Segundo a mesma fonte, o pintor morreu na sequência de problemas de saúde relacionados com a idade e com um internamento prolongado. Não há ainda informações sobre cerimónias fúnebres.

Nascido em Lisboa, em 1926, Júlio Pomar, que gostava mais de desenhar do que de jogar à bola quando era criança, vendeu o primeiro quadro a Almada Negreiros por seis escudos, numa época em que era impensável viver da pintura.

Tornou-se um dos artistas mais conceituados do século XX português, com uma obra marcada por várias estéticas, do neorrealismo ao expressionismo e abstracionismo, e uma profusão de temáticas abordadas e de suportes artísticos experimentados.

A obra foi dedicada sobretudo à pintura e ao desenho, mas realizou igualmente trabalhos de gravura, escultura e 'assemblage', ilustração, cerâmica e vidro, tapeçaria, cenografia para teatro e decoração mural em azulejo.

Desde muito jovem começou a escrever sobre arte, tem obra poética publicada, alguma musicada e interpretada por cantores como Carlos do Carmo e Cristina Branco.

Estudou na Escola de Artes Decorativas António Arroio e nas Escolas de Belas-Artes de Lisboa e Porto, tendo participado em 1942, em Lisboa, convidado por Almada Negreiros, na VII Exposição de Arte Moderna do Secretariado de Propaganda Nacional/Secretariado Nacional de Informação.

Fez parte da Comissão Central do Movimento de Unidade Democrática Juvenil (MUD), e participou ativamente nas lutas estudantis, o que lhe custou a expulsão das Belas Artes do Porto.

Em 1947, realizou a primeira exposição individual, no Porto, onde apresentou desenhos, e colaborou com os jornais A Tarde, Seara Nova, Vértice, Mundo Literário e Horizonte, participando no movimento artístico "Os Convencidos da Morte", assim denominado por oposição aos célebres "Os Vencidos da Vida", grupo marcante na história da literatura portuguesa.

Pomar e a oposição ao Salazarismo

A oposição ao regime de Salazar leva-o a passar quatro meses na prisão, a apreensão de um dos seus quadros - "Resistência" - pela polícia política, e a ocultação dos frescos com mais de 100 metros quadrados, realizados para o Cinema Batalha, no Porto.

Mesmo assim, Júlio Pomar conseguiu desenhar e pintar na prisão - onde circulavam papel, lápis e caneta - e fazendo um requerimento para obter materiais que lhe permitiram criar retratos dos camaradas presos, como Mário Soares, e do quotidiano no cárcere.

Num período inicial, neorrealista, foram marcantes algumas das suas obras, como "O Almoço do Trolha", "Menina com um Gato Morto", "Varina Comendo Melancia" ou "O Cabouqueiro", que revelam a influência, na mesma corrente, de escritores como Alves Redol e Soeiro Pereira Gomes, e artistas plásticos como o brasileiro Cândido Torquato Portinari.

Nos anos 1950 viajou até Espanha, onde estudou a obra do pintor Goya, fundou a cooperativa Gravura, em Lisboa, para produção e divulgação de obras gráficas, que marcou várias gerações de artistas.

Na década seguinte, foi viver para Paris, onde esteve como bolseiro da Fundação Calouste Gulbenkian entre 1963 e 1966.

Desse tempo destaca-se a série de quadros a preto e branco para ilustrar a versão de "D. Quixote", de Aquilino Ribeiro, tema que usou noutras pinturas e esculturas, e iniciou a série "Tauromaquias", que exibiu em Paris, onde também participou numa mostra dedicada ao quadro de Ingres "Le Bain Turc", no Museu do Louvre, em 1971.

"A minha pintura estava a desfazer-se e senti necessidade de dar-lhe uma estrutura"

Em entrevista à agência Lusa em 2009, Júlio Pomar recordou que a vivência em Paris, nos anos 1960, coincide com uma rutura "mais dramática" no percurso artístico, quando sentiu que a pintura que criava "estava a desfazer-se".

"A minha pintura estava a desfazer-se e senti necessidade de dar-lhe uma estrutura", explicou, acrescentando que as mudanças no seu percurso artístico foram feitas de um modo geral sem esforço, mas naquele caso "foi esforçada".

Em Portugal, a primeira retrospetiva da obra de Pomar foi organizada em 1978 pela Fundação Gulbenkian e exibida na sua sede em Lisboa, também no Museu Soares dos Reis, no Porto e, parcialmente, em Bruxelas.

Também em Paris e em Madrid apresentou, na década de 1990, a série sobre os índios do Alto Xingú, na Amazónia, onde passou algum tempo, e a antológica "Pomar/Brasil", organizada pelo Centro de Arte Moderna da Gulbenkian, e apresentada em Lisboa, Brasília, São Paulo, e Rio de Janeiro.

Em 2004, o Sintra Museu de Arte Moderna – Coleção Berardo apresentou uma vasta retrospetiva intitulada “Pomar/Autobiografia”, comissariada por Marcelin Pleynet, enquanto o Centro Cultural de Belém expôs a antologia “A Comédia Humana”, organizada por Hellmut Wohl.

