Figura 1- Evolução dos resultados eleitorais do PCP em eleições legislativas desde 1976. Assumimos os resultados das coligações Povo Unido e Coligação Democrática Unitária como representando o PCP. Fonte: DGAI
Figura 1: Eleitorado do PCP ao longo dos últimos 100 anos

Reconhecendo que o poder local tem uma importância especial na vida do PCP, o foco da análise será nacional e sobre as eleições legislativas — onde também temos mais dados, nomeadamente de inquéritos.

No que toca ao histórico do PCP em eleições legislativas podemos distinguir dois grandes períodos. A primeira década de democracia em Portugal representa os melhores anos em termos eleitorais para o Partido Comunista, conseguindo ultrapassar a barreira do milhão de eleitores. É no apogeu pós revolucionário que os comunistas conseguem mobilizar mais eleitores, numa altura de grande participação eleitoral. No entanto, a partir do final dos anos 80, encontramos uma diminuição do voto no PCP que termina com uma estabilidade eleitoral a partir dos anos 90, em torno dos 500 mil eleitores. 

Ou seja, se o fim da União Soviética pode ter tido um grande impacto no eleitorado comunista, como em vários outros países europeus (França ou Itália são exemplos disso), a verdade é que o PCP conseguiu nas últimas décadas segurar um eleitorado estável, pelo menos nos seus números, mesmo com a entrada em cena do Bloco de Esquerda a partir do final dos anos 90.

Neste padrão, o declínio de 2019 é bastante notório. Nestas eleições, o Partido Comunista perdeu cerca de um quarto dos seus eleitores quando comparado com 2015. É verdade que uma diminuição parecida ocorreu em 2002, quando o PCP perdeu cerca de um quinto dos seus eleitores, tendo o partido conseguido voltar a reconquistar eleitorado. A questão que se coloca é, será que o PCP conseguirá fazer o mesmo no futuro?

De notar que desde que apoiou o governo da Gerigonça, em 2015, que os resultados eleitorais do PCP têm piorado, mesmo noutras eleições. Nas legislativas de 2019 perdeu 113 mil eleitores, quando comparado com a eleição anterior. Nas europeias de 2017 perdeu 188 mil eleitores e nas eleições autárquicas de 2017 perdeu 63 mil eleitores. Assim, esta perda parece que é consistente e que veio para ficar.

Antes de passar para um olhar mais aprofundado do eleitorado comunista, duas ressalvas. Em primeiro lugar, como alguns estudos têm demonstrado, o eleitorado português é relativamente desalinhado. Ou seja, quando comparamos com a situação de outros países, as características sociais e demográficas tendem a explicar menos o sentido de voto dos portugueses. Assim, existe uma menor tendência para que diferenças na classe social estejam associadas a um determinado sentido de voto, por exemplo. O que não significa que não existam bases sociais dos partidos, mas estas são menos robustas quando comparadas com outros países. 

Em segundo lugar, na ausência de sondagens nacionais que contenham uma amostra significativa de eleitores do PCP, utilizamos os estudos produzidos após as eleições legislativas desde 2005. Assim, este exercício deve ser lido com isto em mente. De qualquer forma, os dados demonstram algumas tendências interessantes no eleitorado comunista.

Figuras 2: Auto-posicionamento do eleitorado do PCP numa escala Esquerda (0) - Direita (10)
Figuras 3: Posicionamento do dos partidos de esquerda por eleitores do PCP numa escala Esquerda (0) - Direita (10)

As Figuras 2 e 3 (clique sobre as imagens para ver os gráficos na totalidade) mostram como os eleitores do PCP se posicionam a si (2) e aos partidos de esquerda (3) numa escala esquerda--direita. A figura 2 demonstra alguma estabilidade do posicionamento do eleitorado comunista, embora se note uma tendência para se posicionar mais à esquerda a partir de 2015. De notar que este é um auto-posicionamento, por isso não significa que um eleitor colocar-se mais à esquerda signifique que passe a apoiar necessariamente políticas mais à esquerda.

