Nos últimos meses, o nome de Leonard Cohen foi (ainda) mais falado do que é habitual. Dois acontecimentos fizeram com que assim fosse: a morte de Marianne Ihlen, companheira e musa de Cohen nos anos 60 (por muito que a expressão musa esteja fora de moda, ela e Leonard nunca estarão) e, mais recentemente, por causa do Prémio Nobel da Literatura atribuído a Bob Dylan.

Comecemos pelo mais recente. A polémica estalou com a atribuição – inusitada ou simplesmente primeira – de um Nobel a um músico. Entre críticos e fãs, instalou-se a discussão, no fundamento e na prática. E, sobre a prática, para muitos a questão era simples: se alguém da música devia ganhar um Nobel da Literatura, seria Leonard Cohen.

Algo que o próprio desvalorizou, constatando simplesmente que atribuir o Nobel a Bob Dylan era como dar uma medalha ao Evereste por ser a montanha mais alta. Discussão encerrada para Leonard Cohen, o músico que a única coisa que sempre quis ser foi escritor.

Meses antes, em julho, foi Marianne que entrou nas vidas de todos os que seguiam Cohen há décadas. Muitos sabiam o seu nome, poucos sabiam o que significava. É preciso recuar mais de 40 anos para perceber esta história. Com 25 anos, Leonard Cohen ganhou uma bolsa de 3000 dólares do Canada Council of Arts para estudar em Londres. Na capital inglesa, compra uma máquina de escrever Olivetti e uma gabardine azul da Burberry (sim, houve mesmo uma “blue raincoat”) e dedica-se à escrita. Corria o ano de 1960 e como recorda o editor da New Yorker, David Remick, o músico que estava longe de ser músico não podia imaginar que anos depois estaria a tocar na Isle of Wight para 600 mil pessoas.

O que ele sabia, mais do que imaginava, era a quem se queria dirigir. Adolescentes que sabem o querem, amantes em todos os graus de angústia, platónicos desapontados, curiosos de pornografia, monges e por aí fora.

Mas Londres era cinzenta e chuvosa e Cohen precisava de luz e de ânimo. Encontrou-o na ilha grega de Hydra, para onde viajou meio por acaso, e onde se instalou a escrever um romance intitulado “The Favourite Game” e a coleção de poemas “Flowers for Hitler”. Hydra, uma ilha de eletricidade intermitente, carros proibidos e onde conseguiu arrendar uma casa por 14 dólares por mês. Na ilha grega de Hydra, Cohen já pensava em Deus, sobretudo entre a escrita e algumas viagens aditivadas a químicos e outras drogas. “Apanhei pedradas atrás de pedradas no meu terraço na Grécia, à espera para ver Deus” – “geralmente acabava com uma grande ressaca”.

É também em Hydra que vai conhecer Marianne Ihlen, a nossa Marianne, aquela a quem todos dissemos “so long” vezes sem conta. Marianne, a norueguesa, casada com um escritor, Axel Jensen, mãe do pequeno Axel, que um dia se encontrou na mercearia com Cohen e que sentiu como se uma luz a atravessasse. Leonard and Marianne tornaram-se inseparáveis. Mesmo quando separados, mesmo quando zangados, mesmo quando se traíam. E quando Cohen começou a ser reconhecido pelas suas músicas, em meados de 60s, Marianne tornou-se a musa de músicas imortais como “Bird on the Wire,” “Hey, That’s No Way to Say Goodbye,” e, claro, “So Long, Marianne". Até que ao fim de oito anos, acabou. Não acabou o amor, atestam todos os que os conheciam, nem tão pouco a proximidade – mantiveram-se em contacto vida fora, mas acabou uma vida a dois. Ela voltou para a Noruega, ele era agora um músico já consagrado.

