O relatório "Incêndios Rurais em Portugal: até quando deixaremos a paisagem arder?", resulta de uma parceria entre a organização de defesa do ambiente WWF Mediterrâneo em Portugal e o Centro de Ecologia Aplicada prof. Baeta Neves do Instituto Superior de Agronomia (ISA).

São recordados vários argumentos sempre apresentados quando sucedem fogos como aqueles que ocorreram este ano, como em junho e em outubro, causando mais de 100 mortos e uma área ardida de cerca de 440 mil hectares e prejuízos estimados superiores a 200 milhões de euros.

Uma das grandes diferenças apontadas entre Portugal e outros países mediterrânicos, também com problemas de incêndios rurais, é "a ausência de uma estrutura profissional e especializada que se dedique à prevenção e ao combate".

"A maior causa de ignições em Portugal é o comportamento negligente", refere o relatório.

O valor dos espaços florestais, salienta, "é insuficientemente reconhecido pela sociedade, havendo trabalho a fazer nesta área", de sensibilização e informação.

Além dos produtos, como a madeira ou a resina, as florestas fornecem serviços que, em alguns países já começaram a ser remunerados, como o sequestro e armazenamento de carbono, o controlo da erosão do solo ou a regulação do ciclo da água.

A WWF apresenta um conjunto de recomendações como incentivar a gestão florestal responsável e a certificação florestal, "criando e ampliando apoios concretos", nomeadamente através do fundo florestal permanente ou do fundo ambiental, e promover o associativismo florestal, a adoção de planos de gestão comuns, assim como a formação e financiamento das Zonas de Intervenção Florestal (ZIF).

Para os autores do relatório, o funcionamento das ZIF, associações de produtores florestais com planos comuns de gestão, "tem estado longe do ideal e necessita de ser revisto e melhorado", já que existem cerca de 500 mil proprietários, sendo frequentes as propriedades com 0,5 hectares ou menos a norte do Tejo, o que dificulta a sustentabilidade e a coordenação.

O envolvimento dos agentes locais nos processos de decisão e apoio à gestão da floresta, sendo "essencial repensar a reativação da extensão rural e florestal, formando técnicos nesta área" e concluir o cadastro florestal também são defendidos pela organização internacional.

Os ambientalistas apontam ainda a necessidade de criar mecanismos de "efetiva remuneração de serviços do ecossistema, no mercado voluntário e no regulado" e plataformas de representação de partes interessadas, incentivando sinergias na gestão florestal.

"Os incêndios florestais são um sintoma cada vez mais agudo de uma doença que se propaga há décadas no mundo rural: o despovoamento e o abandono rural e a consequente ausência de gestão e acumulação de biomassa combustível em muitas áreas do país", a que acresce o problema das alterações climáticas, resume o relatório.

A ausência de gestão florestal adequada e o desordenamento do território e do meio rural criaram uma "paisagem de elevado risco", realça, alertando que "os incêndios rurais deixaram de ser um problema ambiental para se tornarem uma emergência civil que obriga a uma abordagem integrada da prevenção e do combate" em estruturas profissionalizadas, como já tem sido defendido.

Por isso, "o desafio é de grande complexidade e exige abordagens e perspetivas múltiplas", como políticas de desenvolvimento rural que atraiam pessoas para o interior e incentivem a utilização sustentável do território, criando condições de rentabilidade, com economias locais que se auto-sustentem e contribuam para a criação de riqueza e fixação da população.

Os autores recordam ainda a necessidade de diversificar as espécies florestais e incluir folhosas, como carvalhos, e apontam que os incentivos devem ser compatíveis com os seus ciclos de exploração mais longos quando comparáveis com os do pinheiro-bravo ou do eucalipto.

Entre 1996 e 2014, 50,2% da área ardida foi de matos e pastagens, com o pinheiro bravo a representar 15,4% do total e o eucalipto 11,4% e desde 1980 já arderam mais de quatro milhões de hectares.

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