O peso relativo da indústria europeia de calçado recuou drasticamente nas últimas décadas, de 30% da produção mundial nos anos 1980 para os atuais 3,2%, tendo os principais produtores europeus — Itália, Espanha e Portugal — apostado em diferentes estratégias.

“Ainda que 2020 seja um ano atípico, fruto do profundo impacto da pandemia no setor, que implicou uma queda da produção em 15,8% face a 2019, certo é que a Ásia respondeu por nove em cada 10 pares de calçado produzidos à escala mundial”, aponta uma análise divulgada pela Associação Portuguesa dos Industriais do Calçado, Componentes, Artigos de Pele e Seus Sucedâneos (APICCAPS) no âmbito da feira internacional MICAM, que decorre de domingo a terça-feira em Milão, Itália.

Desta análise resulta ainda que os principais ‘players’ de calçado europeus, designadamente a Itália (13.º produtor mundial em 2020), Espanha (17.º) e Portugal (20.º), adotaram “dinâmicas de intervenção distintas”, com Portugal a apostar na produção e Itália e Espanha a diversificarem a estratégia no sentido da reexportação.

Assim, a Itália, que desde há muito é o produtor de calçado de referência, registou uma quebra na produção na ordem dos 35% na última década, para cerca de 131 milhões de pares em 2020, muito longe dos 300 milhões de pares que chegou a produzir e, depois, exportar para todo o mundo.

Já a produção espanhola recuou de 95 para 72 milhões de pares no espaço de uma década (queda de 24,2%), enquanto Portugal, pelo contrário, desde 2010 aumentou a produção em 6,5%, para 66 milhões de pares.

Portugal representado em Itália na MICAM

O presidente da Associação Portuguesa dos Industriais de Calçado, Componentes, Artigos de Pele e Seus Sucedâneos destaca ainda que a presença portuguesa na MICAM “é da maior importância para retomar os negócios” e “um sinal de esperança” de que estará perto a “tão desejada normalidade”.

“A MICAM é a principal feira do setor e é muito relevante para as empresas portuguesas de calçado e marroquinaria, uma vez que reúne os maiores ‘players’ do setor a nível mundial”, salienta Luís Onofre, citado em comunicado.

Segundo a APICCAPS, “ainda que os dados internacionais apontem para uma recuperação plena do calçado a nível mundial apenas em 2023”, após o forte impacto sofrido com a pandemia de covid-19 (que provocou uma queda do consumo de calçado na ordem dos 20% a nível mundial), “no caso português, o último trimestre do ano [2021] superou já as melhores previsões”.

A indústria portuguesa de calçado exportou 1.676 milhões de euros no ano passado, mais 12% face a 2020 e 6% abaixo de 2019, tendo o último trimestre sido já “o melhor de sempre” (mais 6% do que em 2019) do setor nos mercados internacionais, para onde exporta mais de 95% da sua produção.

Apostado em manter o ritmo da recuperação, o calçado português apresentou na passada terça-feira uma nova campanha de promoção internacional, na qual os atores Albano Jerónimo e Anabela Moreira protagonizam alguns dos quadros mais emblemáticos de seis pintores portugueses de referência: Amadeo de Souza Cardoso, Almada Negreiros, Eduardo Afonso Viana, José Malhoa, Júlio Pomar e Paula Rego.

Sob o mote ‘Pode a indústria ser uma forma de arte?’ a APICCAPS propõe-se, com esta nova campanha, “reforçar a premissa de que a indústria é uma aliada dos artistas e, juntos, criam momentos únicos e objetos de desejo”.

Para Luís Onofre, “estas campanhas pretendem, mais do que elogiar o talento nacional e retratar uma identidade, abrir uma porta para o exterior”: “Na sua génese, pretendem valorizar a herança do passado e do que fazemos melhor, para que esta qualidade e beleza sejam apreciadas por todos, num mundo cada vez mais rápido e instável, e se cruzem com outros talentos e culturas, sejam um exemplo do que continua e perdura e encanta, mas sempre a aperfeiçoar-se em direção ao futuro”, explica o dirigente associativo.

Considerada a maior feira de calçado do mundo, a MICAM esteve inicialmente agendada para de 20 a 22 de fevereiro, mas, por razões de segurança relacionadas com a pandemia, a organização decidiu, em meados de janeiro, adiar a edição para março.

A APICCAPS recorda que o impacto da pandemia provocou uma queda do consumo de calçado na ordem dos 20% a nível mundial, que se traduziu numa quebra de quatro milhões de pares, “o equivalente a 70 anos de produção de calçado em Portugal”.

Na totalidade do ano 2021, Portugal exportou 69 milhões de pares de calçado, no valor de 1.676 milhões de euros, tendo as vendas crescido “em todos os mais relevantes mercados”, com destaque para o alemão, com um acréscimo de 28%, para 389 milhões de euros.

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