A Sala Carlos Ribeiro, no Colégio de Jesus da Universidade de Coimbra, está na penumbra quando se entra. As luzes vão-se ligando, amiúde, guiando os olhos do visitante para uma cabeça de um hipopótamo, duas máscaras africanas, um osso de dinossauro e uma peça de acústica antiga.

As luzes (num conjunto total de seis mil ‘LED’) destacam depois outros pontos da sala: há um esqueleto de uma orca e um crocodilo embalsamado no teto, veem-se outros animais nas vitrinas, um globo, esculturas africanas, bezoares (secreções de ruminantes que eram consideradas mitológicas), “monstros” como um burro com seis patas ou uma cobra com duas cabeças.

São mais de quatro mil os objetos expostos na sala, que, para além das luzes, apresenta imagens de outros espécimes e objetos em duas telas, num espaço que ganha profundidade com dois espelhos no centro do mesmo.

Neste novo espaço do Museu da Ciência, não há uma ordem lógica dos objetos – há minerais misturados com animais embalsamados – e não há legendas nem qualquer explicação para aquilo que se vê ao longo de uma visita de cerca de 20 minutos, em que as luzes vão conduzindo a atenção de quem visita.

A proposta deste espaço é recriar não os gabinetes de curiosidades que antecederam a criação dos museus de ciência, mas antes o sentimento que esses espaços poderiam despertar — seja o maravilhamento, a surpresa ou o estranhamento -, disse à agência Lusa o diretor do Museu da Ciência, Paulo Trincão.

Neste Gabinete das Curiosidades estão reunidas peças que foram sendo colecionadas pela Universidade de Coimbra ao longo de mais de sete séculos de história e que foram selecionadas num processo demorado de dois anos e meio pelos diversos acervos e reservas da instituição, explicou.

Para a escolha dos objetos e espécimes apresentados naquele espaço, optou-se por um equilíbrio entre objetos “de origem animal e de origem artificial”, que acabam mesclados nas vitrinas, e por um critério pouco comum: “a beleza dos objetos”.

“Quisemos trazer objetos com alguma beleza e exotismo”, salientou Paulo Trincão, admitindo a “margem enorme de subjetividade” na construção daquele núcleo museológico.

O trabalho foi feito em parceria com “o maior especialista” português em gabinetes de curiosidades, João Brigola, da Universidade de Évora.

Mais do que o público ganhar conhecimento sobre os objetos que vê, Paulo Trincão acredita que o espaço irá despertar “sensações”, como “beleza, horror ou maravilha”, mas também curiosidade, numa proposta que estará mais próxima de uma exposição de arte do que de um museu.

“Quem vai a uma exposição de arte, não olha para a obra e acha que o mais importante é saber quando e onde foi pintada. O que queremos é uma visão sensível, quase amorosa em relação aos objetos. Queremos que se estabeleça empatia e a empatia é a base do conhecimento e o conhecimento é dado no resto do museu, mas também na escola, em casa”, realçou, acreditando que o espaço, “com uma componente estética e emocional forte” posiciona Coimbra “num papel diferenciador”.

O espaço, que conta com 12 programas de luz diferentes conforme os públicos que receba, poderá ser visitado a partir de quinta-feira, dentro do bilhete global de visita ao Museu da Ciência, sendo inaugurado hoje, às 17:30, com a presença do ministro da Cultura, Pedro Adão e Silva.

O Gabinete das Curiosidades contou ainda com o apoio da Fundação La Caixa, que investiu 250 mil euros na criação deste espaço.

“Foi esse apoio que nos permitiu fazer o gabinete”, salientou Paulo Trincão.

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