Na terça-feira ao início da noite, a aviação russa investiu nesta pequena cidade de 25 mil habitantes nos arredores de Jitomir. A primeira detonação ocorreu junto a uma fábrica de papel, arrancando as suas janelas, bem como as de um edifício administrativo, no mesmo largo, dos serviços de saúde.

Depois, testemunhas descrevem à Lusa a passagem da aviação, cerca das 20:15, que também bombardeou e atingiu o tabuleiro da pequena ponte sobre o rio Irsha, e só não dividiu a cidade em duas porque os pilares aguentaram e ainda é possível passar a pé.

Os aviões de combate visaram logo a seguir o centro de recrutamento militar e, numa nova passagem, voltaram a bombardear a praça central, danificando o edifício da sede do concelho e causando estragos severos numa igreja ortodoxa. Ao fim do dia, segundo as autoridades locais, o ataque, que atingiu ainda uma zona residencial, provocou sete mortos, incluindo duas mulheres e uma criança.

O padre Georgy já estava a dormir no seu quarto no piso inferior da igreja Suyeto Pokrousky. Na divisão ao lado, Zinayda rezava, quando as fortes detonações destruíram parte da cúpula de telhas esverdeadas do templo e o fogo entrou pelas janelas. A energia da explosão foi tão forte que todo o edifício se deslocou alguns centímetros.

Ambas as divisões mantêm, quatro dias depois, escombros no chão, ao lado de livros empilhados, entre imagens religiosas nas paredes, e utensílios do dia-a-dia como um micro-ondas. À entrada do templo, dois homens tentam lutar contra a desolação e reparam um pórtico, outros limpam o interior, vigiados por santos e mártires reproduzidos em pinturas e ícones, resistindo ainda ao frio, que se introduz pelos buracos no telhado abertos pela bomba.

“Não foi a primeira vez”, comenta o padre Georgy, um homem de 67 anos, sereno de longa barba branca, que traz nas mãos três pesados fragmentos do engenho explosivo que caiu dos céus. Recorda que já em 2015 a igreja tinha sido alvo de um ataque. Depois, aponta para uma sepultura, que se mantém resplandecente, entre os destroços: “É do padre Vasyl Ivanovich, fundador desta igreja.

Sentindo que lhe compete seguir esse trabalho, quer começar, antes de tudo pela recuperação da igreja, manter as orações, nem que seja nas caves e rezar: “Pela paz, pelos nossos militares e pela vitória da Ucrânia”. Na verdade, o sacerdote vê neste bombardeamento um sinal divino: “Deus quis deixar-nos vivos e isso deve dizer-nos alguma coisa.”

A rotina desta cidade tem sido feita do som de detonações ao longe, de posições da antiaérea e artilharia ucraniana, de ataques da aviação russa e dos gritos recorrentes das sirenes.

“Andamos há cinco dias seguidos nisto”, desabafa Alexander Sylylo, presidente da Câmara de Malyn, contemplando a ponte destruída pela aviação russa, e consciente da proximidade da frente de batalha, em “zonas de grande atividade militar”.

Ela é visível no movimento de colunas de camiões, na proliferação de ‘checkpoints’, alguns intransponíveis para civis, blindados ocultos na floresta e uma banda sonora regular de estrondos proveniente das zonas de combate.

“É incerto onde estão os russos”, afirma o autarca de Malyan, referindo que Ivankiv, a poucas dezenas de quilómetros, está nas mãos do inimigo, num corredor iniciado na fronteira com a Bielorrússia e que segue a sua rota por Chernobyl e sua central nuclear, e cujo avanço terá continuado na última madrugada. Está cada vez mais perto, em Morozyvka, de onde há relatos, na madrugada de hoje, de um ataque intenso contra casas e refugiados.

“Sabemos que estão em causa cerca de 300 pessoas e algumas conseguiram fugir”, refere Tayana, funcionária dos serviços de saúde da cidade. “Sabemos também que os russos estão muito perto, mas estamos a tentar organizar as coisas e trazê-los para aqui”, acrescenta, junto à porta do edifício onde mantém o seu escritório, sem janelas desde as explosões de terça-feira.

Apesar da proximidade das forças invasoras, Alexander Sylylo aponta que estão ainda mais perto os militares ucranianos e respetivos pontos de artilharia, que se fazem ouvir dia e noite. A sua missão, enquanto cidadão e autarca, garante, é ficar: “Vou defender a minha população e dar-lhe tudo o que precisa e não há falta de nada essencial. Nasci aqui e vou ficar até ao fim”.

A conversa é interrompida. Mais um sinal de alarme. Este soa da sirene na fábrica de papel. Há outra na praça central e ainda mais uma junto do hospital. O som que emanam corresponde a três níveis de ameaça. O mais baixo e intermédio já são recebidos com indiferença, mas o que acaba de se ouvir é o mais alto. “Para os abrigos”, ordena o presidente da Câmara.

O mais próximo fica justamente na cave do edifício onde trabalha Tatyana, cujo acesso se faz por uma pequena porta metálica que conduz, em dois degraus, a uma pequena assoalhada de chão de cimento. No interior está acesa uma vela, que ilumina garrafões de água e pacotes de bolachas numa prateleira cavada na parede, quatro camas velhas e cobertores.

Numa delas deita-se Denys, noutra Maryna, ambos expressando o cansaço ao fim de mais duas semanas desde a invasão russa e a angústia de não terem para onde ir. “Só sei que vou ficar na minha terra, estou farta de me esconder”, diz a mulher de 50 anos, antes de a sirene se silenciar 15 minutos mais tarde, desta vez sem ataques.

Além da intensa movimentação militar na cidade e estradas vizinhas, e do nervosismo demonstrado num ‘checkpoint’, que reteve a equipa da Lusa, devidamente acreditada, quase uma hora até à chegada de sete elementos da polícia para se certificarem de que não se tratava de agentes pró-russos infiltrados, é ainda visível a passagem rápida de ambulâncias para o hospital.

A porta é escoltada por militares ucranianos em trabalho, acompanhados por outros mais descontraídos e por pessoal de saúde, que enfrentam as temperaturas geladas para fumar. O acesso é vedado aos jornalistas, tanto pelo diretor da unidade como pelo oficial do Exército nela destacado, um alegando “excesso de trabalho”, outro “informação confidencial”.

Um médico partilha, porém, imagens guardadas no seu telemóvel de militares ucranianos que diz terem dado entrada no Hospital de Malyan, em estado bastante grave, quando as autoridades de Kiev se mantêm renitentes em divulgar o número baixas entre os seus efetivos. No mesmo telemóvel, está ainda gravado um suposto interrogatório a dois prisioneiros russos, em tom áspero e ameaçador, e que terão sido transportados para outro local.

Junto do hospital, continua a ecoar o som dos estrondos, à cadência da artilharia ucraniana ou talvez já seja russa. “Este é um Grad (lança-rockets) dos nossos”, assinala um dos militares mobilizados para a defesa de Malyan, a cidade que não dorme há cinco noites. Na praça central, junto à cratera do último bombardeamento, ergue-se o mastro da bandeira nacional, parcialmente rasgada pelos fragmentos da explosão e, que de forma deliberada ou não, está a meia-haste.

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