Fonte socialista disse à agência Lusa que Maria Carrilho, antiga vice-presidente da Assembleia da República e antiga eurodeputada do PS, morreu hoje de madrugada no Hospital CUF Tejo, onde se encontrava internada há algum tempo.

No plano académico e científico, Maria Carrilho, professora catedrática do ISCTE, licenciou-se em sociologia pela Universidade de Roma, tendo feito doutoramento em sociologia política pela Universidade Técnica de Lisboa, e era coordenadora do mestrado em Estudos Europeus no ISCTE.

Maria Carrilho esteve na primeira linha política com a eleição de António Guterres para o cargo de secretário-geral do PS em 1992, tendo pertencido ao Secretariado Nacional deste partido.

Especialista em assuntos de Defesa Nacional e em Assuntos Europeus, foi eleita eurodeputada pelo PS em 1999, funções em que permaneceu até 2004.

Ao longo da sua vida, Maria Carrilho publicou várias obras, destacando os "Novos media, novas políticas?" (2002); "Portugal no contexto Internacional: Opinião pública, defesa e segurança” (1998); "Segurança e Defesa na Opinião Pública Portuguesa" (1995); "Democracia e Defesa", (1994), "Mulheres e Defesa Nacional", (1992); "Forças Armadas e Mudança Política em Portugal no Século XX" (1985); "Sociologia da Negritude" (este primeiro publicado em Roma em 1973); e “Portogallo, La Via Militare", Milão (1975).

No Parlamento Europeu, Maria Carrilho dedicou parte do seu trabalho à política de cooperação e desenvolvimento com África, tendo feito aprovar vários relatórios sobre este tema.

Maria Carrilho defendeu necessidade de as instituições europeias passarem a encarar a vertente da cooperação como “uma modalidade mutuamente vantajosa para a UE e os países mais desfavorecidos”.

“A Europa parece encarar a sua política de cooperação para o desenvolvimento mais como uma obrigação ditada pela má consciência resultante do seu passado colonial, do que como uma modalidade mutuamente vantajosa”, sustentou.

Marcelo evoca “fundadora da sociologia militar"

O Presidente da República evocou hoje Maria Carrilho como a “fundadora da sociologia militar em Portugal”, que conseguiu “uma articulação virtuosa entre pensamento e ação, vanguardismo analítico e coerência ideológica”.

Numa nota publicada pela Presidência da República, Marcelo Rebelo de Sousa relembrou a “fundadora da sociologia militar em Portugal, a professora Maria Carrilho”, que faleceu hoje aos 78 anos.

“Com um percurso académico notável, aliado a uma relevante experiência política como deputada à Assembleia da República e ao Parlamento Europeu, conseguiu uma articulação virtuosa entre pensamento e ação, vanguardismo analítico e coerência ideológica, em especial nas áreas a que dedicou a sua vida, a Defesa, os Negócios Estrangeiros e os Direitos Humanos”, lê-se na nota.

Segundo o chefe de Estado, “fruto desse percurso”, Maria Carrilho deixou “uma obra incontornável sobre o estudo das relações civis e militares no século XX português, sobre o papel de Portugal nos sucessivos contextos internacionais, sobre o papel da mulher nas Forças Armadas, e ainda um contributo singular para uma avaliação sistemática da opinião pública às grandes questões da segurança e defesa no Portugal democrático”.

“O Presidente da República evoca a sua memória e envia condolências à família e amigos da Professora Maria Carrilho”, referiu.

Ferro Rodrigues recorda uma das “maiores especialistas na área da Defesa”

O presidente da Assembleia da República recordou hoje Maria Carrilho como uma das “maiores especialistas na área da Defesa”, com um “longo percurso de vida dedicada à causa pública”.

Em comunicado, Eduardo Ferro Rodrigues disse ter sido “com tristeza” que teve conhecimento “do falecimento, esta madrugada, aos 78 anos, de Maria Carrilho”, que caracterizou como sendo uma das “maiores especialistas na área da Defesa e das Forças Armadas” em Portugal.

“Com um longo percurso de vida dedicada à causa pública, que iniciou ainda durante a ditadura do Estado Novo, e que a levou ao exílio em Itália, Maria Jesuína Carrilho Bernardo era doutorada em sociologia e foi deputada à Assembleia da República nas VII e X Legislaturas, eleita nas listas do Partido Socialista, eurodeputada e presidente do Movimento Europeu”, lê-se na nota.

