De acordo com a investigação do jornal New York Times (NYT), que teve acesso a um relatório sobre o caso conduzido por um gabinete independente para a conduta policial, nos meses que antecederam a morte, a mulher ligou para a polícia sete vezes, incluindo duas chamadas que fez em 8 de abril, dia em que morreu.

O relatório indica várias falhas por parte da polícia britânica no caso.

A primeira chamada aconteceu em maio de 2019, quando estava grávida do segundo filho. Na ocasião, a vítima disse à polícia que o seu parceiro tinha ameaçado que a iria matar, que era violento e “excessivamente ciumento”.

No entanto, a mulher não quis apresentar queixa do companheiro, então com 30 anos.

De acordo com o NYT, a portuguesa, que estava em Inglaterra desde 1999, queria ajuda, mas não quis invocar a lei. Segundo a mãe da vítima, esta amava o companheiro e esperava que ele mudasse.

A violência foi-se repetindo e, segundo a mãe e uma amiga da família, os desentendimentos do casal prendiam-se com o abuso de drogas por parte do companheiro.

A vítima voltou a chamar a polícia mais três vezes nos meses seguintes. Na quarta chamada, em novembro de 2019, afirmou que o seu companheiro a empurrou e imobilizou, tendo a portuguesa retaliado em sua defesa. Um agente da polícia “deu conselhos a ambas as partes”, segundo o relatório.

Em 29 de dezembro, a vítima ligou novamente à polícia – que a considerou “histérica” –, queixando-se de que o companheiro a tinha atingido na cara e agredido de tal forma no dia de Natal que mal podia respirar e que, no dia seguinte, este tinha empurrado a sua cabeça contra uma parede.

Devido à falta de meios, os dois agentes destacados chegaram apenas quatro horas depois da chamada. No local, o responsável marcou o casal como tendo “problemas de comunicação” e disse não estar “preocupado”.

Apesar da relutância da vítima em apresentar queixa, as autoridades poderiam ter procurado alternativas para assegurar o bem-estar da vítima.

O jornal norte-americano remete para um outro relatório de um gabinete de análise de queixas de violência doméstica, datado de 2014, no qual era dito que os agentes devem “construir o caso para as vítimas, e não esperar que as vítimas construam o caso para a polícia”.

A penúltima chamada da portuguesa para a polícia aconteceu na manhã de 08 de abril de 2020. A vítima disse que o companheiro a tinha atirado para a cama e apertado o seu pescoço, deixando marcas. Antes de sair de casa, o suspeito voltou a ameaçar que a mataria.

Nesse dia, a vítima concordou em apresentar queixa, tendo dito à polícia que tinha “perdido a conta” à frequência com que o companheiro a tinha agredido.

Poucas horas depois, o homem foi detido, em lágrimas enquanto era levado pelas forças de segurança. No mesmo dia, acabou por ser libertado. Os agentes descreveram-no como “arrependido”, tendo um dito que este não aparentava ser uma “ameaça”.

Sob uma diretiva que a polícia tinha recebido de que não poderia deter muitos suspeitos como forma de evitar a propagação de covid-19, o agressor foi libertado, tendo prometido que não iria visitar o apartamento da companheira ou entrar em contacto com esta. Mentiu.

Foi libertado às 18:04, sem supervisão policial, e, 20 minutos depois, contactou a vítima através da rede social Facebook, violando assim os termos da sua libertação.

Questionou-a, tendo esta respondido que a tinha agredido novamente e que “apenas queria ter uma família feliz”.

Segundo dados do seu telemóvel, o suspeito estava novamente no apartamento da vítima pelas 20:10. Três horas depois, a vítima fez um último pedido de ajuda, dizendo que o companheiro a tinha agredido e marcado.

O agente da polícia que atendeu a chamada não verificou o endereço da vítima ou o seu nome, segundo as transcrições, o que significa que este não tinha conhecimento de outros pedidos de ajuda.

Apenas após desligar a chamada, o agente, que perguntou à vítima se esta precisava de uma ambulância – algo que rejeitou – entendeu a gravidade da situação, depois de se ter deparado com um aviso da polícia sobre a morada da vítima.

Pelas 01:00 de 09 de abril, a polícia visitou a mãe da vítima para a informar de que a sua filha tinha morrido.

A portuguesa tinha 23 anos e sofria de uma condição cardíaca diagnosticada em 2015. Os exames realizados após a morte concluíram que as agressões poderão ter espoletado a falência cardíaca.

A mãe da vítima disse à polícia que este foi “o crime perfeito”, uma vez que o companheiro da vítima “sabia o que aconteceria se a perturbasse” e que esta poderia morrer.

Apesar da morte da portuguesa, o Ministério Público desistiu da acusação por homicídio involuntário, depois de um cardiologista contratado pelos advogados do suspeito terem argumentado que o problema cardíaco poderia ter sido resultado das agressões ou apenas de uma discussão verbal.

A vítima integrou assim uma estatística tenebrosa, passando a ser uma das 16 mulheres ou crianças que morreram em alegados homicídios domésticos durante o primeiro mês de confinamento no Reino Unido – o triplo do registado no mesmo período de 2019.

O suspeito, sentenciado a 10 meses de prisão por agressões graves, cumpriu pena e encontra-se em liberdade.

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