Era a época "das perseguições" atribuídas às forças governamentais da Frente de Libertação de Moçambique (Frelimo) e lembra-se de quatro casos em que os colegas de partido nunca mais apareceram.

Ele, chefe da delegação distrital da Renamo, não queria ser o quinto e passou um ano e cinco meses a viver noutras cidades do centro do país.

Corria nas bocas da cidade que ele dava apoio logístico à base de Dhlakama, escondida ali ao lado, na Serra da Gorongosa, perto, mas quase inacessível.

Era falso, garante, uma mentira que atribui às estratégias daquela época de desassossego.

"Podemos dizer que isso acabou", conta hoje à Lusa, com 56 anos, à porta da sede distrital da Renamo de Dondo, para onde regressou.

Tal como voltou o intenso movimento de camiões de mercadorias, ali mesmo em frente, na estrada nacional 6.

Até ao cessar-fogo declarado por Dhlakama no final de 2016, havia ataques frequentes a quem circulava, assim como na linha ferroviária de Sena, que corre paralela à estrada, com a Renamo e as forças armadas de Moçambique a trocarem acusações sobre quem rebentou com o quê.

Agora, a paz torna-se um costume, mas "todo o cuidado é pouco", diz Bernardo, mesmo depois de no último ano ter visto o líder da oposição e o Presidente da República, Filipe Nyusi, cumprimentarem-se alegremente na serra, na residência de Dhlakama.

"Se Afonso Dhlakama morreu nas matas, é porque não tinha tanta confiança" assim, para sair definitivamente do seu reduto, deduz.

Esta suspeição não quer dizer que os militantes da Renamo não queiram sossego, explica Luísa Jequecene.

"Nós todos, moçambicanos, queremos paz", sublinha, mas a confiança vai levar tempo a ficar forte, sobretudo para quem, como ela, conheceu o líder enquanto comandante da guerrilha, no meio da Serra da Gorongosa, em 1985.

Luísa tinha 16 anos quando a sua terra, Cheringoma, foi tomada pela Renamo, entrando no mapa das "zonas libertadas" e levando-a a ela e a outras raparigas para o destacamento feminino.

Diz que teve o consentimento dos pais, diz que continuou a frequentar a escola nas bases da guerrilha - com palhotas, sem bloco - e recorda as sessões em que Dhlakama lhes explicava que a guerra era uma libertação face ao regime marxista da Frelimo.

As armas tinham de estar sempre a postos: fuzis de assalto AKM, bazucas e morteiro de 80 e 60 milímetros, um inventário na ponta da língua do capitão da Renamo, Pedro Francisco, 50 anos.

Ora havia "emboscadas a estradas e nem era preciso muito armamento", ora ataques contra estruturas "do Governo da Frelimo".

Hoje, com seis filhos, a guerra é outra: "uns estudam e outros já concluíram a 12.º classe [de escolaridade] há quatro anos, mas não conseguem emprego".

"Não há emprego. É o nosso Governo que faz isso. Não há nada para fazer. Sou eu que tento suportar os meus filhos. Esse é o problema de Moçambique", refere, às portas de um novo ciclo eleitoral no país.

Afonso Dhlakama morreu a cinco meses das eleições autárquicas em Moçambique, mas isso não belisca a ambição da Renamo de conquistar o município de Dondo, que considera ser um bastião histórico do partido, a 30 quilómetros da cidade da Beira e a caminho da Gorongosa.

"Se continuar nas mãos da Frelimo é porque têm uma máquina de roubar. São grandes ladrões das eleições", diz Bernardo José.

A morte do líder, tal como aconteceu, já foi um marco.

"A morte do presidente Dhlakama foi uma vitória para nós. Se tivesse tombado na guerra, era uma derrota".

A paz é o ponto final de todas as conversas à porta da sede distrital da Renamo, em Dondo, colocado como quem tem esperança de que, mesmo sem o líder que a negociava, o partido conseguirá levar a bom porto os entendimentos com o Presidente da República.

Luísa tem cinco filhos, dois rapazes e três raparigas, uma mão cheia de razões para acreditar num processo político de pacificação e desenvolvimento em Moçambique.

Para uma das futuras mulheres lá de casa, a intuição de mãe reserva um sonho: que um dia se torne militar, tal como o foi Luísa.

"Ainda não lhe falei, mas escolhi o meu sonho para ela", admitindo que seria um símbolo da confiança reestabelecida ter uma filha militar moçambicana, na mesma força que a mãe combateu nas matas com as armas da Renamo, agora definitivamente unificada.

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