Ferro Rodrigues disse que a “forte ligação e amizade” que o unia a Maria Carrilho - assim como ao seu marido, Afonso de Barros, “também desaparecido nos anos 90 do século passado” – constituía para ele “motivo de grande honra e alegria”.

“À sua família e amigos, assim como ao grupo parlamentar do Partido Socialista, endereço, em meu nome e em nome da Assembleia da República, as mais sentidas condolências”, frisou.

António Vitorino recorda “pessoa sempre empenhada” e “grande amiga”

O diretor-geral da Organização Internacional para as Migrações, António Vitorino, recordou hoje Maria Carrilho como uma “pessoa sempre empenhada”, que granjeou “grande apoio no Parlamento Europeu nos assuntos de política externa e de defesa”.

Em nota enviada à Lusa, António Vitorino – que, quando Maria Carrilho foi eurodeputada, entre 1999 e 2004, foi comissário europeu para a Justiça e Assuntos Internos – afirmou que a morte de Maria Carrilho, hoje aos 78 anos, é uma “triste notícia”, frisando que perde “uma grande amiga”.

“Guardo uma memória de uma pessoa sempre empenhada e disponível que granjeou grande apoio no Parlamento Europeu nos assuntos de política externa e de defesa, de que era uma grande especialista”, indicou.

Ângelo Correia evoca “primeira mulher que se dedicou” à área da Defesa

O antigo ministro da Administração Interna Ângelo Correia recordou Maria Carrilho como a “primeira mulher que se dedicou” à Defesa com “qualidade, com seriedade e com profissionalismo”.

Em declarações à agência Lusa, o ministro da Administração Interna entre 1981 e 1983 - durante o Governo de Francisco Pinto Balsemão - afirmou que Maria Carrilho “surgiu na vida política portuguesa nesta área respeitante à Defesa Nacional, às Forças Armadas em particular, numa altura em que se começava a evidenciar que esta política era algo que não era secreta, não era circunscrita à vida militar, mas era sobretudo ampla, dizia respeito a todo o país, à sociedade portuguesa e ao seu mundo político”.

“Nesse sentido, a doutora Maria Carrilho fez algumas incursões, algumas dezenas de anos, das quais a primeira, importantíssima – e ficou sempre conhecida – foi um estudo sobre a própria situação profissional, sobre o que era a condição militar, a sua caracterização humana, hierárquica funcional”, recordou.

O atual coordenador do Conselho Estratégico Nacional do PSD para a área de governação da Defesa Nacional frisou que os documentos produzidos por Maria Carrilho eram sempre “valiosos”, “quase incontestáveis”, com “uma natureza científica bastante relevante, bastante sentida, não eram meras opiniões, eram opiniões documentadas” e baseadas em “termos técnicos e científicos”.

“Ela fica muito na nossa história como talvez, em termos de democracia, a primeira mulher que se dedicou a esta temática com qualidade, com seriedade e com profissionalismo. Hoje recordamo-la – não é apenas hoje que ela é recordada, sê-lo-á por muito tempo – nos anais da área da Defesa Nacional”, disse.

PS destaca legado deixado nas áreas da Defesa e Assuntos Europeus

O PS considerou hoje que a sua antiga deputada e dirigente Maria Carrilho deixa um legado importante sobre as políticas de defesa nacional e de assuntos Europeus, áreas em que abriu “novos horizontes”.

Numa nota publicada na página do PS na Internet, os socialistas referem que a professora universitária Maria Carrilho “era uma personalidade ímpar, que se destacou pela dinâmica

“Foi a primeira mulher em Portugal a dedicar-se a temas da Defesa e das Forças Armadas, tendo enriquecido grandemente esta área de estudos. Deixa-nos um importante legado sobre a relação entre a Europa e os Estados Unidos no domínio da Defesa e sobre a relação das Forças Armadas com a sociedade civil”, aponta o PS.

No percurso político da professora universitária, o PS salienta que Maria Carrilho deixa “a grata memória de alguém que abriu novos horizontes, pelo seu longo percurso de vida dedicado à causa pública, que iniciou ainda durante a ditadura do Estado Novo, e que a levou ao exílio em Itália”.

“O PS assume o compromisso de honrar a obra e a memória de Maria Carrilho, do mesmo modo como a mesma se comprometeu com a Europa e com a luta por um futuro europeu para Portugal. À sua família e amigos, o PS endereça as suas mais sentidas condolências e manifesta o seu mais sentido pesar”, acrescenta-se na mesma mensagem.

(Artigo atualizado às 17:27)

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