De acordo com notícia da CNN, alguns dos apoiantes de Trump que, no dia 6 de janeiro, invadiram o Capitólio e que sugeriam que as eleições tinham sido “roubadas”, não votaram.

Um desses invasores é Donovan Crowl, de 50 anos, um ex-fuzileiro naval que avançou para uma das entradas do Capitólio em trajes paramilitares. É membro de uma organização que se considera uma “milícia” no seu estado, Ohio, e que é afiliada ao grupo extremista "The Oath Keepers".

Apesar de ser pró-Trump, uma funcionária eleitoral de Ohio confirmou à CNN que Crowl se registou em 2013, mas "nunca votou nem respondeu a nenhuma das confirmações para o manter registado", pelo que foi retirado dos cadernos eleitorais no final de 2020. Um secretário de Illinois, onde Crowl foi registado no passado, também confirmou que ele não era eleitor ativo em nenhuma secção do estado.

Crowl foi acusado por um júri federal de destruição de propriedade do governo e de conspiração por alegadamente coordenar o ataque com outros invasores. Atualmente, encontra-se detido, depois de um juiz afirmar que a mera “sugestão de libertá-lo para viver numa residência com nove armas de fogo não é válida”. Numa entrevista citada pelo governo, Crowl alegou ter intenções pacíficas e que até tinha protegido a polícia.

Pelo menos oito das pessoas que agora enfrentam acusações criminais pelo envolvimento na invasão ao Capitólio não votaram nas eleições presidenciais de novembro de 2020, segundo a análise dos registos de votação dos estados onde os manifestantes foram detidos que exibem registos públicos.

Os manifestantes vieram de estados de todo o país e tinham idades compreendidas entre 21 e 65 anos.

Para identificar quem votou, a CNN analisou os registos de voto de mais de 80 dos detidos iniciais. A maioria votou nas eleições presidenciais, e, embora muitos fossem republicanos registados, alguns foram registados como democratas nas jurisdições que forneciam informações sobre preferências partidárias. O acesso público aos registos do histórico eleitoral varia de acordo com o estado, e em alguns casos a emissora não conseguiu verificar os respetivos registos.

Jessica Stern, uma professora da Universidade de Boston que durante cerca de 30 anos investigou extremistas, afirmou que, embora não tenha falado com os indivíduos envolvidos na invasão, a partir das suas entrevistas com outros extremistas violentos, acredita que vários fatores poderiam ter estado na origem.

Poderiam, por exemplo, ter acreditado que o sistema era uma fraude, como afirma o movimento "Parem o Roubo", e nesse caso não faria sentido votar. Poderiam ser mais atraídos pela encenação, violência ou pela atenção de que seriam alvo num ato como a invasão do Capitólio, do que necessariamente pelo seu “suposto objetivo” – reverter os resultados eleitorais.

A professora especulou ainda que o motivo poderia ser uma combinação destas razões, acrescentando que sentimentos como raiva e humilhação atraem frequentemente as pessoas para grupos extremistas e para a violência.

Na sua opinião, para alguém votar "teria de acreditar mais na ética do voto do que pensar que ser uma perda de tempo (...) e vê-lo como um imperativo moral. A pessoa tem de acreditar que o sistema funciona para todos, que é para o bem do país".

Arie Perliger, professor na Universidade de Massachusetts Lowell, especializado em terrorismo doméstico de direita, disse que não ficou surpreendido por descobrir que alguns dos acusados não tinham votado, particularmente membros de “milícias” como Crowl, uma vez que a filiação nas milícias está frequentemente ligada a uma desconfiança em relação ao governo. Manifestou, no entanto, preocupação porque tal poderá refletir uma erosão crescente da fé no processo democrático norte-americano, algo que considera um "risco sobre o qual precisamos de pensar".

"Quando vemos que grupos ideológicos significativos deixam de participar no processo democrático, isso pode significar que estão à procura de outras formas de participação, que podem ser mais violentas", afirmou Perliger, que supervisiona uma base de dados de atos de violência de extrema-direita nos Estados Unidos da América.

"Deveríamos preocupar-nos com um número crescente de grupos ideológicos a reduzir o seu envolvimento na política eleitoral", realçou.

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