20 de fevereiro de 1957, o terceiro dia daquela que ficaria na história de Portugal como a Visita do Século. Depois de dois dias em Lisboa, com vários eventos a terem lugar no Palácio de Queluz e pela capital portuguesa, a Rainha Isabel II e Sua Alteza Real o Duque de Edimburgo partiram rumo ao centro do país com destino ao Mosteiro de Santa Maria da Vitória, habitualmente conhecido por Mosteiro da Batalha.

A saída do Palácio Nacional fez-se às 10h00, com os monarcas a serem acompanhados pelas suas comitivas. O cortejo passou pelas Caldas da Rainha e Nazaré, onde a rainha e o marido visitaram a praia e viram a vila desde o Sítio da Nazaré e assistiram a uma demonstração de folclore popular, com várias pessoas a dançarem com os trajes típicos da vila piscatória, numa demonstração das raízes populares ao bom estilo do Estado Novo. Seguiu-se um almoço em Alcobaça, onde ficou icónico o momento em que Isabel II e o Duque de Edimburgo entraram no mosteiro sob um manto de capas de estudantes universitários de Coimbra, à boa tradição coimbrã, e, por fim, o destino final: a vila da Batalha.

"A visita ao Mosteiro não é uma mera passagem, o dia é para visitar o Mosteiro da Batalha", sublinha ao SAPO24 Joaquim Ruivo, diretor do monumento, apontando para o programa oficial da visita.

A chegada à Batalha aconteceu às 14h30. No exterior, no largo diante do mosteiro, em cima de um pequeno estrado, a Rainha e o Duque ouviram o hino nacional português e inglês e foram prestadas honras militares por um batalhão do Regimento de Infantaria 7, de Leiria, com fanfarra e bandeira a que Sua Majestade passou em revista.

Na pequena colina, hoje rasgada pela estrada Nacional 1, miradouro privilegiado para a entrada do mosteiro, que o regime de António Oliveira Salazar aproveitaria para tornar num postal vivo para os que passassem naquela, via, ainda hoje uma das mais importantes do país pela ligação que faz entre Lisboa e Porto, amontoavam-se milhares de pessoas da Batalha e de outros concelhos próximos, vestidos com as suas melhores roupas - apesar de, a título de curiosidade, o programa da visita não fazer qualquer alusão ao que hoje é denominado como dress code para o momento a decorrer nos Mosteiro de Santa Maria da Vitória, ao contrário do momento em Alcobaça, onde o programa exigia aos civis um "fato de passeio".

"Porquê o Mosteiro da Batalha? Há aqui uma ligação com Inglaterra evidente. Em primeiro lugar, é o local de honra ao Soldado Desconhecido, uma vez que as tropas portuguesas na I Guerra Mundial estiveram também sob o comando inglês. Ali foi feita uma cerimónia em que a Rainha depositou uma coroa de louros pontoada com papoilas junto ao túmulo, enquanto ressoava a Marcha de Continência, por uma fanfarra de clarins, coroa essa que está hoje no Museu das Oferendas ao Soldado Desconhecido da Liga dos Combatentes, situado dentro do Mosteiro. Depois, inevitável, na Capela do Fundador, uma visita a uma antepassada da Rainha, D. Filipa de Lencastre, rainha cuja união está na origem do Tratado de Windsor, a mais antiga aliança entre dois países", explica Joaquim Ruivo.

A amizade entre as duas nações tem origem no Tratado de Tagilde, assinado a 10 de julho de 1372 na Igreja de São Salvador de Tagilde entre o rei D. Fernando (o Formoso) e representantes do Duque de Lencastre (filho de Eduardo III de Inglaterra).

O Tratado de Tagilde foi o primeiro de uma série de acordos que consolidaram a aliança anglo-portuguesa, a mais velha entre Estados independentes do mundo, em particular o tratado de Windsor (1386), que resultou no casamento do rei de Portugal, João I, com D. Filipa de Lencastre.

Ainda antes desta primeira visita a Portugal, a rainha Isabel II já tinha feito justiça a esta relação ao receber em 1955 o Presidente da República portuguesa, Francisco Craveiro Lopes, em Londres, o terceiro chefe de Estado estrangeiro a visitar a jovem rainha em Londres, apenas dois anos após a coroação, que aconteceu em 1953.

O general retribuiu e convidou a monarca britânica, que viajou até Portugal em 1957, a quarta visita ao estrangeiro em funções e a primeira em 50 anos de um soberano britânico ao "fiel Aliado”.

A aliança, que teve uma das traduções mais recentes, a nível  militar, na I Guerra Mundial, traduziu-se na presença, aquando da visita da monarca ao mosteiro, de vários antigos combatentes, portugueses e estrangeiros, visivelmente emocionados pela demonstração da rainha, explica o diretor do monumento ao SAPO24. "Foi uma cerimónia com um envolvimento de memória extraordinário", sublinha.

A Rádio Televisão Portuguesa, ainda em fase experimental, fez com esta visita a primeira reportagem de exterior, deixando registos fundamentais para a posteridade, inclusive, naturalmente, a esta ida ao Mosteiro da Batalha.

Uma casa de banho para a ocasião

"Uma coisa curiosa, relativa a esta visita ao Mosteiro, é que, na previsão que Sua Majestade pudesse necessitar de sanitários, foi construída uma casa de banho no espaço contíguo à sacristia, a chamada Casa da Prata, que, na realidade, era um cofre forte no tempo dos Dominicanos. Essa salinha tem ainda hoje os sanitários que construídos em 1957 para de algum modo prever alguma contigência do lado da Rainha ou do Duque de Edimburgo", revela Joaquim Ruivo.

Hoje, esta casa banho ainda funciona, mas o facto de estar numa zona reservada e de o monumento, através das várias obras de requalificação que foram feitas ao longo dos anos ter sanitários para os visitantes e funcionários, faz com que estes já não sejam praticamente utilizados.

E não, a casa de banho não foi utilizada nem pela Rainha Isabel II, nem pelo Duque de Edimburgo, caso o leitor tenha ficado com esta pergunta a ecoar na cabeça.

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