“O que é preciso é que a gente viva com dignidade e deixe uma memória simpática do que fez”, afirmou Mário Soares numa entrevista ao DN, em 2004, tinha então 80 anos. Quando era miúdo, o pai dizia-lhe que tinha jeito para duas coisas: falar e escrever. Podia ter sido escritor ou jornalista. Foi primeiro-ministro três vezes, presidente da República dez anos. Não se considerava melhor do que os outros, mas sempre soube jogar. O resto, acredita, foram coincidências do destino, acasos da história: estava no lugar certo à hora certa.

Mário Soares nasceu em Lisboa, a 7 de Dezembro de 1924. Até à adolescência foi sempre tratado como um filho frágil, asmático, prestes a adoecer e, por isso, alvo de todos os cuidados. Por isso e, talvez, por ser o filho mais novo e o único em comum do casal João Soares e Elisa Baptista (antes de casarem cada um tinha já um filho, 17 e 18 anos mais velhos).

Dizem que do pai, republicano, católico progressista e pedagogo, terá herdado o lado sonhador. Da mãe, pessoa de espírito prático, professora primária e que chegou a administrar o Colégio Moderno, fundado pelo pai, ficou com o lado mais terra-a-terra. Com o pai, que foi ministro das Colónias e esteve exilado e preso durante o primeiro período da ditadura, conviveu pouco até entrar na adolescência.

O pai costumava pô-lo em cima de um banco para Mário falar: faz lá um discurso, pedia-lhe. Isso deu a Soares confiança em si mesmo. No liceu gostava de brincar aos políticos e queria fazer de primeiro-ministro. Ainda assim, dizia que tinha sido político à força, por não conseguir viver na ditadura, uma incompatibilidade física.

A sua luta contra o Estado Novo começou na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, onde se licenciou em Ciências Histórico-Filosóficas, primeiro, e em Direito, depois. Foi preso treze vezes pela PIDE, a polícia política, e acabou deportado para São Tomé pelo governo de Salazar, até o governo de Marcello lhe ter permitido o exílio em Paris.

Nunca foi um aluno brilhante e, quando lhe perguntavam, considerava-se até medíocre. As notas rondavam o 12 ou 13. Teve como professores Agostinho da Silva e Álvaro Cunhal, Álvaro Salema e Marcello Caetano - que acreditava que Mário Soares poderia vir a leccionar na Faculdade, embora isso nunca lhe tenha passado pela cabeça. Todos influenciaram o seu percurso.

Agostinho da Silva, que tinha sido expulso do ensino e não podia dar aulas, foi seu explicador. A pedido do pai, que via Mário desinteressado de tudo menos do futebol, ensinava-lhe cultura geral, davam grandes passeios, iam ao cinema, falavam de tudo. Agostinho chamava-lhe Danton, como o herói da Revolução Francesa.

Considerava os professores de Direito uma cáfila de reaccionários, como chegou a afirmar. Na Faculdade de Letras foi perdendo anos, enquanto conspirava pelos cantos da casa. Foi militante do Partido Comunista Português entre 1942 e 1950, por influência de Álvaro Cunhal, mas nunca se assumiu como comunista, no sentido de acreditar na doutrina como uma religião. Dizia-se marxista-leninista, primeiro, marxista apenas, no momento seguinte, na altura de Norton de Matos.

Leu os textos do Marx, mas não “O Capital”, não acreditava que alguém lesse “aquilo”, ao fim de umas páginas estava na mesma. Mas leu “Anti-Dühring”, que considerou horrível, “uma xaropada pior do que Goethe”. E fez as leituras clássicas, Staline, Lenine. Até ter aderido a Trotsky, que o impressionou, sobretudo, enquanto escritor.

Gostava da escrita. O pai que lhe tinha dito que tinha jeito para falar e para a escrita, aconselhou-o a seguir Direito. Facilmente podia ter sido escritor ou jornalista. Mas faltava-lhe a alma, não vivia suficientemente atormentado para ser bom escritor, os pensamentos, as palavras, ocorriam-lhe com demasiada fluidez para alguma vez ser bom, dizia. E descrevia-se como “um literato frustrado que caiu na política”.

