Com cartazes e mensagens escritas como "Jogos da Exclusão" e "Estado assassino", 500 manifestantes chegaram a um quilómetro do Maracanã, cenário da abertura das primeiras Olimpíadas da História na América do Sul. No final do protesto foram dispersados pela polícia com gás de pimenta.

O protesto foi liderado por manifestantes vestidos de preto, encapuçados ou com os rostos cobertos com máscaras antigas e lenços, e eram escoltados por policiais com uniformes de combate e à cavalo, enquanto helicópteros sobrevoavam a área. Mais cedo, três mil pessoas tinham se reunido pela manhã na praia de Copacabana, também para se manifestarem contra Temer.

"Uma oportunidade perdida"

"Esta Olimpíada é uma oportunidade perdida, um sonho roubado. Não há legado para a população nem legado para o meio ambiente", disse o manifestante Pedro Cunha, enquanto queimava uma camisa verde e amarela da selecção brasileira pouco antes do confronto com a polícia.

À medida que se deslocavam, vários manifestantes iam batendo em lixeiras e postes de luz com paus. Pelo menos um manifestante foi detido.

"Calamidade Olímpica", dizia um imenso cartaz fazendo um jogo de palavras com a frase "Cidade Olímpica". "Esta festa não foi feita para o povo, os eventos estão longe de onde vive a população pobre. Estou a protestar pela precariedade de nossas escolas públicas e pelos salários que recebemos em prestações", disse à AFP o professor Guilherme Moreira Dias, de 38 anos, que trabalha numa escola de ensino básico em Duque de Caxias, um dos locais mais pobres do Rio.

Andrea Pavoni, académico italiano de 35 anos que vive no Rio, onde estuda geografia urbana, ajudou a organizar o protesto. Na sua opinião, os Jogos "aceleraram o processo de divisão da cidade numa parte para o ricos e outra para os pobres, sem educação nem serviços".

"Uma fachada" "Não às Olimpíadas", "Fora Temer" e "Fora Todos", estavam escritos em alguns dos cartazes que o grupo mostrava em frente ao luxuoso hotel Copacabana Palace, a alguns passos do estádio olímpico de vólei de praia, bem na frente de centenas de turistas e elementos das delegações de todo o mundo.

"Queremos aproveitar agora que a atenção está no Brasil para denunciar o que está a acontecer, como estamos a caminhar para uma ditadura", disse Ubiratan Delgado, um engenheiro de 59 anos. Um cartaz mostrava Temer vestido como um irónico Batman, aproximando um machado da cabeça de um operário brasileiro. "Estão a fazer as Olimpíadas num momento que as pessoas estão a viver muito mal. A Olimpíada é uma fachada, um espectáculo. Não representa a realidade do Brasil. Querem mostrar tudo lindo e perfeito", disse Ricardo Parente, um psicólogo de 59 anos.

Protestos também em São Paulo

Também em São Paulo, a Polícia Militar reprimiu, com cassetetes e gás pimenta, manifestantes que iniciaram uma caminhada na Avenida Paulista para protestar contra a realização dos Jogos Olímpicos no país, tendo sido detidas 35 pessoas.

Desde o início que o protesto, iniciado ao final da tarde, foi acompanhado por policiamento ostensivo, com carros, motos e elementos da Tropa de Choque, escreve a Agência Brasil.

Numa longa faixa que os manifestantes exibiam lia-se: "Juventude combatente contra o massacre olímpico". Imagens televisivas mostram o uso da força contra alguns dos participantes no protesto e dezenas deles sentados no chão cercados pela polícia. A polícia justificou que os manifestantes lançaram pedras e paus contra os agentes e não definiram um itinerário.

O protesto decorreu pouco antes do início da cerimónia de abertura dos Jogos Olímpicos 2016, no Rio de Janeiro.

A organização do evento no país tem sido alvo de vários protestos, por ocorrer numa altura em que o Brasil enfrenta uma profunda recessão e uma taxa de desemprego de 11,3%.

Dilma Rousseff: "Sou a gata borralheira"

Muitos dos manifestantes presentes nos protestos do Rio estavam vestidos de vermelho, a cor de Dilma Rousseff, do PT, e do seu antecessor Luiz Inácio Lula da Silva. Dilma pode perder o seu mandato de forma definitiva no final de agosto. Se isso acontecer, Temer governará até o dia 31 de dezembro de 2018.

A presidente suspensa decidiu não aceitar o convite para assistir a cerimónia de abertura, porque não quer ser a "gata borralheira" dos Jogos. "Não acredito que seja apropriado que a presidente afastada assista a uma cerimónia cujo mestre de cerimónias é um presidente ilegítimo. Nesta história dos Jogos, eu sou a gata borralheira, convidam-me para a festa, mas tenho que ir embora antes", disse recentemente ao jornal chileno La Tercera.

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