“São experiências muito marcantes”, que podem “deixar problemas para o futuro” e contribuir para a existência de perturbações de caráter psicopatológico, como depressão, uso de substâncias ou ‘stress’ pós-traumático, advertiu Francisco Miranda Rodrigues, em declarações à agência Lusa,

Para prevenir estas situações, é essencial uma intervenção “num tempo muito curto após a tragédia” para que haja “uma recuperação no futuro o mais adaptado possível”, mas também é fundamental um acompanhamento a longo-prazo.

“É preciso antes de mais fazer uma estabilização inicial, nomeadamente a nível emocional”, para reduzir os sintomas que as pessoas estão a sentir naquele momento, explicou o bastonário.

Também é “muito importante” apoiar, acalmar e dar a estas pessoas “uma sensação de maior segurança” e fazer “uma conexão à rede de suporte social”.

Por vezes, também é preciso “treinar estas pessoas sobre como podem procurar ajuda e suporte”

“Muitas destas pessoas, nomeadamente os idosos, estão muito mais habituados a cuidar dos outros e estas situações acabam por apelar para algo que não estão muito habituados, que é pedir ajuda”, explicou Francisco Miranda Rodrigues.

O trabalho junto da comunidade também é essencial: “Quanto mais acreditarem que são capazes de lidar com as tarefas que agora têm pela frente, maior será a possibilidade de se readaptarem e se reabilitarem para uma nova fase e voltarem o melhor possível às suas vidas, que será necessariamente diferente”.

Há estudos que indicam que por cada vítima física em situações de catástrofe existem quatro a dez com necessidade de intervenção psicológica, indicou.

Contactado pela Lusa, o antropólogo Francisco Oneto Nunes afirmou que é surpreendente “a capacidade de recuperação e a vontade” das pessoas, havendo “renascimentos absolutamente notáveis”. Contudo, há casos em que “infelizmente isso não acontecerá”.

Para o investigador, o “fator decisivo” para as pessoas conseguirem “recuperar as suas vidas” e “processar e assimilar estes eventos” é o “tipo de apoio” que “poderão ou não beneficiar”, um domínio que “é sempre mais problemático”.

“Nós vimos nesta situação a quantidade de pessoas que enviou genuína e graciosamente alimentos, bebidas, mas é preciso muito mais”, defendeu o investigador do Centro em Rede de Investigação em Antropologia (CRIA) e do Departamento de Antropologia do ISCTE.

Além do apoio das entidades oficiais deve haver “estruturas capazes de apoiar as pessoas nestas situações” e que consigam “produzir ideias conducentes a uma política de gestão de território, a uma política de administração silvícola e florestal radicalmente diferente” da que existe atualmente.

“É preciso sair da lógica do culto desmesurado do dinheiro, do progresso, do crescimento como salvação para tudo, que depois no domínio da floresta tem esta consequência trágica que é quase como termos barris de pólvora prontos a explodir”, salientou Oneto Nunes.

Para o investigador, “é urgente” mudar este paradigma para “prevenir estas desgraças”. Mas, ao acontecerem, “as entidades públicas têm de assegurar que [as vítimas] vão ter “todos os apoios que vão necessitar”, tanto formais, legais, jurídicos, mas também o apoio humano, a mão amiga, o apoio psicológico.

“Muitas destas pessoas não têm rigorosamente nada em termos materiais para se poderem levantar e poderem renascer. Muitas delas perderam tudo”, elucidou.

O incêndio que deflagrou no sábado à tarde em Pedrógão Grande, no distrito de Leiria, provocou pelo menos 64 mortos e mais de 150 feridos.

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