O jornalista Nacho Carretero dedicou dois anos do seu tempo e fundos próprios para desvendar a rede social que constitui o motor económico dos nossos vizinhos do Norte da Península: o contrabando na Galiza, uma cultura centenária que se vai adaptando às necessidades de cada época. A extensão da pesquisa levou a um livro, “Farinha”, que o poder politico local conseguiu proibir em Espanha. Agora editado em Portugal  pela Saída de Emergência, serviu de pretexto para uma conversa com o autor.

Nacho, esta pesquisa foi muito longa, com certeza. São 284 páginas carregadas de informação. Durante quanto tempo trabalhou no livro?

O livro fala de uma realidade da terra onde nasci, então é uma investigação em que eu já sabia por onde queria ir. Quando comecei a reunir as informações e a pesquisar na hemeroteca, já sabia do que precisava. Ainda assim foi um processo longo, um trabalho intenso, porque se refere a muitíssimos anos e utiliza muita informação. No total foram dois anos a escrever o livro, mas era uma época em que trabalhava como repórter free lance, então não lhe podia dedicar cem por cento do tempo – sobretudo na parte final, em que tinha de trabalhar todas as noites.

O trabalho não foi financiado?

Não, não foi, porque a editora era pequena que não podia pagar-me dois anos de trabalho.

Soube que o livro foi proibido em Espanha.

O livro saiu no final de 2015 e foi proibido este ano. Por acção de uma das pessoas que aparece no livro, Alfredo Bea Gondar, ex-alcaide de uma cidade da Galiza que se viu envolvido numa operação anti-droga. A referencia é muito pequena em comparação com as operações maiores. Mas ele achou que afectava a sua honra e então decidiu pedir uma medida cautelar para retirar o livro de circulação. Quando me disseram, achei que era impossível, um pormenor sem importância. Mas a juíza decidiu assim.

créditos: Paulo Rascão | MadreMedia

Só para que fique registado: o que está escrito é que a operação policial descobriu que um carro registado em nome de Bea Gondar foi usado para transportar 3oo quilos de cocaína. Gondar era filiado no Partido Popular e tinha sido presidente da câmara de O’Grove. Foi processado e absolvido já no Supremo Tribunal.

Ele realmente foi processado e absolvido. No livro eu não digo que foi condenado.

Se tivesse sido condenado já não se poderia queixar de aparecer no livro.

Mas eu digo isso. O que acontece é que na sentença de absolvição há factos provados, que eu explico. E também falo da absolvição. É difícil de entender.

O livro foi retirado do mercado, em Espanha?

Totalmente, está proibido de ser impresso, distribuído e vendido.

E vendeu bem, antes da proibição?

O livro estava a ir bem, já tinha vendido quase 40 mil exemplares. Nem precisávamos do marketing provocado pela proibição...

Tivemos uma situação parecida aqui, no “caso Maddie”, em que um livro escrito pelo polícia que tinha feito a investigação foi proibido por ordem judicial iniciada pelos pais – que não foram considerados culpados. Mas é muito raro isso acontecer. Normalmente os tribunais consideram que o que é publicado está dentro da liberdade de se dizer o que se quer.

Em Espanha, desde que se instaurou a democracia, em 1975, só aconteceu com quatro ou cinco livros. Estou no top 5! Mas foram quase todos nos finais da década de 1970, quando as novas leis estavam a ser ensaiadas. Na minha geração é algo de inédito.

Agora, o contrabando continua, não é?

O narcotráfico, sim, continua.

O contrabando passou para as drogas porque é mais rentável? Os cigarros já não compensam... Acho que já nem há, porque o tabaco circula livremente na Europa.

Agora há contrabando no Sul da Espanha, por Gibraltar. Aí ainda se faz contrabando de cigarros.

Mas então, na Galiza, eles passaram do contrabando de peças de carro, roupas, etc. para cigarros, e depois dos cigarros para as drogas. E com o narcotráfico aumentou a violência, ou não?

Sim, aumentou, inevitavelmente.

Por causa dos colombianos?