Escrevia tudo pelo seu punho, com canetas descartáveis. E quando, já na televisão e com um posto importante, foi filmado a assinar documentos de Estado com esferográficas de usar e deitar fora, num instante começou a receber de oferta canetas à séria, de marca, vindas dos mais variados pontos do país.

Casou por procuração, na prisão do Aljube, ainda antes de se formar, no início de 1949. Durante a campanha do general Norton de Matos à Presidência da República (era secretário da Comissão Central), Maria Barroso engravidou e, quando o filho estava para nascer, Soares disse aos pais: “vem para cá a minha mulher, vou casar um dia destes”. O pai ainda lhe perguntou para cá para onde, ao que terá respondido: “para o meu quarto”. Não houve ondas.

Nem Mário Soares, nem Maria Barroso eram católicos – Maria Barroso converteu-se muitos anos depois, quando o filho João Soares se salvou do acidente de aviação. Terá sido o Partido Comunista, mais tarde, a tentar convencer Maria Barroso, que recitava poesia e circulava no meio operário, a separar-se. Sem êxito.

Em 1958, pertenceu ainda à comissão da candidatura do general Humberto Delgado à presidência da República. Como advogado, Mário Soares defendeu em tribunais plenários diversos presos políticos e opositores do regime, entre eles Álvaro Cunhal, acusado de crimes políticos, e a família de Humberto Delgado, na investigação do seu assassinato.

Depois de deixar o PC, porque foi expulso e porque não queria ficar, formou a Acção Socialista Portuguesa, em 64, que daria origem ao Partido Socialista, em 73, que co-fundou e do qual viria a ser o primeiro secretário-geral.

"O PS não sobreviveu a Mário Soares, que foi sempre quem controlou o partido: jornais, financiamentos, políticos, controlava tudo”, afirmou recentemente Miguel Caetano, filho de Marcello Caetano. E provas não faltam. Uma vida delas. Do PS como era, aquele PS, o PS que era Mário Soares.

O advogado Nuno Godinho de Matos, PS e pró-Costa convicto – que votou Cavaco e sempre quis ver Marcelo Rebelo de Sousa na Presidência – foi até final de 2013 braço-direito de Daniel Proença de Carvalho e até Agosto de 2014 administrador não executivo do Banco Espírito Santo, para onde foi a convite de Ricardo Salgado e onde esteve seis anos, bem se lembra..

“Trouxe uma vez uma mala do Luxemburgo. Na altura, importar dinheiro era legal, exportar é que não. Foi-me dada pelo secretariado do grupo socialista do Parlamento Europeu, onde estagiei três meses. Numa das deslocações a Lisboa, salvo erro no Natal, o secretário-geral adjunto, que era um italiano, e o secretário-geral, que era um alemão, chamaram-me e disseram: ‘Toma esta pasta. Tem dinheiro, é para levares para o partido’. Trouxe, cheguei, entreguei ao dr. Mário Soares. Pronto.”

Nunca desistiu e lutou até ao fim pela queda da ditadura e pela implementação da democracia. Quando foi deportado para São Tomé, na companhia do inspector Sachetti, da PIDE, foi num avião da TAP, em primeira classe, porque havia muita gente em turística. No aeroporto, cenas de pancadaria e muita gente para dizer adeus. Não comia desde a véspera e quando apareceu o comissário de bordo a perguntar se queriam jantar, o inspector responde que não, que já tinham jantado. Mas Soares atalhou: “Senhor inspector, se me dá licença, eu quero. Não sei se é o meu último jantar, deixe-me ao menos jantar bem”. E jantou, vinhos franceses e no final, até fumou um charuto.

Era um bon vivant. Este foi um traço que o acompanhou sempre, que o digam aqueles que habitualmente integravam as suas comitivas. Joaquim Letria, que foi porta-voz de Ramalho Eanes, lembra-se de acompanhar Mário Soares na viagem ao funeral de Samora Machel, em Outubro de 1986. Eanes deslocou-se, como tantas vezes, num C-130 da Força Aérea e, como quase sempre nas viagens que fazia, "a bordo havia croquetes e água. Soares fretou um avião da TAP e havia lagosta, champagne, tudo. Um festim".

