Cenários de guerra e de emergência humanitária, como o que se vive na Ucrânia, criam condições para que as gestações não planeadas “aumentem ainda mais”, adverte a organização num relatório sobre o Estado da População Mundial, intitulado “Vendo o Invisível”.

“Quase metade de todas as gestações, num total de 121 milhões por ano, são indesejadas”, referem os autores do estudo, sublinhando que para as mulheres e meninas envolvidas, o facto que mais altera a vida — engravidar ou não — “não é de todo uma opção”.

Mais de 60% das gestações indesejadas terminam em aborto, estimando-se que 45% destes atos sejam inseguros e causem 5% a 13% das mortes maternas. Os abortos inseguros provocaram a hospitalização de sete milhões de mulheres por ano, em todo o mundo.

Nos países em desenvolvimento, os custos de tratamento estão calculados a 553 milhões de dólares, por ano (497,15 milhões de euros).

Os dados têm, para a agência da ONU, “um grande impacto” na capacidade global para alcançar os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável.

No relatório de 2022, os peritos alertam para a necessidade de agir perante uma “crise negligenciada”.

“Espera-se que a guerra na Ucrânia e outros conflitos e crises no mundo aumentem as gravidezes não planeadas, à medida que se interrompe o acesso a contraceção e aumenta a violência sexual”, lê-se no documento.

Para a diretora executiva do Fundo, Natália Kanem, o “número impressionante” de gravidezes não planeadas representa “um fracasso global” na garantia dos direitos humanos básicos das mulheres e meninas.

De acordo com os dados recolhidos, 257 milhões de mulheres que querem evitar uma gravidez não usam métodos contracetivos modernos e seguros e quase um quarto não tem condições para recusar sexo.

Em 47 países, cerca de 40% das mulheres sexualmente ativas não usa qualquer método contracetivo para evitar a gravidez.

Vários outros fatores contribuem para a gravidez não desejada: falta de cuidados de saúde e de informação sobre saúde sexual e reprodutiva, opções contracetivas desadequadas ao corpo das mulheres e às circunstâncias, normas prejudiciais e estigma contra as mulheres que controlam os seus corpos e fertilidade, violência sexual e reprodução forçada, atitudes de julgamento e vergonha nos serviços de saúde, pobreza e estagnação económica, bem como desigualdade de género.

“Todos estes fatores refletem a pressão que as sociedades exercem sobre as mulheres e meninas para que se tornem mães”, adverte a organização.

O Fundo cita estudos que indicam que mais de 20% das mulheres e meninas refugiadas enfrentarão violência sexual.

No Afeganistão, por exemplo, a rutura dos sistemas de saúde e a desigualdade de género levarão a cerca de 4,8 milhões de gestações não planeadas até 2025, o que “compromete a estabilidade, a paz e a recuperação geral do país”, segundo as estimativas apresentadas.

No primeiro ano da pandemia de covid-19, a interrupção no fornecimento de serviços e contracetivos levou até 1,4 milhões de gravidezes não planeadas.

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