Reportagem de João Gaspar (Texto) e Luís Forra (Fotos), da agência Lusa 

Cinco famílias da área da Grande Lisboa foram-se juntando numa encosta da Serra de Monchique nos últimos anos à procura de uma vida em comunhão com a natureza, num projeto que juntava turismo, arte, educação, permacultura e osteopatia.

A 5 de agosto, o incêndio subiu aquele monte e reduziu praticamente a cinzas tudo o que tinham construído — ‘bungalows’, sistema de rega, uma cúpula geodésica, seis caravanas, teepees (estruturas à imagem das tendas dos índios da América do Norte) a horta, entre outras coisas.

“Quando o vimos a descer a montanha em frente decidimos que era a altura de juntar as coisas e sair”, conta à agência Lusa Bruno Valente, que se tinha mudado de Sintra com a sua mulher e filhas para aquele lugar para uma vida “em contacto com a natureza”.

Sem possibilidade de salvarem os seus haveres num local remoto e completamente rodeado de floresta, sair seria a única opção.

Quando regressaram, viram destruído todo o projeto que tinham construído e que dava agora passos mais firmes.

“É um misto de sentimentos: tristeza, muita raiva, muita frustração – o oposto ao que estávamos a sentir cá”, nota Bruno, que segura nuns canos para reabilitar o sistema de água daquele local.

Por estes dias, Bruno e a família dormem na autocaravana que escapou ao fogo. Duas outras famílias também permanecem no local, dormindo em tendas, enquanto já arregaçam as mangas para ir refazendo o que perderam.

É o caso de Francisco do Carmo, de 33 anos, que se mudou para aquela encosta da Serra de Monchique com a namorada, estando a dormir numa tenda.

“Somos várias famílias que, em conjunto, estávamos a trabalhar na floresta, com a natureza, a ver se púnhamos isto novamente apenas com plantas nativas. Estávamos a remover espécies invasoras como eucaliptos e acácias. Já tínhamos tirado uns quantos, mas havia muitos e estávamos rodeados deles”, sublinha Francisco, explicando que depois do amigo Nuno da Cunha ter arrancado com o projeto há cinco anos, mais famílias se foram juntando comprando terrenos à volta.

créditos: LUÍS FORRA/LUSA

Segundo Bruno Valente, que se mudou para Monchique há dois anos, a ideia era encontrar “um estilo de vida em contacto com a natureza, sem ser uma comunidade fechada, criando uma ponte entre este espaço e as pessoas na cidade”.

Apesar de lhes ter sido oferecida a opção de alojamento temporário, optaram por ir dormir para o meio das cinzas, já prontos para reconstruir tudo.

“O que é que vamos fazer? Não vamos enfiar a cabeça debaixo da terra”, frisa Bruno, que deixou “tudo para trás” para ir para Monchique.

Depois de uma semana a serem uma espécie de “segunda linha de bombeiros” a ajudarem outros habitantes, já se começa a trabalhar para recuperar as infraestruturas e avançam-se com alguns passos, nem que sejam simbólicos.

“Fomos buscar água a um centro budista aqui perto que se salvou e andámos a regar, de forma simbólica, grande parte das árvores com essa água, que tem uma energia especial, para dar força e acreditar que vai haver regeneração. E vai”, diz.

De mãos e cara enegrecidas pelas cinzas, Bruno não desanima, assim como as restantes famílias: “É uma pancada forte, mas estamos cá. Salvámos as nossas vidas e o fogo não conseguiu levar as pedras e a terra e nós, felizmente, somos novos e temos força e energia para reconstruir”.

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