Esta é a história do Paulo. Até 2006, é a história dele. Depois desse ano, é a história do Paulo e da Filipa, a mulher por quem se apaixonou e com quem veio a casar. E seria uma história de um homem e de um amor como tantas outras não fosse tudo aquilo que a torna praticamente inigualável. Ai está ela contada pelos próprios.

"Eu chamo-me Paulo Cunha." "Eu chamo-me Filipa Fernandes."

Estão os dois sentados lado a lado no salão paroquial da igreja da Póvoa de Santa Iria e olham-se nos olhos enquanto se apresentam. Ele orgulhoso, ela orgulhosa.

"Ela queria encontrar um namorado"

“Isto aconteceu em 2006 quando Nossa Senhora de Fátima veio a Lisboa em peregrinação e foi pedido a todas as dioceses que levassem uma caixa com as mensagens. Nessa altura, eu estava a fazer segurança na Nossa Senhora de Fátima e a Filipa vinha da igreja de São Félix com uma caixa com mensagens. E uma das mensagens, que eu só fiquei a saber há pouco tempo, é que ela queria encontrar um namorado. Era a mensagem dela.

Só que, entretanto, no início da procissão ela estava num sítio mau e eu ralhei com ela. Só fizemos uma troca de olhares e eu agarrei-a pelo braço e pu-la no sítio das mensagens. E isto passou-se. Nunca mais a vi.”

“Perdemos o contacto por completo”, corrobora Filipa. O sorriso que continua envergonhado não o diz, mas o olhar que continua cúmplice mostra-nos que aquela é a história deles.

Passaram-se uns meses, mas, como eles dizem, estava escrito.

“Em novembro do mesmo ano, em 2006, no dia 24 de novembro, quando houve o concerto de Natal da Nossa Senhora da Saúde na igreja de São Domingos, num dia que choveu torrencialmente em Lisboa, aparece ela com a mãe. Chorava que nem uma criança, à porta principal.", relata Paulo.

“Entrei em pânico porque vi uma inundação muito grande. Ele e os colegas andavam a tentar limpar na parte de trás e na parte da frente da igreja. Eu fui à parte da frente e entrei em pânico, porque estava tudo inundado. E ele depois chegou ao pé de mim e perguntou com quem é que eu estava. E eu disse que estava com a minha mãe. Ele emprestou-me a camisola, acalmou-me e disse-me: então anda lá que eu vou levar-te à tua mãe e vou arranjar-te uma garrafinha de água para te acalmares.”, continua Filipa.

E lembrava-se dele? É que esse é um pormenor que faz toda a diferença - sem memória, não seríamos quem somos, escreveu um dia o nosso Nobel da Literatura.

“Fixei-o”, quase que sussurra mais do que diz, mas sem que falte firmeza ou sobre hesitação.

E ela disse-lhe que eu me chamava Paulo

“Nessa altura, quando eu lhe encostei a cabeça para a calmar, disse-lhe: ficas aqui com a tua mãe enquanto eu vou buscar uma garrafa de água. Falei com um coronel do exército e disse-lhe o que é que se passava. E ele disse, não levas nenhuma garrafa de água, não levas nada, vais lá buscar a menina, trá-la para aqui para o pé de nós para ela comer e beber alguma coisa. E eu fui buscá-la. Ela chegou e estava com vergonha e o coronel disse-lhe: tem de perder a vergonha porque quando eu estalar o dedo isto que está aqui desaparece tudo, que o exército come tudo. Entretanto, uns rapazes lá do exército chamaram-na para o pé deles, ela comeu, bebeu, começou o concerto. Eu estava a fazer vigilância e no final toda a gente saiu menos ela e a mãe. Eu como estava cheio de calor, tirei o casaco e como as vi perguntei se não se importavam que eu deixasse o casaco ali com elas. A mãe dela diz-lhe assim: ó Filipa, ele tem aí a chapa com o nome no casaco, vê lá como se chama. E ela disse-lhe que eu me chamava Paulo. Arrumei tudo e, no final, a mãe perguntou-me como é que eu ia para casa. Eu disse que tinha de apanhar um táxi, porque já não havia autocarros. Não, disse ela, vamos primeiro beber um café todos e depois, como eu tenho de apanhar um táxi, você diz onde mora e eu faço o desvio, deixo-o lá e sigo. E isso aconteceu. Eu na altura estava num quarto no Jardim Constantino. Apanhámos o táxi na Praça da Figueira, quando chegámos à minha porta eu ia para pagar o táxi e a mãe dela não deixou. Ainda antes de apanhar o táxi, trocámos contactos, mas quando saí do carro a Filipa diz que depois elas viraram para o lado da Portugália e que até virarem a esquina ela foi sempre a olhar para trás.”

Foi como nos filmes.

Passaram-se mais duas semanas. O Paulo não ligou, a Filipa não ligou, e um dia a mãe dela perguntou-lhe. O Paulo disse-te alguma coisa? Não, mãe, ele não disse nada. Então liga-lhe e se ele quiser tomar um café connosco que venha.