Foi Soares, quando chegou à Presidência da República, que assinou a sua autonomia administrativa e financeira, há muito aconselhada por juristas como Miguel Galvão Teles. Mas, na luta para democracia, também soube o que eram privações, apesar de nunca ter vivido mal e ter sido fisicamente maltratado. No seu testemunho, Adriano Moreira lembrou São Tomé. "Era como político uma pessoa muito confiável e o que sustentava em termos de opinião era por convicção. E por isso teve de pagar um preço difícil até ao 25 de Abril, designadamente a estadia de São Tomé. Mas em São Tomé foi tratado com uma consideração enorme e fora do vulgar, porque já então inspirava respeito".

E quando lhe perguntavam se não tinha medo das ameaças de pancada e de morte, respondia que nem pensava nisso. E lembrava a cargas monumentais contra Octávio Pato, de quem também foi advogado de defesa, e outros, espancados em pleno julgamento. Ele, Soares, levou no máximo uns encontrões, nas suas próprias palavras. “A repressão era de classe. Os operários e os tipos rurais eram espancados. Os intelectuais e os tipos da burguesia, como eu era, filho de família, eram tratados de outra maneira”.

Regressou do exílio em 1974, três dias depois do 25 de Abril, naquele que ficou conhecido como o “Comboio da Liberdade”. Dois dias passados, passeava pela Baixa e pela Avenida da Liberdade, em Lisboa, de braço dado com Álvaro Cunhal, que chegara entretanto. No PREC, período revolucionário em curso, foi o principal líder civil do campo democrático e conduziu o Partido Socialista - que de dois a três mil socialistas dispersos pelo país passou para cerca de 100 mil em meia dúzia de dias – à vitória nas eleições para a Assembleia Constituinte de 1975.

Foi convidado para ministro dos Negócios Estrangeiros, função na qual desenvolveu as negociações que levaram à independência das colónias portuguesas, e opôs-se à tentativa de um sector de militares revoltosos que queriam conduzir o país para um regime de extrema esquerda. Demitiu-se de ministro em Março de 1975 e passou a ministro sem pasta, de onde também saiu dois meses depois. Foi primeiro-ministro de 1976 a 1978 e de 1983 a 1985. Nunca foi bem-amado nesse papel.

Mário Soares negociou, de 1977 a 1985, a entrada de Portugal na Comunidade Económica Europeia (actual União Europeia) e foi na sua liderança que se iniciaram as conversas, dentro e fora do país, para trazer de volta os investidores privados portugueses, depois das nacionalizações. Por sua causa regressaram as famílias Espírito Santo ou Champalimaud.

Mário Soares “morre desgostoso com a evolução da União Europeia e as dificuldades por que passa, tenho a certeza. A última vez que o vi foi em casa dele, já ele muito doente e já depois da morte da sua mulher, uma figura notável. Morreu inquieto com a evolução e a crise europeia em que estamos a participar”, garante Adriano Moreira.

Muitos consideravam-no um homem à frente do seu tempo. Rocha Vieira, que Soares nomeou ministro da República nos Açores, lembra um “homem de grande coragem física” e que tomou “decisões políticas difíceis”. “Havia coerência nas suas opções estratégicas de Estado e deixou uma impressão digital”. Recorda, além da União Europeia, a CPLP e a NATO.

Foi também Rocha Vieira, último governador de Macau, quem resolveu um dos maiores embaraços da vida política de Mário Soares, aquele que ficou conhecido como o caso do fax de Macau, no final dos anos 80. Em 1991, o Ministério Público viria a acusar Carlos Melancia – empossado por Soares pouco mais de um ano antes dos factos - de ter recebido 50 mil contos (hoje perto de 250 mil euros) de uma empresa alemã para influenciar um concurso relacionado com a construção do aeroporto de Macau. O processo foi encerrado em 2002 e Melancia absolvido por falta de provas. A primeira missão de Vasco Rocha Vieira era tirar os jornais de cima de Mário Soares. O imbróglio valeu a Soares um dos maiores pesadelos da sua carreira e teria a ver com financiamento político.

