"Isto é blasfémia", escreveram vários utilizadores da rede social Twitter em resposta à publicação da Pontifícia Academia para a Vida, que mostra a famosa Pietà, de Miguel Ângelo, a segurar o corpo morto de um Cristo negro ao colo.

A montagem da Academia, fundada pelo Papa João Paulo II em 1994, é acompanhada com a legenda “Uma imagem que vale um discurso”, mas foi preciso clarificar o significado da publicação - mesmo que muitos a apoiassem.

Instalada na Basílica de São Pedro, em Roma, a Pietà (Piedade, em português) é uma das  esculturas mais celebradas do Renascimento. Terminada por Miguel Ângelo em 1499, representa a Virgem a segurar o cadáver de Jesus, depois de descido da cruz onde foi crucificado e antes de ser sepultado, como conta a Bíblia.

No tweet podem ler-se comentários como "Sacrilégio ao extremo", "O Vaticano está a perder o norte" e "Monstruoso".

Mas também há quem veja a imagem como a passagem de uma mensagem positiva: "Este é o tipo de discurso de que precisamos!", "Alguma esperança. Mais disto!", "Isto é de partir o coração e bonito. Não percebo porque é que toda a gente está chateada. Maria apoia-nos a todos, sente a nossa dor, isto não é surpreendente."

Numa declaração citada pelo ABC, o porta-voz do órgão do Vaticano, Fabrizio Mastrofini, negou qualquer ligação com o Black Lives Matter. “Isso é uma manipulação politizada. Esta imagem quer ser uma mensagem de 360 graus contra o racismo”, esclareceu Mastrofini.

A ativista e professora Beatriz Gomes Dias vê este gesto anti-racista como “bastante importante”. “Ao colocar, numa peça icónica como a Pietà, um homem negro, que pertence a grupos historicamente oprimidos e que não aparecem nas representações da Igreja Católica — ou, quando aparecem, são-no sempre numa posição subalterna —, o Vaticano contribui para a visibilidade das pessoas negras e a sua representatividade no seio da Igreja”, disse ao Público.

A também deputada do Bloco de Esquerda vê nesta mensagem da Pontifícia Academia o sinal de que a instituição “está a acompanhar os debates contemporâneos sobre a representatividade, sobre os processos de exclusão, sobre a opressão que historicamente tem atingido determinados grupos”, e, ao fazer parte deste debate, “o Vaticano está a alargar o campo de análise e de discussão, e também a contrariar a narrativa supremacista que coloca as pessoas brancas no topo da hierarquia social e humana”.

O padre Anselmo Borges vê como “muito interessante” a iniciativa da Academia. Ao Público disse que "não temos nenhuma fotografia do Cristo real. Por isso, há muitas possibilidades de o imaginar”, logo, diz o professor de Filosofia, a fotomontagem da Pietà é uma forma de “dizer que Jesus é o salvador universal” e que, como “homem verdadeiramente universal, tem muitos rostos”.

“Não sabemos como ele era; por isso, é absolutamente natural que, em África, representem uma Nossa Senhora e um Menino Jesus negros, que na Ásia os representem com rosto asiático. O ser humano é sempre o resultado de uma herança genética e de uma cultura, e é preciso que o Evangelho se insira nas várias culturas”, defende Anselmo Borges.

O padre e professor não vê nenhum problema na associação com o movimento Black Lives Matter: “Todas as vidas merecem respeito. Com esta imagem, estamos a dizer que as vidas dos negros são importantes”, nota, lembrando que coube ao Cristianismo chamar a atenção para “os direitos humanos e para a infinita dignidade de todo o ser humano”.

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