Na madrugada de 5 de novembro uma jovem de 22 anos abandonou um bebé no ecoponto atrás da discoteca Lux-Frágil, em Lisboa. Mais de 15 horas depois a criança teria sido encontrada por um sem-abrigo, Manuel Xavier, que depressa se tornou um herói. Falou com jornalistas, foi a programas de televisão e Marcelo Rebelo de Sousa foi ao seu encontro em Santa Apolónia.

Só que esta não é a história que contam outros sem-abrigo e as filmagens amadoras do momento do salvamento.

A primeira suspeita de que algo não estava bem contado surgiu dia 14 de novembro, quando um homem, que não se quis identificar, falou a TVI sobre dois sem-abrigo que lhe tinham falado de uma criança e que até tinham ido à polícia alertar para o caso, mas aos quais ninguém deu crédito.

Já no dia seguinte, a SIC chegou à fala com João Paulo e Rui Machado, cuja versão é corroborada por uma filmagem.

Conta João Paulo que estava a passear pelo local quando ouviu um choro, mas como tinha tomado metadona "se calhar estava meio baralhado". Ainda assim foi a correr chamar o amigo Rui Machado. Apesar de pensar que o João pudesse estar a alucinar, acompanhou-o, espreitaram nos contentores e nada viram. Ainda assim decidiram ir sinalizar a situação à esquadra de Santa Apolónia.

À porta estavam três agentes, João contou que tinha ouvido um choro de criança "mas não sabia se era uma criança mesmo ou um boneco". A ideia de que poderia ser um boneco fez as autoridades desconsiderarem o caso.

Os sem-abrigo foram ambos à sua vida, mas pelas 16h00 João Paulo decidiu voltar ao local e aí, conta, ouviu mesmo um choro, e foi a correr chamar Rui Machado. Quando estavam a caminho dos contentores, os dois cruzaram-se com Manuel Xavier e pediram que os acompanhasse.

As imagens mostram Manuel Xavier atrás dos contentores enquanto os outros dois homens tiram a criança de dentro do ecoponto. Estava também ali um outro homem e uma mulher, funcionária da discoteca.

Rui embrulhou a criança numas calças que tinha apanhado e João sugeriu que esta fosse entregue à senhora presente: "Via-se que ele precisava de carinho de mãe, de mulher", diz.

Uma vez levada para dentro da discoteca, a criança foi aí assistida pelo INEM.

"Para estarem a dar ao Xavier todo este plano, toda esta imagem, teriam de dar também à senhora que recebeu o bebé, teriam de dar ao senhor que telefonou para o INEM, principalmente teriam de dar aqui ao João, que ele teve muitas razões para desistir da história", diz Rui, sem falar em si próprio, que foi quem na prática tirou a criança do ecoponto. "Fomos todos, toda a gente que aqui esteve. Foi Deus que nos pôs aqui", conclui.

Confrontado com o facto de ter agradecido apenas a um dois heróis desta história, naquele que pode ser considerado um ato de precipitação de Marcelo Rebelo de Sousa porque não tinha ainda todos os factos na sua posse, o Presidente da República respondeu por escrito à SIC dizendo que "se em vez de um foram vários os que colaboraram nessa salvação, tanto melhor". Acrescentou ainda que terá "muito gosto em encontrá-los e felicitá-los a todos em conjunto em Belém".

No dia seguinte, já em declarações à televisão, reiterou esta ideia e acrescentou: "Pelos vistos houve várias fases do processo. Não foi um só que encontrou e que tirou, estão todos de parabéns e a todos deve ser naturalmente testemunhada a nossa gratidão".

Ao Público, Felisbela Lopes, professora de Jornalismo e investigadora de Ciências da Comunicação, alertou para o imediatismo com que se noticiam casos destes, que conduzem a conclusões precipitadas. “Aquilo que não se sabe sobre este caso pode ser imenso. É muito mais profundo o que se desconhece do que aquilo que o jornalismo alcança”, disse.  Também contactado pelo diário, Gustavo Cardoso, professor de Ciência da Comunicação do ISCTE, reforça esta ideia alertando que “imediatismo tem um problema quando é feito acriticamente”.

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