Os colombianos são os encarregados de executar a violência. Mas o narcotráfico na Galiza não tem uma característica violenta. Não quer dizer que não haja vítimas, mas não é um aspecto marcante. É que não se trata de uma questão territorial. Os clãs da Galiza não têm território, que normalmente é o que provoca as guerras. Há negócio que chegue para todos! E também têm muito poder político e policial. Sabem manter o equilíbrio e sabem que quando há violência a policia entra com toda a força, os meios de comunicação interessam-se e isso é mau para o negócio.

Portugal também tem muito narcotráfico, mas não é para consumo interno. Somos apenas um ponto de passagem. Na Galiza é a mesma coisa?

Sim, é uma das portas de entrada da cocaína na Europa. Entram todos os anos milhares de quilos. Mas os galegos não são os proprietários da droga, apenas os transportadores. A cocaína vem da Colômbia e quem manda são os colombianos. São eles que cultivam, transportam da Colômbia e distribuem na Europa. A cocaína passa quase sempre por Madrid e daí é distribuída para toda a Europa.

É uma distribuição centralizada...

É praticamente um circuito completo de cultivo, exportação, introdução e distribuição.

Como são as leis em Espanha, actualmente? O consumo está descriminalizado?

Não está. Não é permitido consumir cocaína em público. Haxixe, há um mínimo permitido para consumo pessoal, mas também não pode ser consumido em público.

A abordagem legal às drogas que vigora em Portugal tem sido elogiada no mundo inteiro. E você, é a favor ou contra a descriminalização?

Uma pergunta complicada...

Se não quiser, não tem de responder.

Não, não é que não queira responder. É que não tenho a resposta. Não temos experiências suficientes com a despenalização das drogas para poder dizer que funciona. O exemplo que temos mais perto é a Holanda, em que durante muito tempo a marijuana e o haxixe foram legais. Mas tiveram problemas, agora estão a recuar. Contudo, há quem considere que eles provaram que a descriminalização funciona.

Agora o que sei, o que é claro para mim, é que a guerra contra o narcotráfico não está a funcionar. Não há uma solução. Há um negócio...

Acha que as drogas deveriam ser despenalizadas porque assim os traficantes não teriam interesse em negociá-las? Porque a droga é muito barata e o que a faz cara é ser ilegal.

Nesse aspecto não sei se faria diferença. As redes são grandes empresas que têm todos os meios para as distribuir. Se amanhã se tornassem legais seriam empresas legais, sem constrangimentos.

São muito esclarecedoras as suas revelações sobre o conluio entre os partidos políticos - os políticos - e os traficantes. 

Depende do alcance do poder do fenómeno criminal. Quando o poder criminoso é muito grande, os políticos andam ali por perto. Porque há dinheiro. Então, o que aconteceu na Galiza foi que os primeiros contrabandistas, e depois os contrabandistas de tabaco, eram pessoas com muita influência e muito poder, e a sociedade, os vizinhos, não os viam como fazendo algo negativo. Viam-nos como boa gente que criava riqueza e dava emprego. Eram admirados. Os políticos viam isso e queriam estar associados a eles. Mesmo quando a situação passou do contrabando para o narcotráfico. Os políticos sabiam que esse conluio com os traficantes lhes dava votos e a simpatia dos eleitores. Chegou ao ponto que na Galiza temos políticos que foram contrabandistas e narcotraficantes, e partidos que foram financiados pelo dinheiro do narcotráfico.

Tanto à esquerda como à direita?

Todos. O que se passa é que normalmente quem estava no poder na Galiza era o Partido Popular, e o que os narcotraficantes queriam era estar perto do poder. Eles não têm cor política.

É interessante porque no Brasil, sobretudo no Rio de Janeiro, é a mesma situação. Os narcotraficantes são bem vistos porque financiam cresces, ajudam na doença, dão apoio social...

Apoiam equipas de futebol...

No Rio, as Escolas de Samba... Você diz – e é verdade – que na Galiza era a única maneira que eles tinham de fazer dinheiro. É uma região sem muitos recursos naturais.

O problema é mais a longo prazo. Diz-se é que é uma economia artificial, paralela à economia real. Isso afecta a economia real porque muitas empresas servem apenas para branquear dinheiro e encobrir o tráfico. A economia real não pode competir com os mesmos investimentos.