[este é o exato momento em que somos interrompidos por uma menina que avisa Paulo que há pessoas a pedir para tirar cafés]

“Ela ligou e eu disse sim. Isto andou duas ou três semanas e ao fim desse tempo eu disse à mãe: ó Dona Ana, eu não sinto só uma amizade pela sua filha, sinto algo mais. A Filipa disse para a mãe: eu faço minhas as palavras do Paulo. A mãe só disse, se vocês fizerem uma boa cama, numa boa cama se deitam. Começámos a namorar. Estamos juntos desde 2009 e casámos em 2010 na festa de Natal da Comunidade Vida e Paz.”

Paulo era um morto-vivo

Antes dos dias felizes, Paulo teve outra vida. Durante 13 anos foi, nas sua próprias palavras, drogado e sem-abrigo. Até que um dia, em 2004, a vida literalmente parou.

“Quando a comunidade Vida e Paz me encontrou nessa noite na rua, eu estava com 40 graus de febre, deitado no chão, à porta de Santa Apolónia, tremia que nem varas verdes. A fundadora da comunidade e um médico estranharam eu não ter ido às carrinhas e deram comigo assim e levaram-me para o Hospital de Santa Maria. Quando cheguei ao hospital estava em estado de coma alcoólico profundo, com os olhos revirados, a espumar pela boca. Estive ligado à máquina dois meses e meio. Ao fim de dois meses e meio chamaram a direção da comunidade e disseram que a máquina tinha parado e que iam assinar a certidão de óbito para tratar do funeral. 

Quando o médico acaba de assinar a certidão de óbito, eu acordo e só lhe digo assim: doutor, está ali a fundadora da comunidade, está ali o médico da comunidade e até está ali o senhor da agência funerária. E voltei a adormecer, só acordei no noutro dia que foi quando comecei a recuperar. E o médico apanhou um valente susto. Tanto que hoje ainda diz que tem assinado muita certidão de óbito mas como a minha não.”

Nada voltou a ser igual. A vida fez por Paulo mas Paulo também fez pela vida. Afinal, não é todos os dias que se volta de uma morte assinada.

“Isto mudou muito a minha vida. Com ajuda da comunidade e com a minha força de vontade, fui fazer a recuperação, a frio, saí de lá tive logo o meu primeiro trabalho, depois conheci a minha esposa, depois entrei para a polícia em 2008, como colaborador, e hoje sou chefe de gabinete de imprensa e assessor do presidente do sindicato dos profissionais de polícia”.

Hoje, Paulo tem uma vida. Que seria só normal se tivesse calhado a outro qualquer - casou-se, tem um emprego, pertence a uma comunidade. Mas para um homem que um dia morreu e no outro dia regressou à vida, tudo é diferente.

créditos: MadreMedia | Paulo Rascão

Agora Paulo quer ir a Fátima. A pé. Sem dormir

Conta o seu propósito no exato dia que se completam oito anos desde que ele e Filipa estão juntos.

“Hoje é um dia também muito feliz, porque faz oito anos que estamos juntos”, diz ele.

“Faz hoje oito anos que ele me tirou de casa da minha mãe”, diz ela.

Que promessa, que penitência, que sacrifício o leva agora Fátima. Nenhum dos três. Uma quase-maratona. Mais de quatro dias a pé e sem dormir. Na realidade vai pelo desafio - há uma espécie de aposta entre grupos de Facebook com um prémio pensado e tudo - mas mais qualquer coisa.

“Como é o centenário, quero fazer isso para ver como estou de forças. E que consiga com este objetivo que as pessoas vejam, aqueles que estão na rua, que podem estar onde eu estou e podem fazer o que eu vou fazer”.

O grupo de Paulo junta 65 pessoas. Querem sair do Forte da Casa às 7 da tarde de dia 9 de maio e esperam chegar a Fátima ao meio dia de dia 12. Só dormem depois do dia 13. “Como temos a força da Nossa Senhora estamos esperançados que vamos conseguir”.

Filipa não vai, mas confessa a sua devoção.

“Nós temos uma devoção muito grande. Casámos a 19 de dezembro e a 20 de dezembro fomos levar o bouquet de noiva a Fátima. Tanto o fato dele como o meu vieram de Fátima e ele tem lá a madrinha de casamento”.

“A nossa roupa de casamento foi oferecida pelas servas de Nossa Senhora de Fátima, do Santuário, que tiveram muito gosto que nós fossemos lá escolher. Há quem ofereça lá e eles souberam das nossas dificuldades e tiveram muito gosto em nos oferecer, abençoadas pelo reitor e pelo bispo de Leiria”.

A conversa acaba e Paulo está com lágrimas nos olhos. É um homem grande, dono de um vozeirão, mas as lágrimas não escolhem género nem idade nem tamanho. Olhamos de novo para ele, olhamos de novo para eles e é difícil não pensar que histórias destas não acontecem todos os dias.

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