Dilma Rousseff abandona o palco da presidência. Para trás fica uma cortina entreaberta e um holofote que aponta para estrado deserto. O espetáculo é assistido por milhões de cidadãos brasileiros. E, como todos sabemos, não se pode deixar um público que paga bilhete - ou impostos - sem alguém sob a luz do palco. Enquanto Dilma atravessa o público, dececionada com a democracia e a protestar, ainda, com expressões como “traição” e “golpe de Estado”, de entre os milhões de espetadores o seu vice emerge. O homem que todos pensavam estar destinado a viver nos bastidores, começa, tranquilamente, a subir as escadas, larga a faixa de presidente interino, e no centro do palco assume a posição de Presidente, desta vez definitivamente, (ou até 2018, melhor dizendo). Senhoras e senhores, Michel Miguel Elias Temer Lulia.

O percurso político de Temer dava um filme, o de um rapaz que trabalha nos bastidores, que passa o dia a tratar dos acessórios e a varrer o palco, e que alimenta no íntimo o desejo de ser ator. Ser o protagonista. Esta podia ser a metáfora da caminhada do novo presidente do Brasil.

Não foi a primeira vez que o novo presidente do Brasil ouviu as pancadas de Molière chamarem-no. Em janeiro de 1998, o presidente, Fernando Henrique Cardoso, e o vice-presidente do Brasil, Marco Maciel, ausentaram-se do país entre os dias 27 e 31 do primeiro mês do ano. A lei brasileira, diz que em caso de ausência das duas principais figuras do Estado, assume o poder, de forma interina, o presidente da Câmara dos Deputados. Michel Temer, na época. Foram apenas cinco dias no "palco". Pode parecer pouco, mas poderá ter sido o suficiente para lhe ter tomado o gosto.

Os pequenos palcos

Até chegar ao mais alto cargo político brasileiro, Temer foi quase especialista em fracos resultados nas urnas. Mas também um verdadeiro mestre na arte de estar no sítio certo à hora certa. A sua primeira experiência numa votação aconteceu quando tinha apenas 16 anos. Na altura, o jovem Michel Temer estava a terminar o ensino secundário, numa escola da cidade de São Paulo, e decidiu candidatar-se a presidente do Centro Acadêmico 11 de Agosto, conta o Observador. Perdeu por 82 votos.

A primeira experiência não terá corrido da melhor maneira, mas o gosto pela política terá ficado. Depois de concluir o curso de Direito na Faculdade de Direito do Largo São Francisco, da Universidade de São Paulo, Temer tornou-se militante no único partido autorizado a fazer oposição ao regime militar: o recém-criado, Movimento Democrático Brasileiro (MDB) - futuro embrião do PMDB (Partido Democrático Brasileiro), que nasceria em 1980.

Volvidos 6 anos, Temer volta a lançar-se a uma nova eleição. Desta vez concorre a deputado federal, no estado de São Paulo. O resultado nas urnas é fraco, contabilizando apenas 43.747 votos. Apesar de tudo, conseguiu o lugar de suplente do deputado Tidei de Lima.

Sorriu-lhe a sorte. Um ano depois, Lima renuncia ao mandato e Temer ocupa o seu lugar na Câmara dos Deputados. O posto valeu-lhe ainda um lugar na história, tendo-lhe permitido participar na Assembleia Constituinte de 1987, órgão vocacionado para a elaboração de uma nova Constituição após 21 anos de ditadura militar. Quando o mandato na Câmara dos Deputados terminou, Temer voltou a concorrer às eleições como deputado federal. Mais uma vez ficou como suplente.

Desta vez juntou a sorte ao mérito. O governador de São Paulo, em 1992, era Luiz Antônio Fleury Filho, um fã do trabalho realizado por Michel Temer na gestão da segurança pública - pela forma habilidosa como este lidou com o “massacre do Carandiru”. O apreço valeu-lhe um convite para dirigir a Secretaria da Segurança Pública de São Paulo. Ele aceitou.

Em 1994, foi a novas eleições. E à terceira foi de vez. Não só conseguiu ser eleito deputado federal como torna-se líder do PMDB na Câmara dos Deputados. O seu partido conseguiu o maior número de lugares na Câmara e, naturalmente, conseguiu angariar o número suficiente de votos para eleger o presidente da Casa Legislativa. Michel Temer foi o nome escolhido.

