontecer um dia.

E depois há uma série de questões fundamentais para resolver, como a de o Estado ter perdido capacidade no setor florestal. “Há matérias na área da gestão florestal que precisam da capacidade do Estado e dos privados. O Estado desequipou-se, alienou pessoas, conhecimento, infraestruturas”, diz Joanaz de Melo, lembrando a existência, no passado, de guardas florestais e guarda-rios, de haver muitos mais vigilantes da natureza do que há hoje.

Joanaz de Melo lança outras sugestões, todas elas, entende, vitais. Faz sentido, por exemplo, criar zonas de proteção à volta das localidades e das estradas, porque não se para um incêndio no meio da mata mas nos corta-fogos.

E resume-as assim: “O grande problema é a completa ausência de uma estratégia de ordenamento do território. Falta uma estratégia e faltam meios para por essa estratégia em prática. É essencial uma discussão de fundo sobre o que queremos para o país, e isso não vemos acontecer”.

Há uma semana o GEOTA apresentou uma posição sobre a política florestal e disse que as leis que foram discutidas e aprovadas na quarta-feira no parlamento tocam superficialmente o problema do ordenamento e ignoram o despovoamento do mundo rural e as alterações climáticas.

O grupo propõe uma floresta com espécies autóctones, melhor coesão territorial, promoção do associativismo florestal, ou então melhorar o cadastro, fazer cumprir a lei e rever a instalação do eucalipto.

E se não se resolve “de um dia par o outro os problemas acumulados por décadas de negligência”, a verdade é que “as soluções essenciais são conhecidas”. “Haja coragem política para assumir o caminho e bom senso para ouvir quem tem de ser ouvido”.

Joanaz de Melo salienta o desleixo a que se votou a floresta desde as últimas quatro décadas e frisa também a necessidade de se voltar a plantar outras espécies que não pinheiros e eucaliptos, e que se acabem as manchas contínuas de floresta, que tornam a prevenção e o combate dos fogos muito mais difícil.

E volta à pergunta inicial para dizer que com calamidades como a de Pedrógão não há “uma medida que funcione como uma varinha mágica”.

O que é preciso é uma discussão sobre a floresta, que envolva toda a sociedade. Uma discussão que, diz Joanaz, pode durar um ano. Mas tem de começar agora.

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