“Vamos em paz e que o senhor vos acompanhe”. Alverca, 07h30. Pequeno-almoço tomado… check! Malas no carro de apoio… check! Oração… check! Coloquemo-nos ao caminho. Sobe passeio, desce passeio, atravessa. Os primeiros metros são um desafio para manter unido um grupo que leva já mais de trinta pessoas. Crescemos, a cada etapa se junta um novo rosto. Com promessa, sem promessa? Não sabemos. Mas segue, de colete amarelo vibrante, talvez a marca maior de quem peregrina, rumo a Fátima.

À saída de Alverca os passeios acabam por dar linhas às linhas brancas, fronteiras ténues que separam quem caminha dos condutores que seguem - madrugadores - para o início de mais uma semana de trabalho. Ainda não se apita nem se acena. É cedo, e a pressa é grande.

Olinda vai na retaguarda, é o “carro vassoura” desta peregrinação. De passo apressado, segue olhando para trás. Não se pode perder ninguém, mas é mais do que isso. “Ó menina, olhe a bicicleta”. “Chegue aqui, tem o colete ao contrário”. “Sim? Estamos ainda na reta, falta um pouco”. “Então, dormiu bem?”. De olhar sempre atento, presença discreta, Olinda está em constante comunicação com o padre Carlos Macedo, líder espiritual e principal responsável pela caminhada. Enquanto ele lidera o caminho, ela faz por garantir que se partimos todos, chegamos todos.

As placas nos postes e muretes com setas para Fátima são alento para quem caminha. Um quilómetro a mais quando os pés somam outros tantos é sempre demais. É desse acumulado que os músculos já reclamam, não dói, mas vai moendo. Sombra, bancos e a oportunidade de uma ida à casa de banho - nem que seja só por prevenção, porque não se sabe ao certo o que reserva o caminho - motivam uma paragem nos jardins junto ao Tejo em Vila Franca de Xira. Olha-se a ponte, tiram-se fotografias, esticam-se os músculos. Os primeiros nove quilómetros estão feitos, sem euforias porque estão mais de vinte por caminhar ainda neste segundo dia, rumo à Azambuja.

Pelo caminho falam-se ainda dos temas que, não sendo “de elevador, quebram o gelo e nos unem a todos. O desenrascanço português, o empenho dos que vão para fora e dos que ficam dentro, as regras que se cumprem e se quebram, e a vida, que está difícil para todos.

A estrada nacional ficou entretanto para trás, caminha-se junto à linha do comboio e, desta feita, é de bola que se fala. António é do Sporting. O ano não foi fácil, brincamos, a última jornada também não. O músico, que vive em Genebra e veio de propósito para a peregrinação assume, mas reitera: “acho que ele deve manter o Jesus, acho que é consensual que ele percebe muito de futebol”. “Santa Maria, mãe de Deus”… é hora do terço. António desculpa-se, mas o terço é como a seleção: quando joga, para tudo. É tempo de orar.

“Ainda têm muito que andar… ainda estão no princípio”. O aceno de uma senhora do outro lado da estrada antecipava empatia, mas as palavras que o seguiram foram tudo menos animadoras. Estamos em Castanheira do Ribatejo, há muito que caminhar é certo, mas o que não é certo é lembrar disso quem caminha, sobretudo com o sol a pique, a queimar a pele e a moer os pés.

A estação de comboios de Castanheira do Ribatejo surge enfim. É preciso atravessar a linha de comboio para o outro lado. Mas os imperativos de trajeto não são mais que pormenores, são os “luxos” que ficaram em Lisboa que ajudam ao refrigério. “O senhor padre vai de elevador? Não é batota, pois não?”. O padre Carlos Macedo sorri, garante que não, há espaço para mais um. E se fosse, então estaríamos todos em dívida. As escadas rolantes aliadas a ar condicionado foram premonição do refrigério que acabaria por ter lugar ali mesmo, na forma de garrafas de água, laranjas sumarentas, chocolates, amendoins. Josué, o mais jovem peregrino deste grupo, com apenas quatro anos, distribui alegremente “bolas de neve” por aqueles que - sentados ou deitados de pernas para cima - pedem ao corpo, em silêncio ou com massagens, que tenha paciência. Vamos só a meio.

Simone, de 33 anos, missionária brasileira em Portugal há dois anos, é, tal como nós, marinheira de primeira viagem. Está a ser duro, confessa, sem perder o sorriso largo e o tom bem disposto. A ajuda surge de imediato, ligaduras aqui, compressas ali e creme. Porque peregrinar é também isto, é estar disponível para ajudar quem caminha. São eles, ali ao lado, no carro de apoio, que acenam ao passar, que carregam as malas e preparam o manjar… são eles que fazem Fátima estar “escassos” 150 quilómetros de Lisboa.

Marinheiro de “longo curso”, o padre Carlos Macedo não tarda em desafiar o grupo para voltar a rezar o terço. Não há segredo, agora “é a doer” até Vila Nova da Rainha e é preciso focar o espírito para distrair o corpo. O líder segue, incansável, o terço dá lugar a adoração. Cantam-se louvores a Nossa Senhora.

“Só faltam 100, só faltam 100”, grita-se. Há júbilo, uma placa dá conta de Fátima mais perto, a cada passo - ou, neste caso, quilómetro - mais perto.

Vila Nova da Rainha aguarda-nos com aquele que é, agora, oficialmente o “melhor arroz de carnes” de sempre. É à mesa que se recebe quem caminha, e “está tão bom”, tantas vezes repetidos.

Zélia e António Fonseca, também eles devotos de Fátima e que se costumam meter ao caminho em outubro, desvalorizam. É do cansaço e da fome, dizem. O almoço deste segundo dia de peregrinação foi oferecido pelo casal das Azenhas do Mar. “Já é costume”, dizem. Hoje nós, amanhã eles, explicam, adiantando que dentro de alguns meses serão apoiados por amigos que hoje veem partir, horas depois, rumo a Azambuja.

Sete quilómetros apenas separam Vila Nova da Rainha do quartel de bombeiros da Azambuja. Parecem 12… não, 14. Certamente 14. O Google, porém, reitera: são sete, e custam tanto. O corpo não pede, exige descanso. E o mau humor é a companhia ideal desta exigência.

Mas a rezinga é de pouca resistência. Com banho tomado e umas pataniscas no estômago, segue-se uma incontornável passagem pela equipa de médicos e enfermeiros no quartel. Já há bolha? Sim, mas não é ainda tempo de lhe enfiar a agulha com linha branca. Ao meu lado, porém, a sorte é outra, mas não se perde o bom humor. Não dói e a conversa segue animada. Linha branca, linha preta? Não importa. O importante e mexer a linha antes de sair, impedindo a bolha de encher.

Agora? é aterrar, se conseguir. O pavilhão segue cheio e ressonante. O melhor remédio será mesmo deixar-se vencer pelo cansaço.

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