Os grandes palcos

A má sorte das urnas parecia ser uma coisa de outros tempos. Michel Temer era um político em ascensão. Em 1998, voltou a conseguir a reeleição como deputado federal. Conseguiu mais de 206 mil votos, quase cinco vezes mais “cruzinhas” ao lado do seu nome do que na primeira vez que concorreu.

Em 2001, Temer tentou voos mais altos. Já fora da presidência da Câmara dos Deputados, tentou uma pré-candidatura ao governo de São Paulo, mas um grupo de dissidentes do seu partido estragou-lhe os planos. O novo presidente do Brasil recuou, mas não perdeu tempo e rapidamente redesenhou a sua estratégia política. Ainda no mesmo ano, candidata-se e é eleito presidente nacional do PMDB, com uma esmagadora maioria absoluta, 60%. Em 2002 consegue o seu melhor resultado numa eleição para deputado ferederal, angariando mais de 252 mil votos.

Passados dois anos entra em cena Lula da Silva e em maio desse mesmo ano o PMDB passa a apoiar politicamente o governo do Partido dos Trabalhadores. A relação entre os partidos dava-se pela mão de Renan Calheiros, o que diminuiu a influência - pelo menos direta - de Michel Temer.

Após um período de ascensão política, Michel Temer estava agora a perder terreno. Em 2005 voltou a candidatar-se à presidência da Casa Legislativa, após a renúncia de Severino Cavalcanti, mas a falta de apoio do governo e, de novo, de uma ala dissidente do PMDB, levaram o novo presidente brasileiro a desistir da candidatura.

(Mais uma vez) Temer soube redefinir o momento e esperar. O “escândalo do Mensalão”, um esquema de compra de votos parlamentares na Câmara dos Deputados para influenciar a aprovação de projetos do governo, acabou por ser o seu trampolim. Com vários grandes nomes do governo de Lula da Silva envolvidos no escândalo, Temer indicou nomes do seu partido - “mais favoráveis” - para as comissões parlamentares de investigação e em troca o PMDB passava a ocupar cargos ministeriais. Uma enorme conquista para Temer.

Em 2006 as eleições para deputado federal do Estado de São Paulo espelharam uma realidade diferente. Michel Temer, o presidente do PMDB, consegue apenas 99 mil votos. No entanto, consegue beneficiar do sistema político brasileiro de lista aberta e chega a um quarto mandato (ou sexto, se considerarmos as duas vezes em que chegou à Casa como suplente). Apesar disso, a clivagem na quantidade de votos entre 2002 e 2006 não deixa de ser notória.

Se a popularidade se traduzisse em votos, Temer estava fragilizado. Era um chamado “pau de dois bicos” ganhava poder junto do governo, mas perdia influência junto da população.

Para recuperar, de novo, a presidência da Câmara dos Deputados, Temer apoiou a candidatura do deputado Arlindo Chinaglia, do PT, por forma a abrir caminho. Chinaglia venceu. Nos quatro anos seguintes, Temer foi eleito presidente da Casa, entre 2009 e 2011, com o apoio do PT.

Conseguiu, mais uma vez, inverter a tendência e conquistou terreno. Depois de, em 2006, Michel Temer ter, como presidente do PMDB, defendido uma candidatura própria do partido às eleições presidenciais – e ter visto a proposta cair durante uma convenção do partido -, o político apoiou, quatro anos depois, a integração do seu partido na coligação liderada pelo PT, que propunha Dilma Rousseff como presidente e o próprio Michel Temer como vice. A combinação deu certo e garantiu a vitória na segunda volta.

E, em jeito de premonição, vale recordar o poema "Embarque", da autoria do novo Presidente do Brasil.

“Embarque”, por Michel Temer

"Embarquei na tua nau / Sem rumo. Eu e tu.”

O que unia Dilma Rousseff e Michel Temer era o legado de Lula da Silva que os "obrigou" a um “casamento de conveniência”. Era meramente institucional. É curioso verificar, relata a BBC que, na campanha eleitoral de 2010, Temer apenas deu a cara na segunda volta.

O casamento arranjado, conta o Estadão, levou a que, no primeiro mandato, tivessem ocorrido vários desentendimentos. Mas, ainda assim, o casamento aguentava-se. Em 2014 recandidataram-se juntos às eleições presidenciais. Voltaram a vencer.

Depois começou o principio do fim. Primeiro o PMDB afastou-se lentamente de Dilma, deixando-a cada vez mais fragilizada. Evocaram a crise económica e a diminuição de apoio na rua ao governo como principais motivos. Temer tirou partido disso. Rousseff tornou-o “varejão”, ou melhor dizendo, responsável pela articulação do governo. Uma prática comum no Brasil que troca lugares e posições hierárquicas nos ministérios por apoio político.