And you know that I’ve always loved you for your beauty and your wisdom

Este verão, em julho, Cohen soube que Marianne estava doente porque um amigo comum lhe escreveu a contar. E Leonard escreveu-lhe a ela, a sua musa e companheira. (o texto é aqui publicado em inglês, por ser tão mais fiel ao espírito com que terá sido escrito)

“Well Marianne, it’s come to this time when we are really so old and our bodies are falling apart and I think I will follow you very soon. Know that I am so close behind you that if you stretch out your hand, I think you can reach mine. And you know that I’ve always loved you for your beauty and your wisdom, but I don’t need to say anything more about that because you know all about that. But now, I just want to wish you a very good journey. Goodbye old friend. Endless love, see you down the road”.

Dois dias depois, Leonard recebeu uma carta de volta. Marianne tinha morrido. Em paz, garantiu-lhe o amigo comum, Jan Christian Mollestad e tendo sorrido ao ouvir o que Leonard lhe escrevera. Na sua última hora de vida, Mollestad cantou-lhe baixinho “Bird on the Wire,”. Tudo tão tristemente bonito.

A carta de Cohen e a resposta de Mollestad tornaram-se virais. O músico autorizou que fosse divulgada a pedido dos amigos de Marianne. “Uma vez que há uma música associada, e há uma história … É só uma história doce. Tendo isso em mente, não me desagrada”, confessou na entrevista a David Remick.

Nestes últimos anos, Leonard Cohen atuou um pouco por todo o mundo de forma mais ou menos regular, mas viveu em Los Angeles. Levantava-se cedo e escrevia. A filha e os netos moravam no andar de baixo e o filho e produtor do último disco uns quarteirões ao lado da sua casa. Conforme confessou na entrevista à New Yorker, não fosse a limitação do corpo, nunca tivera tanta capacidade de produzir e de se concentrar.

A minha família era decente. Eram boas pessoas … por isso nunca senti qualquer rebeldia

A família Cohen é judia, uma das mais respeitadas em Montreal, no Canadá. Viviam bem, tinham uma empresa de roupa, a Freedman Company. Cohen nunca foi um rebelde, pelo contrário. “Tenho um profundo sentido tribal. Cresci numa sinagoga que os meus antepassados construíram. A minha família era decente. Eram boas pessoas … por isso nunca senti qualquer rebeldia”. Mas Cohen perdeu o pai cedo, aos nove anos. Os tios garantiram que ele, a irmã e a mãe continuariam a ter uma vida confortável, e Leonard estudou e trabalhou nos negócios da família. Sempre quis ser escritor – nunca uma celebridade da música. Sylvie Simmons que escreveu a biografia “I’m Your Man” conta que os seus ídolos da adolescência eram Yeats e Lorca (a filha chama-se Lorca). Na universidade conhece o poeta Irving Layton e publica o seu primeiro poema, “Satan in Westmount”.

Mas a música já fazia parte da sua vida. Gostava dos blues, ouvindo nomes como Robert Johnson, Sonny Boy Williamson, Bessie Smith, e elegia cantautores de língua francesa como Édith Piaf e Jacques Brel.

John Hammond, que descobrira Bob Dylan em 1961, repararia em Cohen em 1966. Por essa altura, já tinha 32 anos e era um poeta e escritor, se não consagrado, com algum trabalho feito. Terá aceitado quando Hammond o convidou a cantar mais por sobrevivência do que por genuína vontade. Mas, instalado no quarto andar do Chelsea Hotel (sim, além da gabardine e da Marianne, também o Chelsea era real), passa a cantar à noite em bares e a conhecer pessoas. E por pessoas, queremos dizer … pessoas, como Patti Smith, Lou Reed, Jimi Hendrix e Janis Joplin. Aos 32 anos, Cohen entrava no “meio”.

Os laços que uniam os dois músicos de Hammonde, Dylan e Cohen, eram mais ou menos óbvios: ambos judeus, ambos literários, ambos com alguma propensão para imagens bíblicas. Contudo diferentes.

Reza a história que num dos encontros entre Dylan e Cohen, o americano lhe terá perguntado quanto tempo demorara a escrever "Hallelujah", uma canção que lhe interessava especialmente.

“Dois anos”, mentiu Cohen. Tinham sido cinco, na realidade.

Cohen devolve a pergunta: “Gosto muito de ‘I and I’ (música do álbum "Infidels", de Bob Dylan). Quanto tempo demoraste a escrever?”

