“No olho do furacão. Vanguarda na Ucrânia, 1900-1930” é o título desta mostra que ficará até 30 de abril de 2023 no Museu Nacional Thyssen-Bornemisza, com um total de 70 obras, segundo informação da organização espanhola, enviada à agência Lusa.

Por seu lado, o diário britânico “The Guardian”, revela, na edição 'online', que 51 obras de arte raras foram transportadas secretamente em dois camiões a partir da capital da Ucrânia, horas antes de começarem os bombardeamentos de mísseis russos em várias cidades do país alvo da invasão, incluindo Kiev.

O propósito é apresentar uma visão completa da arte ucraniana das vanguardas das primeiras décadas do século XX, com as diferentes tendências artísticas, desde a arte figurativa ao futurismo e o construtivismo, segundo informação do museu.

A exposição, organizada cronologicamente, inclui obras dos principais mestres da vanguarda ucraniana, como Oleksandr Bohomazov, Vasyl Yermilov, Viktor Palmov e Anatol Petrytskyi.

A missão de atravessar o país com as peças, passando a fronteira com a Polónia e mais 3.000 quilómetros através da Europa até Madrid, para serem expostas, foi considerada extremamente perigosa, mesmo em contexto de guerra, refere o jornal The Guardian, devido à destruição de várias infraestruturas, incluindo o fornecimento de eletricidade.

Por seu turno, o Museu Nacional Thyssen-Bornemisza indica que a exposição reunirá peças de pintura, desenhos, colagens e cenários de teatro, para divulgar “um capítulo essencial, mas menos conhecido da arte de vanguarda ocidental”.

O The Guardian cita a colecionadora de arte Francesca Thyssen-Bornemisza, indicando que os camiões que levaram as obras de arte “fizeram-no em total secretismo para proteger o maior e mais importante transporte de património cultural ucraniano que deixou o país desde o início da guerra”, em fevereiro deste ano.

Este projeto teve o apoio do presidente ucraniano Volodymyr Zelensky e do ministro da Cultura, Oleksandr Tkachenko, sublinha o museu.

O desenvolvimento das vanguardas na Ucrânia aconteceu num contexto sócio-político complexo: colapsaram impérios, decorreu a I Guerra Mundial e as revoluções de 1917, seguindo-se a Guerra da Independência (1917-1921), e a posterior criação da Ucrânia soviética.

A repressão estalinista contra os intelectuais ucranianos levou ao homicídio de dezenas de escritores, artistas e diretores de teatro, sobretudo por execução sumária, enquanto a fome matou milhões de cidadãos do país, entre 1932 e 1933, recorda a organização da exposição, em Madrid.

“Apesar deste trágico contexto histórico, a arte ucraniana viveu nesses anos um verdadeiro renascimento e um período de experimentação artística”, que a mostra pretende recuperar.

O museu irá acolher um amplo percurso artístico, desde as pinturas neobizantinas dos seguidores de Mykhailo Boichuk e das obras experimentais dos membros da Kultur Lige, que tentaram promover a sua visão da arte contemporânea ucraniana e iídiche, até às peças de Kazymyr Malevych e El Lissitzky, artistas por excelência da vanguarda internacional que trabalharam na Ucrânia e deixaram uma marca significativa no desenvolvimento da cena artística daquele país e no Modernismo europeu.

Também estarão representados artistas que se tornaram figuras de renome internacional, depois de terem nascido e começado a trabalhar na Ucrânia, como Alexandra Exter, Wladimir Baranoff-Rossiné e Sonia Delaunay, que viveu alguns anos em Portugal, convivendo com artistas como Amadeo de Sousa Cardoso e Almada Negreiros.

O Museu Thyssen-Bornemisza assegura, na informação, que esta é a exposição mais completa já realizada da arte ucraniana de vanguarda, contando com empréstimos de instituições como o Museu Nacional e do Museu do Teatro, da Música e do Cinema da Ucrânia, com os quais diz querer “celebrar o dinamismo e diversidade da cena artística ucraniana, enquanto salvaguarda o património do país durante a atual intolerável ocupação do seu território por parte da Rússia”.

Indica ainda que, depois de Madrid, a exposição – que também inclui obras cedidas por colecionadores privados e tem como comissários Konstantin Akinsha, Katia Denysova e Olena Kashuba-Volvach - irá a seguir para o Museu Ludwig, em Colónia, na Alemanha.

“Trazer estas peças com segurança não decorreu sem riscos, mas a prioridade de o fazer prevaleceu, porque os militares russos demonstraram um contínuo desrespeito pela convenção internacional de Haia”, disse ainda ao jornal britânico Francesca Thyssen-Bornemisza.

A colecionadora e mecenas cultural acrescentou que “as tropas russas têm instigado o roubo massivo em todos os territórios ocupados na Ucrânia, onde foram destruídos mais de 500 edifícios e monumentos do património cultural”.

“Esta exposição vai ser uma poderosa lembrança de que a História se repete e que estamos muito perto de um novo desastre”, alertou, comentando que a Rússia “não pretende apenas roubar território, mas também controlar a narrativa do património cultural ucraniano”.

A exposição vai abrir com uma mensagem de vídeo do presidente Volodymyr Zelenskiy, e está previsto um simpósio sobre o papel da solidariedade cultural em tempos de crises, ainda segundo o The Guardian.

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