O grupo Espírito Santo viria a ser um dos principais financiadores da Fundação Mário Soares desde 2011. No total, e através de dois contratos de mecenato, o banco doou a esta instituição cerca de 570 mil euros, segundo as contas apresentadas, até ao ano passado.

Com a família Champalimaud há um episódio revelador contado pelo próprio Mário Soares. O primeiro-ministro estava no Brasil, em Minas Gerais, e o governador foi buscá-lo ao hotel, aconselhando-o a sair pela porta de trás por causa de uma manifestação contra si junto à porta principal. “Então, saímos pela porta grande!”, decidiu. Na rua, várias dezenas de homens com cartazes a dizer “Abaixo o vendedor de Angola, o ladrão que roubou Angola e a entregou aos soviéticos”. Avançou e perguntou a um dos homens: “Sabe quem é esse que você diz que roubou Angola?”. Não sabia. “Sou eu. Pagaram-lhe, não pagaram? Quem?”. Foi o senhor Champalimaud, terá respondido.

Muitos anos depois, era já presidente da República, veio a saber do interesse de Champalimaud em algumas empresas e Cavaco Silva recomendou-lhe que o apoiasse, pois era importante para o país. Foi assim que recebeu o filho de Champalimaud acompanhado do advogado da família, Proença de Carvalho. Mas, antes de iniciar a reunião de negócios, Soares quis falar de outro assunto. “O senhor Champalimaud-Pai, sem me conhecer, no estrangeiro, pagou uma manifestação contra mim”. Ao que o filho terá respondido: “É verdade, fui eu que organizei a manifestação”. “Se reconhece que é verdade, não se fala mais nisso. Veio pedir-me uma coisa, não vem? Já está resolvido, mesmo que me tivesse dito que não, está assinado”.

Mais recentemente, a partir de 2010, ainda a propósito das privatizações, mas num contexto completamente diverso, Soares manifestou-se contra a venda de empresas públicas e tentou sensibilizar os portugueses para a questão: “Vejo com horror a privatização das águas, das auto-estradas e da saúde. Caso se entre numa política cega de privatizações, qualquer dia não há capital português e os grupos económicos estrangeiros tomam conta dos nossos sectores estratégicos”.

Além da CEE e daquele que podemos considerar o início (das conversas) das privatizações, Mário Soares foi também o responsável, como chefe de governo, por dois pedidos de resgate de Portugal ao FMI – Fundo Monetário Internacional, um em 78, outro em 83 (governo de coligação PS-PSD).

“Ele é como os gatos, cai sempre de pé”

Pedro Feytor Pinto, director de Informação de Marcello Caetano, e que entre 80 e 84 foi director do "Primeiro de Janeiro", jornal financiado pelo CDS, confessa “admirar a qualidade política insofismável do Dr. Mário Soares, a quem a antiga proprietária do diário, a Sra. D. Maria Pinto Azevedo, me dizia para não subestimar: ‘Ele é como os gatos, cai sempre de pé’.” E assim foi.

António Barreto, que tinha sido ministro do Comércio e Turismo, primeiro, e da Agricultura e Pescas, depois, do I Governo Constitucional, chefiado por Soares, e que se afastou devido a divergências por causa da Reforma Agrária, publicou em 1984 um artigo no Diário de Notícias a desafiar Soares para se candidatar à presidência.

Era o plano B. Três meses antes Barreto tinha desafiado Salgado Zenha, que recusou (apesar de se ter candidatado). No dia seguinte, Mário Soares foi a casa do seu ex-ministro, na Lapa, em Lisboa, e aceitou o repto.

“Nós tínhamos feito as pazes, através do Sottomayor Cardia, num jantar em casa dele. Quando acabou o jantar, o Soares disse-me, à parte, que tínhamos de fazer as pazes. Eu disse-lhe que queria voltar a ter actividade política, mas que gostava que um dia o PS me pedisse desculpas pela forma como me tratou em 1977-78, que reconhecesse que a Lei da Reforma Agrária era uma lei boa”, contou António Barreto numa entrevista à revista Visão.