“Cerca de 15 minutos”, foi a resposta.

Já este outubro, na apresentação do seu último trabalho, e depois de ter sido atribuído a Dylan o Prémio Nobel da Literatura, Leonard Cohen desmistificaria o fator tempo. “O facto de as minhas canções levarem tempo a ser escritas não é garantia da sua excelência”.

Em palco, Leonard Cohen foi um “animal” tardio. Só aconteceu com prazer - pela parte que lhe dizia respeito - no seu regresso aos espetáculos, motivado por razões financeiras entre 2008 e 2013. E, durante muitos anos, os seus discos estiveram longe de ser hits de vendas. Cohen, o artista, o músico, o poeta era já venerado, mas as vendas não se pareciam em nada com os valores de rock stars.

No início dos anos 80, lança “Various Positions”, até hoje um dos álbuns mais aclamados e vendidos, e Walter Yetnikoff, que liderava a CBS Records, teve dúvidas. O álbum foi um sucesso, mesmo com as reservas da editora, que Cohen aliás agradeceu com ironia numa entrega de prémios, dizendo que tinha sempre se sentido “sensibilizado” pela modéstia do interesse que tinham no seu trabalho.

Catolicismo romano, budismo, LSD, estou interessado em qualquer coisa que funcione

Nos anos 90, Cohen bebia muito, sobretudo por ter de subir a um palco e atuar. Estava também no fim de linha a sua relação com a atriz Rebecca de Mornay. E estava prestes a fazer uma mudança radical, tornando-se um monge budista em 1996.

A religião e a procura de respostas espirituais acompanharam-no toda a vida. “Tudo, catolicismo romano, budismo, LSD, estou interessado em qualquer coisa que funcione”, disse uma vez. Chegou a interessar-se por cientologia nos anos 60 e mais recentemente voltou à sinagoga e aos textos cabalísticos.

Durante quarenta anos, Cohen esteve associado ao mestre zen japonês, Kyozan Joshu Sasaki Roshi que morreu há dois anos com 107 anos. E foi pela sua influência que Cohen decidiu em 1993 integrar um mosteiro budista, Mt. Baldy, onde se tornou monge em 1996.

Foi quando passou a gestão da sua vida financeira para as mãos de Kelley Lynch, a sua manager ao longo de 17 anos e por um breve período sua amante. Oito anos depois, em 2004, Cohen descobriu que as contas bancárias tinham sido esvaziadas. O processo seguiu para tribunal – que decidiu em favor de Cohen, determinando a restituição de cinco milhões de dólares, mas o dinheiro não apareceu e o músico voltou aos palcos.

Tenciono ficar por cá até aos 120 anos. Tenciono viver para sempre

Regressou mais velho, com uma banda que ensaiou durante três meses e um coro de três extraordinárias vozes. Regressou a músicas que não cantava, em alguns casos, há 15 anos.

“A minha voz tinha mudado. O meu tom tinha mudado. Não sabia o que fazer”, contou na entrevista à New Yorker. A verdade é que a voz de Cohen, se já era única, profunda e intimista, agora estava senhorial. E foi essa voz de 70 anos que levou a 380 espetáculos, do Canadá, onde arrancou, a Moscovo, Sidney e Lisboa, onde esteve por duas vezes nos últimos 10 anos.

Leonard Cohen falou com David Remick da New Yorker durante o verão e o artigo que resultou dessa conversa foi publicado a 17 de outubro. Nessa ocasião revelou que tinha poemas e canções por terminar, mas que não acreditava que o conseguisse fazer. E voltou a dizer que estava preparado para morrer. “Espero que não seja muito desconfortável. É quanto basta para mim”. Já em outubro, em vésperas de lançamento do seu último álbum “You want it darker”, Cohen desdramatizou. “Tenciono ficar por cá até aos 120 anos. Tenciono viver para sempre”. E assim será.

(*)””Why It’s Good to Be Leonard Cohen”é o título de um clip de video produzido por um realizador que mostra uma conversa entre o poeta e músico e uma atriz.

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