Daí até os protestos anti-Dilma nas ruas das cidades do Brasil foi um pequeno salto. E a palavra impeachment começou a pairar no ar. Na altura, Temer publicou na sua conta no Twitter a seguinte mensagem:

“Tu, porque não sabias / Para onde querias ir”

Viriam a ser palavras irónicas. O distanciamento entre o PT e PMDB foi-se tornando cada vez maior até que chegou a um ponto sem retorno. Tornou-se sobretudo visível quando o partido de Temer lançou um vídeo de campanha em que o próprio surgia a criticar o governo. Dilma achou que ainda podia dar a volta, mas já não havia nada a fazer.

Dia 2 de dezembro de 2015 é aberto o processo de impeachment. Dia 7 de dezembro, Dilma recebe uma carta do seu vice onde ele diz que está farto de ser tratado como “mero vice decorativo”, “acessório” e “secundário”.

Foi a semana em que o destino político de Dilma se traçou. Em março do ano seguinte, com o PMDB a largar, pasta a pasta, o governo. O PT ficou sozinho e fragilizado.

“Eu, porque já tomei muitos rumos / Sem chegar a lugar nenhum"

Quando o processo de impeachment foi votado no Senado e ditou o afastamento de Dilma por 180 dias, Temer tomou posse como presidente interino. “Confiem em mim”, disse ele. “Confiem nos valores do nosso povo e na nossa capacidade para recuperar a economia”, continuou.

A foto do seu gabinete com os seus ministros, todos eles brancos, conservadores e de meia idade, gerou polémica. A unidade nacional, que Temer tanto pedia, não se refletiu na melhor oportunidade do ano para tal: os Jogos Olímpicos. Logo na cerimónia de abertura foi vaiado olímpicamente por milhares de brasileiros, talvez os mesmos que durante os jogos saíram à rua para questionar a sua legitimidade, enquanto representante da votação do povo, e gritar, “Fora Temer”.

A chegada ao poder de Temer chegou a ser, não rara a vez, comparada com o percurso de Francis Underwood, a personagem principal da série House of Cards, que alcançou o cargo de Presidente dos Estados Unidos da América através de vários golpes políticos. O próprio Michel Temer diz que essa é uma das suas séries favoritas, mas rejeita a comparação.

Os primeiros tempos não foram fáceis. Logo no inicio, três membros do seu governo a renunciarem ao cargo, após terem surgido noticias que os ligavam ao escândalo da Petrobras.

O papel principal

A presidência de Michel Temer não se afigura mais fácil do que o desafio que Dilma tinha pela frente. O novo presidente do Brasil vai ter de compor o seu governo com um Congresso fragmentado. Os próximos tempos terão de ser de negociações, e de tentar ganhar apoio nas ruas. Enquanto presidente interino, Temer tem uma taxa de popularidade muito baixa (13%).

A continua associação do PMDB ao escândalo Petrobras também não tem ajudado. Eduardo Cunha, ou o homem que deu o “pontapé de saída” no processo de destituição da presidente Dilma, já caiu, e Temer tem abanado com diversas associações do seu nome ao escândalo.

Para ajudar à situação, Temer pode vir ainda a enfrentar, também ele, um processo de impeachment. O processo está “encravado” na Câmara do Deputados desde abril deste ano porque apenas 7 dos 26 partidos representados na Casa atribuíram deputados para integrar a comissão parlamentar que analisaria se o processo de destituição do, na altura, vice-presidente iria para a frente ou não.

Temer é acusado por Mariel Márley Marra de ter cometido as mesmas “pedaladas fiscais” praticadas por Dilma Rousseff. Em causa estão quatro decretos de suplementação orçamentária, assinados entre maio e julho de 2015, que autorizavam novos gastos quando o governo já não cumpria a meta original para alcançar o superávit primário. Os defensores do novo presidente brasileiro dizem que este não pode ser condenado por cumprir o seu dever burocrático. Segundo os peemedebistas, Temer apenas assinava os decretos, mas não participou na elaboração de nenhum deles.

Para acalmar os seus aliados conservadores - que pretendem apresentar nomes próprios para a campanha eleitoral de 2018 -, Temer garante que não será candidato à Presidência nas próximas eleições. Em House of Cards, Francis Underwood prometeu o mesmo...

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