“Passou o tempo, em meados de 1985 recebo um telefonema do Cardia e do Jaime Gama a convidar-me para me apresentar às eleições, como independente. Sim senhor, mas só vou se o PS me pedir desculpas ou disser que eu tinha razão. Dois dias depois, dizem-me que seria cabeça de lista por Évora, e assim escusávamos de pedir desculpas uns aos outros. Em 1986, dei-me conta que ser deputado independente não fazia sentido e inscrevi-me como militante em Évora”.

Soares venceu essas eleições e também as seguintes, muito mais duras, e foi presidente da República dois mandatos sucessivos, de 1986 a 1996. Iniciou as chamadas presidências abertas, uma nova forma de fazer política, durante as quais percorreu diversas regiões do país, auscultando directamente a população sobre os seus anseios.

Joaquim Silva Pinto, ministro das Corporações e da Segurança Social no governo de Marcello Caetano, recorda que aderiu ao PS por causa de Mário Soares. E lembra a concertação social: “uma conquista de Mário Soares que ficou a dever-se a Ernâni Lopes”.

"Quando me aproximei do Partido Socialista, para grande arrelia de Freitas do Amaral – que depois também o fez, mas que na altura achou um escândalo –, foi para apoiar Mário Soares, que foi um grande presidente da República. Cinco anos depois, naquela dificílima eleição [primeiro mandato], quando o partido o deixou cair – o quis deixar cair –, estive na primeira linha dos independentes que o apoiaram”, conta.

 O PS de então não acreditava na vitória de Soares e “entendia que ele devia desistir em honra do partido, que ficaria comprometido com essa derrota”. Enganou-se: ganhou à segunda volta. Pelo caminho fez diversas “vítimas”, como Salgado Zenha.

“O Dr. Soares não é flexível, isso é um engano. É capaz de mostrar a maior simpatia, mas tem o seu projecto por trás e a pessoa ou entra ou não entra nesse projecto. No seu tempo era assim e conheço bem a guerra com Salgado Zenha, eram amigos como irmãos e acabou como acabou”, lembra Miguel Caetano, filho de Marcello Caetano.

“Soares e Zenha, não há quem os detenha”.

Na véspera das eleições de 1986, Ramalho Eanes fez uma declaração dizendo que, caso fosse eleito presidente, nomearia primeiro-ministro o secretário-geral do Partido Socialista, que era Mário Soares. Ainda assim, quando estavam para formar governo, Soares garante que propôs Zenha para primeiro-ministro, por ser mais competente. O secretariado não quis e Zenha acabou na Assembleia, a contragosto. Nesta altura, havia o slogan “Soares e Zenha, não há quem os detenha”. Mas deteve.

Soares ficou surpreendido quando viu Zenha aparecer como candidato. Nunca deixaram de se falar, mas foram-se distanciando. Ao que parece, a cisão com Zenha ficou a dever-se a “divergências” entre Soares e Eanes, de quem Salgado Zenha era muito amigo. Uma crise do ex-secretariado, como se chamava. Soares admitiu mais tarde ter feito “umas malfeitorias”. Ganhou o congresso e teve de “varrê-los, exercer o poder”. Mas ficou chocado quando, na televisão, disse a Zenha que faziam parte da mesma família [política] e, como resposta, recebeu um: “Não sou da tua família, estás muitíssimo enganado”. Perdeu aquele debate com Zenha. No dia em que foi eleito mandou um ramo de rosas à mulher de Freitas do Amaral e a primeira pessoa que chamou a Belém foi Salgado Zenha.

Mário Soares sempre teve capacidade de falar em público e de convencer as pessoas. Tinha carisma, facilidade em se dar e criar empatia. E uma intuição que lhe permitia compreender as pessoas. Uma grande influência foi o seu padrinho de casamento, estiveram presos ao mesmo tempo, Manuel Mendes, escritor e desenhista. Um homem que morreu antes do fim da ditadura contra a qual lutou.

