A posição do International History Students and Historians Group (IHSHG), que conta com aproximadamente 1.400 membros, vem expressa uma carta a que Lusa teve hoje acesso e que foi enviada à Câmara do Porto e à Direção Regional de Cultura do Norte (DRCN), cujo parecer esteve na base da autorização da Direção-Geral do Património Cultural (DGPC) à alteração do projeto de requalificação do Mercado do Bolhão, cujo método construtivo implica a demolição das galerias.

Na missiva, o grupo de historiadores manifesta o seu desagrado pela decisão de demolir as galerias do Mercado do Bolhão, dizendo-se "incrédulo" pelo facto de a Câmara ter autorizado "esta destruição de património".

"Tendo em conta que a Lei 107/2001 de 8 de setembro define claramente o objetivo, o conceito e o âmbito do património, impedindo no artigo 49.º, pontos 1,2,3 e 4 a demolição a não ser que esteja em causa a preservação do ‘bem maior’ (que não claramente o caso). Parece-nos inconcebível que tenham permito tal negligência", defende na carta o presidente do IHSHG, João Viegas.

Aquele responsável salienta que em causa está património nacional "que irá ser erradicado para sempre, ‘roubando' assim um pedaço de história a todos os portugueses, especificamente aos seus constituintes".

O Mercado do Bolhão foi classificado como Monumento de Interesse Público em 2013, tendo a sua empreitada de restauro e modernização sido "consignada oficialmente" a 15 de maio de 2018.

Embora a autarquia alegue que as galerias se encontram em elevado estado de degradação, o grupo sublinha que "já houve arquitetos a referir que a laje de betão armado se encontra em perfeita condição de suporte, permitindo assim uma recuperação em vez da sua destruição total".

Na missiva que foi ainda enviada aos partidos com assento na Assembleia Municipal do Porto e ao presidente da Junta de Paranhos, o grupo composto por estudantes, mestres, doutores, arqueólogos e professores de história de todo o mundo questiona quem foi o arquiteto que avaliou o "elevado estado de degradação dos elementos metálicos e das lajes de betão" e solicita o estudo que foi feito.

O IHSHG pergunta ainda se foi pedido orçamento para a recuperação das galerias e qual o valor e a diferença em relação à sua destruição.

Entre outros esclarecimentos, questionam ainda por que, tendo em conta a lei do património, "continua a Câmara a insistir na obliteração de um pedaço da história do Porto" e se existe a "possibilidade/vontade" de modificar a sua decisão e ouvir diferentes pareceres.

No dia 18, a DGPC revelou ter dado luz verde à alteração do projeto de requalificação do Mercado do Bolhão, cujo método construtivo implica a demolição das galerias.

A entidade que tutela o património justificou a decisão com o elevado estado de degradação dos elementos metálicos e das lajes de betão.

Em reação a esta decisão, o arquiteto Joaquim Massena, autor de um projeto de requalificação daquele mercado, criticou a "triste história" do Bolhão, considerando que só é comparável à demolição do "verdadeiro" Palácio de Cristal, e criticou a demolição das galerias cuja laje de betão armado, para além de estar "em perfeita condição de suporte, faz parte da história do betão armado e da prefabricação em Portugal".

No dia 20 de dezembro de 2019, a Câmara do Porto anunciou que as obras de requalificação do Mercado do Bolhão, cujo término estava previsto para maio deste ano, iriam ser prolongadas por mais um ano, devido à necessidade de alterar "o método construtivo", que implicaria a demolição e reconstrução total das galerias superiores, cujo estado de degradação, afirmava a autarquia, "era, afinal bastante mais grave do que era possível apurar a partir dos estudos preliminares".

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