Hoje em dia, na costa galega, ainda há muitíssimos negócios, hotéis, restaurantes, lojas, que vêm do dinheiro do narcotráfico. Ainda é um problema muito grande na Galiza mas ninguém parece preocupado com isso, nem os políticos, nem os vizinhos. Ainda há uma certa tolerância com as pessoas que se dedicam a esta actividade porque dá muitíssimo dinheiro.

créditos: Paulo Rascão | MadreMedia

Portanto o que você diz é que esta situação não vai acabar.

Não vai acabar e não é uma questão da Galiza, da Espanha ou de Portugal. O narcotráfico é global, internacional. A Galiza é uma parte, uma porta de entrada. Pode-se acabar com esta porta de entrada, eles procuram outra. Desde que haja procura, pessoas que queiram consumir droga, há tráfico.

Negociar com droga, que é um produto de consumo como tantos outros, que foi declarado ilegal por razões de saúde. Mas há outros produtos com implicações na saúde que são legais. Porque uma coisa é a legalidade, outra coisa é a ética. Por exemplo, o álcool foi ilegal nos Estados Unidos e no entanto não se pode dizer que fosse anti-ético comerciá-lo ou consumi-lo.

Sim, desde que não se mate ninguém. Uma pessoa droga-se se quiser.

Eles são comerciantes...

Exactamente. As mães galegas, quando viam os seus filhos caírem na droga, não culpavam os traficantes por isso. É um problema de saúde pública, elas não pensavam no lado jurídico, era um conflito.

Os opiáceos não estão incluídos?

Também entravam, mas era por outros canais, que lidavam com quantidades mais pequenas, outro tipo de distribuição. Curiosamente, eles consideravam a heroína como uma droga, enquanto a cocaína e o haxixe não eram vistas como drogas.

A heroína é muito pior em termos de saúde. Sabe o que está a acontecer nos Estados Unidos...

Sim, têm um grande problema. Com os opióides, que são sintéticos. Também lhes falta, um sistema de saúde... Quando acabam o tratamento com os opióides precisam de continuar e passam para a heroína.

A questão é que os opióides, a oxicodona são mais caros do que a heroína. Portanto eles começam com os opióides e depois passam para a heroína. No ano passado morreram cerca de 60 mil pessoas de overdose nos Estados Unidos.

É uma epidemia. Em Espanha e em Portugal, na década de 1980 também foi grave.

Aqui, graças a uma abordagem com bom senso, o consumo baixou muito. 

Em Espanha também. Agora há mais informação, mais educação e mais possibilidades para os novos. Dantes os jovens não viam saídas na vida, mas agora há mais emprego. Alem disso dantes as pessoas não tinham informação sobre os efeitos da heroína.

Por outro lado, acho que a heroína tem mais a ver com a maneira de ser dos portugueses do que a cocaína, porque a heroína é muito depressiva, como nós temos tendência para ser. A cocaína é uma viagem de poder, de acção. Mas o consumo continua.

Na Galiza também, como regra é muito fácil adquirir cocaína. Vem da Colômbia e depois tem ligações com o Norte de Portugal – há uma conexão permanente.

Dizem que a Galiza gostaria de fazer parte de Portugal; é verdade?

Sim, há uma parte da população que é nacionalista galega, independentista. E há uma corrente  dentro dos independentistas que é lusista, portuguesista. Preferem pertencer a Portugal por ligações culturais, históricas...

Pois, a Galiza fazia parte da área política que o Condado Portucalense.

Na realidade a fronteira actual é administrativa, são todos vizinhos e amigos.

Li algures que a divisão ocorreu por causa de uma rivalidade entre Santiago de Compostela e Braga, ou Coimbra por causa das relíquias do São Vicente. Santiago tinha o corpo do santo e Braga tinha a cabeça, ou vice versa. Mas depois o corpo foi roubado e apareceu em Santiago. O resultado foi que Santiago tornou-se o grande centro de peregrinação da Península.

Pois a fronteira é política e não cultural. A língua separou-se, o galego aproximou-se do castelhano e afastou-se do português. Mas a língua original era a mesma.

E o contrabando também ocorre dos dois lados da fronteira política...

O contrabando está mais institucionalizado na Galiza por tradição e também porque geograficamente a costa da Galiza é menos povoada e tem enseadas e portos naturais que facilitam o desembarque.

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