Conheceu outras grandes figuras da cultura portuguesa, foi amigo de Jaime Cortesão, de Azevedo Gomes, de Carlos de Oliveira, de José Gomes Ferreira, de Mário Cesariny. Quando foi visitar Paris, levou consigo Cesariny, que tinha sido expulso de França no tempo do De Gaulle, por causa da homossexualidade. E apresentou-o a Mitterrand: “Olha, expulsaram aqui este amigo que eu trago, que é um génio, mas homossexual, como muitos outros”.

Mas sempre se considerou uma pessoa normal. Quando era secretário-geral do partido, tinha Vítor Constâncio, que tinha tido as notas mais altas, António Guterres, que tinha tido 20 no Instituto Superior Técnico, Jaime Gama ou António Rei, que tinham sido óptimos alunos em Letras. Todos notabilíssimos, todos mais do que ele, afirmava.

Soares não tinha um feitio fácil, dizem. E, sobre este assunto, nem ele argumentava. Um dos seus lemas era “perdoa mas não esqueças” e sempre reconheceu que se exasperava e perdia a cabeça com facilidade, mais com as coisas pequenas do que com as grandes. Mas também sabia ser manipulador.

“Um dia", conta Miguel Caetano, "Zenha chegou à reunião semanal e disse-nos: ‘venho duma visita à Alemanha, onde a Fundação Friedrich Erbert me propôs a criação em Portugal de um instituto de estudos. Teremos o apoio financeiro e o apoio nas relações internacionais’”. A matéria era delicada, porque a fundação apoiava a área do socialismo democrático em Portugal através do PS e os fundadores de todas as organizações criadas em Portugal com o seu apoio financeiro eram maioritariamente da confiança do partido, personalizado em Mário Soares.

Existiam já então existiam as fundações José Fontana, Antero de Quental e Azedo Gneco, demasiado integradas no PS. “Por isso", continua Caetano, "definimos a nossa autonomia de funcionamento. Coube a Zenha negociar com as diversas partes os enquadramentos do instituto. Qual não é o nosso espanto quando, depois do Congresso do Coliseu, soubemos que viria a Portugal um diretor da fundação para discutir a composição da direção do IED. Quando chegou, esse diretor comunicou-nos que o Dr. Soares estivera na Alemanha e, com o argumento que tinha derrotado Salgado Zenha naquele congresso, exigira a maioria da direção do IED”. Mas isso não aconteceu.

Não foi apenas com Eanes ou com Zenha que Soares se desentendeu. Joaquim Silva Pinto, com quem teve um período de grande intimidade, não escapou. “A certa altura, ainda nos indispusemos por causa do malfadado Sócrates. Um dia convidei-o para um almoço e ele disse-me: ‘uma coisa tem de reconhecer, e ele nisso até é parecido comigo, Sócrates é um determinado’. Eu respondi que me fazia lembrar a frase de estar à beira do abismo, era só dar um passo em frente. Respondeu-me que aquilo era forte de mais e acabámos mal o almoço”, relembra.

Mas Soares tinha coisa divertidas como ninguém. E sabia rir de si próprio. Quando havia reuniões ou congressos no Altis, por exemplo, tinha um truque para fazer parecer que a sala estava sempre cheia. Começava por chegar uns grandes vasões de plantas para junto das cadeiras, como que a dividir a sala, e ia empurrando-os à medida que chegavam mais pessoas, dando sempre a ideia de que a lotação estava completa.

Em 1999, Mário Soares foi cabeça-de-lista do PS às eleições europeias e, imediatamente a seguir, candidato a presidente do Parlamento Europeu, cargo que perdeu a favor de Nicole Fontaine, sobre quem disse que tinha “um discurso de dona de casa”.

Finalmente, em 2005, surpreendeu o país, ao aceitar voltar a ser candidato a presidente da República. Já tinha 81 anos. A ideia era impedir que José Sócrates, na altura secretário-geral do PS, tivesse de apoiar Manuel Alegre, de quem tinha sido adversário interno no partido nas eleições de 2004, à presidência. Alegre acabou por concorrer como independente e Soares obteve 14% dos votos. Ganhou Cavaco, com maioria absoluta.

De Mário Soares pode dizer-se, no mínimo e como expressamente desejou, que viveu com dignidade e deixou uma memória simpática do que fez.

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