Do mesmo modo, os eleitores do PCP tendem a ver este partido como acompanhado o seu auto-posicionamento e colocam o Bloco de Esquerda como bastante próximo do PCP. O PS também sofreu com o desvio para a esquerda a partir de 2015, sendo reconhecido a partir de então como um partido de centro-esquerda aos olhos do eleitorado comunista.

É interessante notar que não existem grandes diferenças entre 2015 e 2019 em nenhum dos gráficos. O que parece indicar que o declínio eleitoral em 2019 não está necessariamente associado à perda de um eleitorado ideologicamente definido. Ou seja, não parece que perdeu nem os comunistas moderados (o que levaria a bolinha de 2019 na Figura 2 a deslocar-se para perto do zero), nem os comunistas extremistas (o que levaria a mesma bolinha a deslocar-se mais para perto do 10).

Figuras 4: Sindicalização, classe social, mulheres e jovens: os eleitores do PCP vs outros partidos

Figura 4 - Algumas características sócio-demográficas dos eleitores do PCP em comparação com os restantes eleitores. Fonte: Estudo Eleitoral Português (por problemas na qualidade dos dados de 2009, decidimos retirá-los na análise do quarto gráfico)

Na Figura 4 apresentamos algumas comparações sobre características sócio-demográficas do eleitorado do PCP quando comparado com outros partidos. Os dois gráficos de cima demonstram que o eleitorado comunista tende a ter uma maior percentagem de membros de sindicatos e de pessoas que se descrevem como de classe média baixa ou baixa, quando comparado com os restantes eleitores. Tenderia a ler com bastante cautela as flutuações ao longo do tempo, pois podem representar mais ruído provocado pela amostra do que mudanças reais. Mas mesmo assim sublinharia o crescimento em 2015 e 2019 da percentagem de pessoas de classes baixas entre os eleitores comunistas.

Os dois gráficos de baixo, são mais úteis porque nos sugerem duas hipóteses sobre que tipo de eleitores que o PCP perdeu em 2019: as mulheres e/ou os mais jovens. No gráfico da esquerda é clara a diminuição em 2019 da percentagem de mulheres entre os eleitores do Partido Comunista. E no da direita, vemos o crescimento da percentagem de eleitores com 45 ou mais anos. Nos dois casos é uma mudança que ocorre em 2019 e não parece ser fruto de mudanças ao longo do tempo. E se é verdade que as incertezas dos dados nos levam a ter alguma cautela em precisar o tamanho da perda destes dois grupos entre o eleitorado comunista, o seu efeito parece sugerir boas pistas para compreender o pior resultado de 2019.

Mapa 1: Distribuição geográfica da média do voto no PCP em legislativas (2005-2019)
Mapa 2: Distribuição geográfica da diferença proporcional dos votos no PCP em 2019 com a média do voto em legislativas anteriores (2005-2015)

A geografia continua a ser determinante para caracterizar o eleitorado comunista. Como o Mapa 1 demonstra, considerando a percentagem média de votos no PCP nas legislativas desde 2005, como o voto comunista continua concentrado no sul, nomeadamente no Alentejo. Esta é uma longa tendência desde 1976 e que continua a ser verdade aos dias de hoje.

No Mapa 2 apresentamos a perda proporcional de percentagem de voto em 2019 comparado com a média dos restantes anos. Aqui podemos ver que em 2019 o PCP vai perder mais eleitorado, proporcionalmente, no Norte, incluindo a área metropolitana do Porto, e na região de Lisboa e Vale do Tejo. Ou seja é fora do Alentejo que encontramos as maiores descidas em 2019, mesmo que o PCP também tenha perdido eleitorado no seu bastião.

Assim, 100 anos depois do seu nascimento encontramos um PCP que conseguiu nas últimas décadas encontrar um eleitorado estável, ideologicamente definido, composto por classes mais baixas, desproporcionalmente sindicalizado e geograficamente situado mais a sul, nomeadamente no Alentejo. Contudo, os resultados das legislativas de 2019 apontam para os problemas que o partido enfrenta igualmente. A perda de uma parte significativa do seu eleitorado, nomeadamente feminino, jovem e fora do seu bastião alentejano, acompanhado por fracos resultados noutras eleições, podem mais uma vez fazer colocar a questão sobre qual o futuro eleitoral do PCP.

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