Foram milhares os que responderam ao apelo da rede 8 de março - o movimento que organizou a greve feminista e a concentração no Terreiro do Paço, em Lisboa, seguida de marcha até ao Rossio -, e marcaram presença numa luta que a dirigente do movimento feminista, Teresa Silva, disse ser de todos.

O que primeiro faz falta é trazer mais mulheres para a luta, disse a dirigente, apesar de haver cada vez mais homens solidários.

“Acho importante que centremos a luta nas mulheres, na consciencialização das mulheres, porque pensamos sempre porque é que os homens não se juntam, mas não perguntamos porque é que não há mais mulheres ainda a juntarem-se. Fazemos cada coisa passo por passo. Primeiro havemos de trazer as mulheres. Depois traremos os homens”, disse à Lusa.

Por volta das 18:00 seriam já mais de mil as pessoas concentradas em torno de um palanque onde as palavras de ordem e os discursos se faziam em defesa dos direitos das mulheres, contra a violência, sobretudo a violência doméstica, os ‘femicídios’ e contra todas as formas de discriminação de que as mulheres são alvo.

Os discursos apenas foram interrompidos por momentos musicais, também eles ativistas e comprometidos com a causa, como a atuação do duo que compõe o ‘Fado Bicha’, um projeto musical militante, que pega em fados consagrados para lhes dar uma nova letra, de denúncia de violência, da discriminação e do racismo.

O dia é simbólico, mas a luta é diária, sublinhou Teresa Silva, traduzindo uma ideia acompanhada pelas manifestantes ouvidas pela Lusa, como Madalena Madeira, que disse temer retrocessos nos direitos conquistados com o crescimento da extrema-direita um pouco por todo o mundo, e que considera a violência doméstica o maior problema das mulheres em Portugal, ainda que lhes junte outros, como os abusos, o assédio, as violações, os homicídios.

“Mulheres livres como o vento”, pedia Inês Teles entre a multidão, num cartaz vermelho erguido bem alto. Diz que falta liberdade às mulheres, falta em resposta a “forças que oprimem”, mas diz que entre os mais novos, os da sua geração – Inês está perto dos 30 anos - o feminismo tem feito caminho.

“Acho que tem de passar um pouco por todos a mudança de mentalidades, porque é uma coisa estrutural e que afeta toda a gente quase desde o berço. Acho que é preciso um esforço conjunto para que haja uma mudança”, disse.

Catarina Fontinha aparenta uma idade semelhante, mas nem o progresso que uma geração vai fazendo evitou que também ela fosse vítima de violência doméstica, uma situação que também pode afetar mulheres jovens e inteligentes, como a própria se considera, e da qual apenas tomou efetiva consciência no momento em que teve de pedir ajuda à GNR para lidar com um companheiro violento. Ter sobrevivido pode não passar de um acaso, disse.

“Eu já fui vítima de violência doméstica. Tive vergonha de dizer na altura, tive muita dificuldade em perceber o que se estava a passar e tive a sorte de sobreviver, porque se calhar não chegou ‘àquela parte’, mas quatro anos depois de sair daquela situação, por muita luta, por muito trabalho que faça interno, a verdade é que as mazelas continuam aqui. E tive apoio, mas é uma coisa que fica no nosso sistema e para podermos mudar aquilo que conseguimos fazer por nós e conseguirmos 'empoderar' outras mulheres, só conseguimos fazer isso se estivermos unidos e se formos sarando as nossas feridas”, disse.

De vítima a ativista foi um passo, e uma necessidade para lidar com o seu próprio caso, explicou Catarina Fontinha, que chegou à manifestação acompanhada por um grupo de jovens raparigas também elas ativistas, que encontrou no metro, a caminho do Terreiro do Paço, e que lhe chamaram a atenção pelos cartazes com mensagens de luta com as quais se identifica.

“É uma luta diária. […] A luta feminista é uma luta de todos os nós, não é uma luta de hoje, é uma luta dos tempos e é intemporal, enquanto continuar a haver violações e agressões que saem impunes, [enquanto continuar a haver] juízes como o Neto de Moura que tem muitos problemas em ser criticado, mas não tem problema nenhum em criticar as mulheres de forma absurda nos seus tribunais, e enquanto a violência doméstica, que é crime público, não for trabalhada como tal”, afirmou.

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