Nesse ano foi criada a Fundação Júlio Pomar e quase uma década depois, em 2013, foi inaugurado em Lisboa o Atelier-Museu Júlio Pomar, com um projeto arquitetónico de reabilitação de Álvaro Siza.

Em 2004, foi condecorado pelo então Presidente da República Jorge Sampaio com a Ordem da Liberdade.

As obras, doadas pelo artista à Fundação Júlio Pomar, incluem pintura, escultura, desenho, gravura, cerâmica, colagens e ‘assemblage’.

O seu trabalho encontra-se em edifícios e espaços públicos, nomeadamente na estação de metro do Alto dos Moinhos (1983-84), os frescos pintados no Cinema Batalha (Porto 1946-7), e a sala de audiência do Tribunal da Moita, com o arquiteto Raul Hestnes Ferreira (1993), e as tapeçarias executadas para as sedes do Montepio Geral e da Caixa Geral de Depósitos.

O diretor do museu de Serralves, João Ribas, destaca a “marca inconfundível” em termos nacionais e internacionais que o artista deixou. “Durante mais de sete décadas, Júlio Pomar sempre variou nas suas técnicas e abordagens artísticas. Criou uma marca inconfundível no panorama nacional e internacional da arte”, pode ler-se na declaração escrita enviada à Lusa.

O diretor do museu localizado no Porto, que conta com várias obras de Pomar na coleção, incluindo uma peça doada pelo próprio em 2014, acrescentou que Júlio Pomar “juntou a pintura com um sentimento da arte que se vê como uma forma de conhecimento e de reflexão social”.

Já o presidente da Assembleia da República considera a morte de Júlio Pomar uma "imensa perda" para a cultura portuguesa, caraterizando-o como "um artista maior no Portugal contemporâneo" que deve inspirar as jovens gerações. Para Ferro Rodrigues, ao longo da sua vida, Júlio Pomar caraterizou-se também como um cidadão "empenhado no combate à ditadura e na causa da democracia".

Marcelo Rebelo de Sousa lembrou Júlio Pomar como um "criativo irreverente" e considerou que a sua morte deixa a cultura portuguesa "muitíssimo mais pobre", manifestando a certeza de que o Governo proporá "o luto nacional correspondente".

Também o ministro da Cultura lamentou “profundamente” a morte do artista plástico. “Júlio Pomar foi um artista extraordinário e uma figura incontornável na cultura e na história das artes visuais portuguesas. O país está grato pelo legado incomensurável que nos deixa e pela capacidade de nos inspirar através da sua vida e da sua obra”, refere Luís Filipe Castro Mendes num comunicado hoje divulgado.

O ministro lembra que, “com uma linguagem e um universo próprios, construídos ao longo de uma vida”, Júlio Pomar “foi um artista total, que marcou várias gerações e inscreveu a sua arte nos diversos momentos políticos do país”.

O escultor Rui Chafes recorda Júlio Pomar como “um grande artista”, um “desenhador exímio”, com um "olhar muito raro fulminante sobre a realidade”.

“Além de um grande artista, muito original e inovador recordo-o como uma pessoa extremamente inteligente e inquieta, sempre disponível para descobrir coisas novas e com um olhar muito raro fulminante sobre a realidade, um desenhador absolutamente fora de série, um desenhador exímio”, afirmou Rui Chafes em declarações à agência Lusa.

“Foi uma referência de toda a minha vida, desde sempre, inclusive desde antes de [eu] entrar para a Escola de Belas Artes”, afirmou José Pedro Croft, em declarações à Lusa. O escultor recordou que conheceu Júlio Pomar em 1977, “aquando da exposição que ele fez na Gulbenkian”, e que nesse dia teve “uma longa conversa com ele e com o José Sommer Ribeiro [arquiteto, que morreu em 2006]”.

“Foi muito emocionante porque ainda não estava estudada a história do neorrealismo e da importância da pintura política, e portanto foi uma conversa muito forte, que recordo com muita intensidade”, partilhou.

Pedro Cabrita Reis, também escultor, manifestou ainda a sua alegria por o artista ter “partido num dia de sol e de primavera”. “Porque ele deixou-nos uma tal luminosidade no seu trabalho que estaremos junto dele através do seu trabalho durante muito e muito tempo”, enfatizou.

Questionado pela Lusa sobre a exposição “Das pequenas coisas”, que realizou em junho de 2017, para o Atelier-museu Júlio Pomar, a convite do atelier do artista plástico, Pedro Cabrita Reis lembrou que a mostra “a quatro mãos” foi “de uma intensidade, de uma alegria e de uma criatividade extraordinária”.

“É um dos momentos mais fortes e mais importantes da minha vida nos últimos anos”, afirmou.

Também a Câmara Municipal de Lisboa deixou uma nota de pesar. Num comunicado hoje divulgado, a CML “lamenta profundamente o desaparecimento do pintor Júlio Pomar”, recordando o percurso de vida do artista plástico, que nasceu em Lisboa em 1926, cidade onde acabou também por morrer.

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