“O humor casa com a política”. Quem o afirma é Hugo van der Ding, conhecido humorista. Por uma simples razão: “Tudo o que é sério, é risível”, dispara.

Cartoonista autor dos projetos humorísticos “Criada Malcriada” e “Cavaca para Presidenta”, vai estar no Festival Política, um evento que tenta responder à questão “Para onde vai a Europa”, em Braga, onde subirá ao palco no próximo dia 10, no GNRation. Antes passou por Lisboa e conversou com o SAPO24 sobre a Europa e outros assuntos sérios, numa lição de história com humor à mistura.

Numa viagem sobre várias personagens que ajudaram a escrever a construção do continente europeu discorreu sobre a ideia de uma Europa que começa nos tempos de Júlio César, passa por Carlos Magno, pela dinastia Habsburgo, Carlos V, assenta no Sacro Império Romano Germânico, Napoleão, Hitler até chegar Jean Monet, momento, a partir do qual, se fala de paz. O denominador comum está no eixo franco-alemão.

Revisita a história de tentativas de união política e religiosa, de guerras e de alianças matrimoniais que caracterizaram o sonho de uma Europa unida. “A Europa foi construída à base da pancada ou na cama. A parte económica é mais recente”, atira Hugo van der Ding, nome artístico deste português que viveu uns anos fora de Portugal.

Recua e recorda Maximiliano, Dinastia dos Habsburgo, que iniciou o processo de alianças matrimoniais que tornaram a Áustria numa potência europeia. As espadas não são a arma mais forte desta expansão territorial, como bem explica a conhecida frase: “Bella gerant alii, tu felix Austria nube. Nam quae Mars aliis, dat tibi diva Venus (que os outros façam a guerra, tu, feliz Áustria, casas. Porque os reinos que Marte dá aos outros, é Vénus que tos assegura).

Com Carlos V (que casou com a Infanta Isabel de Portugal), continua a “política é na cama que vamos lá”, acrescenta. A história é testemunha fiel que comprova a frase e o império de Carlos V resultou de uma soma de várias unidades políticas geradas nos finais da Idade Média, num misto de guerra e de uniões matrimoniais dinásticas.

Napoleão representava o “sonho” da França, mas “lixou-se” na Rússia. O mesmo aconteceu ao Hitler, “que foi um monstro”, exclama.

“A parte militar correu mal, a Europa ficou destruída. Percebeu-se que com a evolução das tecnologias da guerra iria morrer toda a gente. As guerras do Carlos V não se comparam com a 2ª Guerra Mundial”, nota Van der Ding.

“Nunca nos sentimos europeus”

Inverte o sentido da conversa, faz uma pausa nas guerras e casamentos europeus, e fala de Portugal. Considera que “há um distanciamento em relação à Europa, até de informação”. E explica: “No liceu havia a história de Portugal e a história da Europa. Não fazíamos parte, era o estrangeiro”, recorda. “Portugal e a Inglaterra, também. Tem a ver com a própria geografia, não estamos no meio da Europa. Nunca nos sentimos europeus”, continua.

Abre uma exceção. Olha para os millennials e reconhece que estes, que se consideram europeus, vivem o espaço europeu como “a sua casa”, por onde circulam sem apresentar passaporte “em lado nenhum”, exclama. O outro lado da moeda é que “estão mais afastados da política. A Europa como espaço político não lhes interessa tanto. Assim como a política em geral. A Europa é uma unidade cultural”, assegura.

Hugo van der Ding regressa ao diálogo das tentativas de unificação europeia, que “não surge pela primeira vez depois de 1950 e com a nossa entrada na CEE nos anos 80 do século passado. Não. A Europa tem uma história de unificação e é importante os Estados entenderem isso. Qualquer francês ou alemão tem a noção desse contínuo histórico. E conhece a história das tentativas de união”, assegura.

“Foi-nos vendida a ideia que a Europa são unidades estanques, 50 países com as suas línguas e culturas. É mentira. A Europa fracionada é muito recente. Todos estes territórios já fizeram parte de outros espaços muitos maiores. Quase sempre dominados pela França ou Alemanha”, concretiza.

A Inglaterra, “ora junta-se aliada à França, ora entra à pancada com a França”, sustenta. E acrescenta um dado curioso: “É engraçado este exercício. Sempre que a França e a Alemanha se juntam, a Inglaterra sai fora e diz que não quer ter nada a ver com isto. Estamos a assistir a isso mesmo”, explica.

“Os líderes políticos têm uma preparação histórica”, reconhece. Uma afirmação que surge a propósito de cidades umbilicalmente ligadas à construção europeia. “A escolha de Estrasburgo (cidade que hoje alberga o Parlamento Europeu e que ao longo da história ora foi francesa, ora prussiana e alemã), onde nasce a divisão entre a Alemanha e a França e onde os netos de Carlos Magno (rei dos Francos e coroado imperador do Sacro Império Romano) assinam o tratado que cria a França e a Alemanha (Juramentos de Estrasburgo, que dá origem às duas línguas), e de Bruxelas, sede das instituições europeias – Conselho, Parlamento e Comissão Europeia -, está ligada a Carlos V (Imperador do Sacro Império Romano Germânico que abdica do trono espanhol na cidade) e ao Tratado de Roma por causa do sonho do Império Romano”, descreve.

Os populismos revelam falta de conhecimento histórico

Van der Ring dá um salto no tempo. Refere que no presente as migrações são assuntos “complexos” e que “não é nada fácil julgar”. Cita a Alemanha, país que “acolheu mais refugiados” porque “precisa”, atesta. “É uma visão um pouco cínica, mas necessita de mão-de-obra e de quem pague a sua segurança social”, refere.

Defende que o mundo devia ser “sem fronteiras”. Ter o “cunho de ilegal” é uma “monstruosidade”. Não compreende porque não se pode escolher “o sítio onde queremos viver”, mas deixa uma ressalva: as migrações podem trazer “problemas para os locais que os acolhem”.

A conversa termina num tema que tem dominado a agenda mundial: populismos. “Revela falta de conhecimento histórico do que aconteceu na Europa há pouco tempo”, atesta. Dá como exemplo o que se passa no Brasil e cita um artigo que leu, embora não se recorde do autor. “O populismo está a atrair gente muito nova. Nos últimos anos o establishment foi esquerda e centro. Ser revolucionário hoje no Brasil é ser de extrema-direita. É assustador, mas é isto”, finaliza a conversa de 15 minutos depois de 1h30 em palco.

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